VISÃO PERIFÉRICA


Amnésia anterógrada: preço da gasolina, aumento da energia em Rondônia e Lava Toga são assuntos perdidos na memória coletiva

personVISÃO PERIFÉRICA date_range08 Mai 2019 - 13h50

Amnésia anterógrada: preço da gasolina, aumento da energia em Rondônia e Lava Toga são assuntos perdidos na memória coletiva



O estopim para a deflagração do distúrbio que afeta a capacidade de armazenamento de informações ocorre a cada trauma



Porto Velho, RO – A vida imita a arte? De vez em quando, oras! Um exemplo prático que pode servir de parâmetro a Rondônia é a tragicomédia romântica Como Se Fosse a Primeira Vez (2004), dirigida por Peter Segal e estrelado pela dupla veterana Adam Sandler e Drew Barrymore.



 



No longa, Barrymore interpreta a doce Lucy Whitmore, uma moça cuja memória fora afetada após gravíssimo acidente de carro; a partir dali, passa a recordar apenas dos eventos ocorridos em sua vida até poucos momentos antes do sinistro.



Vítima da fictícia síndrome de Goldfield, Lucy acorda todos os dias sem se lembrar das 24h anteriores, mantendo seu calendário cerebral congelado no tempo.



Embora Goldfield não exista, a enfermidade crônica fora inspirada num distúrbio real: amnésia anterógrada é o nome da desgraça.



Os portadores dessa condição perdem – via de regra – a capacidade de memorizar qualquer coisa após o evento que a desencadeou, geralmente traumas físicos ocasionados por doenças ou acidentes.



E tirando a comédia e o romantismo da coisa deixando na fórmula apenas a tragédia, subtraindo a síndrome inexistente e aplicando ainda o diagnóstico de amnésia anterógrada, encontramos em Rondônia a nossa própria adaptação ao roteiro.



Do começo do ano para cá, muitos traumas nos atingiram de maneira bastante significativa. Exemplos não faltam: o preço da gasolina que subiu, o valor das contas de energia disparando e a omissão da bancada federal rondoniense quanto à necessidade de se instalar a CPI da Lava Toga.



No último caso, é necessário apontar o meio-de-campo imprescindível patrocinado pelo senador Marcos Rogério, do DEM, que, contrariando não só seus eleitores, mas sim a população praticamente inteira do estado, ajudou a enterrar a CPI na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado Federal.



Já a respeito da assunção obtida pela Energisa SA em relação aos serviços até então praticados através das Centrais Elétricas de Rondônia (CERON), tanto a bancada federal quanto deputados estaduais – e até o governador Marcos Rocha (PSL) – bateram o pé a fim de firmar sua indignação com os 25,34% de aumento na tarifa dos rondonienses.



Depois de altas articulações, para não dizer o contrário, promovidas especialmente pelo líder Lúcio Mosquini (MDB), além de muita conversa fiada, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou uma redução pífia que não chegou a 7,5%, sacramentando o acréscimo em 17,87%.



É como se arrancassem os seus dois braços e, por benevolência, devolvessem as mãos suturando-as diretamente nos ombros. Bom, neste caso aí pelo menos você pode acenar para os amigos.



Também há o cenário que diz respeito ao governo federal, e quando se fala em governo federal é óbvio que, pelo bem ou pelo mal, a figura por detrás é Jair Messias Bolsonaro (PSL).



Bolsonaro tem o corpo político todo liberal, mas usou o dedão estatal para frear o aumento do diesel nas refinarias, e é óbvio que a Petrobras colocou o rabo entre as pernas e obedeceu, como ocorreu com sua antagonista ideológica Dilma Rousseff (PT). 



E lições sobre neoliberalismo com tendências marxistas não estão nos livros de expoentes da Escola de Chicago como Milton Friedman nem da Escola Austríaca, a exemplo de Ludwig von Mises. O bolsonarismo, de fato, é singular: cada um que faça seu juízo de valor.



Agora, curioso é assistir ao silêncio sepulcral dos políticos de Rondônia enquanto o preço da gasolina nas bombas chega à média de R$ 4,76 o litro. 



Isso não ocorria, por exemplo, à época da greve dos caminhoneiros em 2018 quando os agentes púbicos aproveitavam a imagem de Michel Temer (MDB), o presidente com apenas 7% de aprovação popular, para pintar e bordar.



É nítido o receio de alguns eleitos em bater de frente ou mesmo criticar de maneira suave qualquer medida da gestão à frente da União. Nada. Zero. Nem um pio!



Se não existem mais manifestações políticas e/ou populares após essas pauladas, não há como considerar qualquer outro caminho: estão todos sofrendo de amnésia anterógrada. E gostaria de dizer que esta é a volta inaugural no ciclo vicioso, mas, embora soe como se fosse a primeira vez, a sensação nauseante me diz que estamos, no mínimo, na milionésima volta.



 

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POR: VINICIUS CANOVA