A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR Celso Lungaretti )


SOBRE A MORAL REVOLUCIONÁRIA E O IMPERATIVO DE SERMOS VISTOS COMO ALTERNATIVA À PODRIDÃO BURGUESA – 1

personA VISÃO DEMOCRÁTICA (POR Celso Lungaretti ) date_range09 Mai 2018 - 05h55

Como às vezes uso em meus textos a expressão moral revolucionária, um companheiro me perguntou o que isto significava.


 


Fiquei meio encabulado, pois não se trata de algo que eu possa atribuir a texto(s) específico(s), mas sim a várias experiências vividas e observações feitas ao longo deste meio século em que venho travando o bom combate.

 

E as lições que extraí dessa prática tiveram também alguma influência de uma infinidade de análises que li, espalhadas pelos trabalhos de vários autores que dissecaram a imoralidade suprema do nosso campo, o stalinismo. Era o exemplo negativo que jamais poderia se repetir, então minha geração se empenhou muito em discernir como aquele mostrengo totalitário se engendrara, para prover os antídotos.


 


Despretensiosamente, alinhavo algumas conclusões a que cheguei e estão mais ou menos no espírito do tema:


 


— devemos resistir sempre à tentação de transmitir a nossos públicos visões simplificadas, mais fáceis de entender, mas que na verdade sejam manipulatórias e mentirosas. Tanto a comunicação do Hitler quanto a do Stalin operavam dessa maneira. 


Em termos teóricos, é fundamental jamais esquecermos que somos dialéticos e não maniqueístas, portanto nunca devemos nos colocar como portadores de toda a verdade e satanizar desmedidamente os inimigos. 





Nossa comunicação, enfim, deve ser esclarecedora, consistente e veraz, não eficaz e conveniente mas falsa. A verdade é revolucionária. E, como não somos utilitaristas, para nós os fins não justificam os meios, estando, isto sim, em interação dialética com os ditos cujos, de forma que, se utilizarmos meios infames, nossos fins ficarão inevitavelmente amalgamados com a infâmia.

 



— as polêmicas com adversários pertencentes ao campo da esquerda devem ser travadas sempre respeitosamente, visando convencê-los e atraí-los para nossas posições. Discussões agressivas, implacáveis, só cabem contra os inimigos de classe e os pregadores da barbárie.



 


— as disputas pela hegemonia dentro de nossas organizações devem sempre ser travadas, pelas tendências existentes, com foco nas idéias. É altamente negativa a disputa de nichos de poder com a utilização de todos e quaisquer meios e fazendo vistas grossas ao jogo sujo. Se nem entre nós conseguirmos estabelecer relacionamentos civilizados e realmente democráticos, o que teremos para transmitir à sociedade?












Seria fácil, mas fatal, surfarmos também na onda da corrupção


 

— nossas organizações devem sempre estimular e propiciar as discussões esclarecedoras, ao invés de achatá-las com o peso da autoridade dos dirigentes. O pensamento crítico é vital para nós, pois sem ele estagnamos, tornando-nos repetitivos e, com o tempo, irrelevantes.


 


— a democracia interna e a transparência devem ser as máximas possíveis, só limitadas por imperativos de segurança (e precavendo-nos para que falsas alegações de riscos de segurança não sirvam de pretexto para os dirigentes se livrarem de questionamentos indesejáveis).


 


— travamos uma luta de amplitude mundial e temos o dever de não só dar apoio efetivo a outros povos, como também aos companheiros estrangeiros que estejam sofrendo discriminação e perseguições em nosso país. A solidariedade revolucionária é sagrada para nós e como tal deve ser encarada, respeitada e praticada!


 


— e, óbvio ululante, temos a obrigação de jamais cedermos às tentações e facilidades da sociedade atual, já que servimos de (e somos vistos como) exemplos vivos dos ideais que pregamos. Então, p. ex., mesmo sabendo que os recursos públicos são quase sempre mal gastos, não podemos jamais aproveitar as posições que tenhamos obtido no aparelho de Estado burguês para desviá-los em benefício de nossas organizações ou, pior ainda, de nós mesmos.












"Jamais cedermos às tentações da sociedade atual"



Seria bem mais fácil surfarmos também na onda da corrupção do que sustentarmos nossas atividades com doações de companheiros, promovendo rifas, espetáculos, festas, etc. Mas, é fatal. Coloca nas mãos dos inimigos armas poderosas para destruírem nossa credibilidade aos olhos do povo.




No passado já aprendêramos tal lição mas, alunos relapsos que somos, tivemos de recebê-la de novo, da pior maneira possível.É absolutamente indispensável mantermo-nos e sermos vistos como alternativa à podridão da sociedade burguesa, e não como cúmplices ou condescendentes com ela.


 


Enfim, estas foram algumas das lições que aprendi na minha longa prática; outras certamente devem existir, que não me tenham ocorrido neste momento. 


 


Para finalizar, fui dar uma passada de olhos no livro A moral deles e a nossa, escrito por Trotsky no fim da vida (1938) e, provavelmente, a melhor sistematização dos valores éticos dos revolucionários. 


 


Na segunda parte deste post, apresentarei uma seleção de trechos que vale a pena citar neste contexto, alguns até coincidentes com minhas mal traçadas linhas (mas, sinceramente, fazia uma eternidade que não os lia...).


(continua neste post)


 




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