Edson Lustosa


O VELHO E O OVO

personEdson Lustosa date_range06 Jul 2018 - 10h15

Por recomendação de uma colega jornalista, achei de me “reinventar” nessa coisa de notinhas curtas para internet. Lancei-me então na proposta da coluna – mais proposta do que coluna – Tristes Tópicos. Puro experimentalismo de resultado. Pra ver o que dá.



Dez notas de três linhas e meia… e correr pro abraço! Ou pro embaraço. Textos curtos não encurtam minha língua. Assim como não ter o hábito de morder – uma sinecurazinha daqui, outra dacolá – não me faz menos mordaz. Síntese: mordo a língua vez por outra.



Inaugurando a tal coluna Tristes Tópicos, enviei o texto para alguns sites de amigos meus. Gente amiga mesmo, que já demonstrou solidariedade em momentos difíceis. Gente com quem sei que posso contar em situações menos perigosas que publicar meus textos.



Compreendi perfeitamente a decisão dos colegas e, se já me entregara de corpo à internet, acabei por fazê-lo também de alma. Publiquei meu texto na página Opinião Rondônia, do Facebook; no meu próprio blog, no blog Viva Rondônia; e compartilhei a postagem com amigos.



Enviei também, mas a essa altura já me sentindo fora do circuito e sem esperança de publicação, para o site Gente de Opinião. A receptividade se materializou no tratamento visual: ganhei chamada na página inicial com fotografia e tudo. Até melhorei da depressão.



Senti-me, por assim dizer, “reabilitado”. A fotografia usada pelo site contribuía para isso. Um dos não poucos momentos felizes do colega jornalista Aldrin Taborda – e meu, certamente – que, numa festa de formatura, registrou-me numa ameaça de sorriso. É minha “foto oficial”.



Nos tempos do A Tribuna, com o suplemento semanal Papiro, nos tempos do O Guaporé, com a coluna diária Geleia Geral (marca que depois veria aproveitada por colegas em outros jornais), era sempre aquela reação do “dia seguinte”: os comentários, as críticas… censuras também.



Na internet as reações são imediatas. Umas, mais estouradas; outras, mais respeitosas. E, neste segundo grupo, o convite à reflexão que recentemente me foi feito pelo velho (nos dois sentidos da palavra, como ele mesmo enfatiza) amigo Amadeu Machado.



Dr. Amadeu me fez refletir sobre a interpretação que poderia ser dada a uma nota que integra a coluna Tristes Tópicos de 20 de novembro, anteontem. Na verdade duas notas seguidas. Não para reiterá-las, mas para sarjar a inflamação, reproduzo-as aqui:



SUPERSECRETÁRIO – Pelos nomes que vêm sendo lançados como prováveis secretários da administração que se iniciará em 1ode janeiro próximo, em Porto Velho, sob a batuta do empresário Hildon Chaves, deduz-se que Antônio Ocampo será uma espécie de supersecretário. Afinal, é o único museólogo na lista.



UNIVERSITÁRIOS – Tomando-se como verdadeiras essas especulações que vêm sendo lançadas na mídia até mesmo por colaboradores próximos do prefeito eleito Hildon Chaves, chega-se a supor que, tendo ele buscado ajuda dos universitários, errou a porta do curso de administração e entrou no de arqueologia.



Pode rir, leitor. Se lhe apraz. Afinal de contas, mesmo tendo no meu currículo a passagem pela coordenação de comunicação social do sisudo Tribunal de Justiça, nunca consegui me desprender dessa ironia que, lá atrás, anos 80, me abriu as portas do saudoso Pasquim.



Mas é exatamente aí que mora o perigo: a ironia. Um educador, Professor Nazareno, que publica habitualmente artigos nos sites porto-velhenses, tratou de forma escancarada a questão: “Hildon Chaves do PSDB, já escolheu o seu “novo” staff para administrar...”.



E prossegue: “...pelos próximos quatro anos a pior capital do Brasil em qualidade de vida, chega-se à triste conclusão de que esta fedida cidade é mesmo uma dádiva de Deus ao contrário e que não restam dúvidas de que Satanás é mesmo o seu protetor maior.”



A apoteose: “O “Gabinete Naftalina” ou “Museu dos Espantalhos” (...) traz uma relação sinistra de nomes velhos e conhecidos da política e da administração local que, em tese, são também corresponsáveis pelo estado de penúria em que se encontra a capital.”



E justifica seu raciocínio com um argumento no mínimo plausível, ainda que genérico: “Porto Velho não se transformou de uma hora para outra na latrina que é: foram anos de descaso, péssimas administrações e incompetência que nos transformaram nesta favela.”



Tal diferença de estilo, entretanto, não me faz sentir-me menos culpado. Nas aulas de direito penal, com o mestre Dimas da Fonseca, na UNIR, aprendi que, quando o autor usa ardilosamente de sutilezas e malabarismos frasais, maior deve ser a pena, se condenado por ofensa à honra.



Os doutrinadores justificam que assim deve ser porque o indivíduo se entregou mais à prática do delito. Entendo que, se o desbocamento não é fortuito, mas contumaz, também se evidencia a determinação em cometer o delito. Mas isso é apenas uma digressão.



Voltando aos Tristes Tópicos: depois do texto do Nazareno, passo a refletir já não no que escrevi (redação), mas no porquê de o ter escrito (motivação). O que pode ter-me incomodado nos nomes especulados para compor o secretariado de Hildon Chaves?



A velhice? Alguma espécie de “gerontofobia”? Ora, mas quando ainda nem se admitia que fosse Hildon o candidato do PSDB e os nomes de possíveis candidatos a prefeito incluíam diversas opções que nem se concretizaram, descaradamente demonstrei meu apreço por Odacir Soares.



Em artigo intitulado “Quem quer ser prefeito de Porto Velho?”, fiz a Odacir mais reconhecimentos que críticas. E ressaltei sua experiência. Logo, não seria a idade, propriamente, o que me inclinaria a um pensamento mais crítico ao suposto secretariado de Hildon.



Então, o que foi? Percebo que a resposta que melhor se desenha é a tipicidade dos perfis: partícipes de gestões pretéritas. Daí a alusão ao passado, à arqueologia, à museologia. E não à naftalina, a que faz menção o professor Nazareno no texto que fez publicar.



E a tipicidade dos perfis não apenas pelos perfis, mas pela própria tipicidade: se Hildon pretende reduzir o número de secretarias para dez, porque reservaria mais que a metade para a velha guarda? Que intenções, ou pretensões, poderiam estar escondidas aí?



Pois bem: certamente o prezado leitor já deve ter visto nos templos de algumas igrejas recém-inventadas uma bandeira de Israel. Por que ela está ali? Por que é a forma de se sentirem mais realistas que o rei. Mais vinculados ao compromisso bíblico que a Igreja Católica.



As igrejas evangélicas mais tradicionais não incorrem nessa papagaiada. Já têm sua tradição de alguma forma consolidada, ainda que bem menor que a da Igreja Católica. Mas as recém-criadas sentem uma enorme necessidade de demonstrar raízes bíblicas.



Aliás, tal compulsão as leva a uma excessiva ênfase na fundamentação veterotestamentária. É muito Moisés e José do Egito pra pouco Jesus Cristo e demais personagens da nova e eterna aliança que povoam os Evangelhos, Atos e epístolas.



Faça-se agora uma compressão cronológica para caber na história política de Porto Velho. Será que Hildon – em sendo verdadeiras tais especulações quanto a seu secretariado – não estaria buscando esse enraizamento para superar um certo complexo de migrante da última safra ?



Se é isso, então não estaria propriamente prestigiando, como forma de reconhecimento, o mérito dos nomes especulados. Mas, em verdade, tomando-lhes emprestado o prestígio. Aquelas coisas que às vezes são sopradas por conselheiros que se aproximam depois do resultado das urnas.



Se o prezado leitor chegou a essa altura deste texto é porque muito provavelmente não constitui a grande massa dos que têm pressa e leem notinhas como quem se alimenta de pílulas. Pois bem, vejam que diferença faz podermos nos estender em uma análise.



Destarte, uma vez esclarecido que, em nenhum momento, minha ironia se voltava às pessoas que tiveram seus nomes especulados como prováveis secretários, mas, sim, ao fato político a que tais especulações se referem, creio que já posso ir dormir. Não o faria sem tal providência.



Como última observação, sugiro ao novo prefeito que, se – e somente se – for verdadeira sua intenção de reforçar-se administrativamente com a experiência de homens do quilate dos que foram especulados, inspire-se na iniciativa de seu correligionário João Dória.



Homem de gestão, Dória inova a política paulistana anunciando a criação de um conselho que reunirá os ex-prefeitos. A octogenária Luíza Erundina, do auge de suas convicções trotskistas, foi a primeira a aplaudir a iniciativa, reconhecendo o mérito do tucano.



Digo “inspirar-se” e não “copiar”. No caso, Hildon poderia reunir em um Conselho Municipal de Gestão não apenas ex-prefeitos (aliás, alguns devem ser até evitados), mas homens (e mulheres) que reúnam experiências exitosas de gestão pública. Gente do bem.



Sinceramente entendo que confinar um Tião Valadares ou um José Vitachi em uma secretaria específica, com atribuições mais operacionais ou táticas que estratégicas, seria um desperdício de capital humano muito grande. Algo impróprio do que Hildon prometeu ao povo.



Ao velho amigo Dr. Amadeu Machado – inexoravelmente cada vez mais velho e providencialmente cada vez mais amigo – meu agradecimento sincero. E que sua atitude de questionamento sirva de exemplo e estímulo a outros que se deparem com as letras que junto em frases.



Agradeço a todos os amigos que prestigiam o que escrevo. De todas as minhas compulsões, escrever certamente é a mais social. E parabenizo o colega Gessy Taborda, pioneiro do webjornalismo em Rondônia, pela iniciativa do grupo Informação sem Censura: um motivo a mais para acessar o Facebook.



Ah, sim… o título, né? É minha homenagem a Clarice Lispector, que afirmava ela mesma não conseguir entender o que tencionava dizer com seu conto O Ovo. O velho a gente conhece. O ovo está sempre por vir. À cama agora, porque serotonina é fundamental.


Sobre o autor

Edson Lustosa

Edson Lustosa é jornalista há 30 anos e coordena o projeto Imprensa Cidadã, do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito e Justiça. Escreve às segundas, quartas e sextas-feiras especialmente para o Que Notícias?.