VISÃO PERIFÉRICA


Fake news – O perfil tragicômico das eleições em Rondônia

personVISÃO PERIFÉRICA date_range22 Jun 2018 - 09h07
 




Porto Velho, RO – “Pai Raimundinho de Oxóssi joga os búzios e prevê vitória de Confúcio. Segundo ele, ‘nem Tranca Rua pode com um filho de Ogum’”. Este é o título de uma publicação veiculada no dia 16 de outubro de 2010, há quase oito anos.



Doze dias antes, findou-se o primeiro turno das eleições em Rondônia. No quadro geral, os então candidatos Confúcio Moura, hoje no MDB, e João Cahúlla, à época no PPS, foram agraciados com o voto da população e alçados à condição de uma nova disputa só entre ambos no segundo turno.



O emedebista sagrou-se, então, e pela primeira vez, chefe do Executivo estadual. Seu adversário, por outro lado, perdeu o posto após míseros sete meses de governo e hoje é aposentado de forma vitalícia graças a um dispositivo legal – já extinto – que concedia o benefício a ex-mandatários e suas respectivas viúvas. Mas divago...



A origem do conteúdo que inaugura este artigo? Falso, mentiroso e doentio. Uma página criada na plataforma Wordpress onde é perfeitamente possível ter um website na internet sem pagar absolutamente nada – até hoje. Rápido, fácil. O enquadramento emulava exatamente as características e propriedades do Blog do Confúcio, que já existia e está no ar até hoje, emprestando similitude ímpar ao engodo virtual.





Página falsa contra Confúcio, criada em 2010, ainda está no ar / Foto: Reprodução



A ideia dos malandros era jogar o então candidato contra as liderenças evangélicas. Com um amontoado de bobocas e preconceituosos pululando imbecilidades acerca das religiões afro-brasileiras, ou sobre quaisquer temas que possam destoar de seus dogmas arcaicos e ridículos, a notícia falsa plantada era um prato cheio à discórdia.



Aqui é perfeitamente plausível e aceitável um cidadão pobre sem ter onde cair vivo entregar o pouco que lhe resta para subsistência a um estelionatário da fé cristã.  Em contrapartida, qualquer tipo de contato com expoentes das crenças de matrizes africanas está fadado ao apedrejamento público.



Agora, se Confúcio foi eleito é óbvio que a tramoia não prosperou. E existe um porquê.



O Facebook, por exemplo, existe desde fevereiro 2004; nós, entretanto, passamos a utilizá-lo de forma contumaz a partir de 2011, quando o negócio virou febre no Brasil. Adeus, Orkut!



As redes sociais se tornaram ferramenta visceral de viralização de conteúdo – e isto, claro, é um verdadeiro cutelo de cortar ossos de dois gumes. Sem conhecermos ainda o potencial de proliferação a jato de informações – verdadeiras ou falsas – o encontro entre Confúcio e o babalorixá Raimundinho de Oxóssi, personagem que nunca existiu, diga-se de passagem, foi notícia aqui e acolá na imprensa, mas não vingou como seus criadores imaginaram.



E este é só um exemplo de que o tema não é recente. Recente é o neologismo fake news, outro anglicismo incorporado à línguagem brasileira e absorvido pela imprensa pátria principalmente após o último pleito presidencial nos EUA.





Vídeos satíricos no YouTube fazem parte da guerra eleitoral / Foto: Gregory Rodriguez



A ativista Luciana Oliveira, o cientista político Vinicius Miguel, a historiadora Rita Vieira e eu, mediados pela competente professora Larissa Zuim, também jornalista, debatemos o assunto fake news especificamente voltado às eleições. Pelo histórico ascendente de libertinagem virtual, 2018 será um ano de baixarias. Talvez do fundo do poço. E de lá é que talvez possamos ressurgir para reconstruir migalhas de civilidade, como bem pontuou a mestra Rita Vieira. Os escritórios de advocacia já estão em polvorosa, inclusive, com teses prontíssimas a disparar representações e só aguardando para encaixá-las nos casos concretos.



Lorota vai custar caro, já adianto.





Professora Rita Vieira: uma aula de história sobre a origem das notícias falsas / Foto: Gregory Rodriguez



O nosso bate-papo ocorreu na mesa redonda durante a XXIII Semacom, na última terça-feira, 19, no auditório da Uniron – campus shopping.



A realização do evento que ainda está em andamento é da Agência Júnior de Comunicação (UCOM). Neste ano, a agência é coordenada pela professora Larissa Zuim e comandada pelo diretor-presidente Neto Ramos, acadêmico.



Estão todos de parabéns pelo engajamento. Ah, sim, o pessoal aí debaixo colaborou também:





Acadêmicos membros da UCOM, responsável pela XXIII Semacom / Imagem: Divulgação



Meu xará Vinicius Miguel fez questão de deixar claro que a internet não é terra sem lei como muitos querem crer; gente sem escrúpulos terá de responder por eventuais mentiras, ataques e grosserias tanto na esfera cível quanto no âmbito penal.



Luciana, profissional independente na área da comunicação, relembrou o episódio em que um deputado federal se safou no Conselho de Ética (?) da Câmara Federal após publicar notícia falsa e fazer comentários indecorosos sobre a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março deste ano.





Mesa composta no evento para discutir fake news nas eleiçoes / Foto: Gregory Rodriguez



O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara arquivou o processo que pedia a cassação do mandato do deputado Alberto Fraga (DEM-DF). Por 10 votos a um, o colegiado aprovou parecer do deputado Adilton Sachetti pelo arquivamento da representação protocolada pelo PSOL, que acusa Fraga de usar as redes sociais para difamar e caluniar a vereadora. Fraga escreveu no Twitter que Marielle “engravidou aos 16 anos”, “era ex-esposa do traficante Marcinho VP”, “usuária de drogas e defensora do Comando Vermelho”.



Tudo mentira.



E este passar de mãos na cabeça patrocinado pelo Legislativo é a prova cabal de que estamos em cima do ringue de vale-tudo. Logo, conforme frisei aos jovens e demais membros da plateia na XXIII Semacom, a única maneira de refrear os efeitos danosos impelidos pelo ímpeto maculado de tipos que desconhecem moral e ética é contra-atacar na seara dos argumentos e apontamento de fontes: a pá de cal da sapiência.



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E segue a XIII Semacom, viu? Amanhã tem mais. Olha aí...







Autor / Fonte: Vinicius Canova


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POR: VINICIUS CANOVA