A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR Celso Lungaretti )


TRATAR OS EXTREMAMENTE POBRES COMO 'SERES INVISÍVEIS' É VERGONHOSO E DESUMANO, OUVIU, GUEDES?

personA VISÃO DEMOCRÁTICA (POR Celso Lungaretti ) date_range07 Nov 2019 - 12h30




josias de souza


CONVITE ÀS AUTORIDADES: PASSEM O MÊS


 COM R$ 145


Há no Brasil 13,5 milhões de estômagos que sobrevivem com menos de R$ 145 por mês. Isso equivale a R$ 36,25 por semana. Ou R$ 4,83 por dia. Um Big Mac sai por R$ 16,90. 


 


Ou seja, um sanduíche consome a renda de três dias desses estômagos, alojados no organismo dos brasileiros que o IBGE chama de extremamente pobres


 


Os dados são de 2018. Atrasando o relógio, verifica-se que o contingente vem aumentando desde 2014, quando Dilma Rousseff arruinou a economia do país. 


 


Para esses brasileiros que trazem um espaço baldio entre o esôfago e o duodeno, o debate sobre direita e esquerda, políticas liberais versus políticas sociais é uma inutilidade indigesta. Se Deus tiver que aparecer no pesadelo dessa gente, não será na forma de Bolsonaro ou Dilma. O Todo-Poderoso não se atreveria a surgir em outra forma que não fosse a de um prato de comida. 


 


Em entrevista publicada no último domingo (3), na Folha de S. Paulo, o ministro Paulo Guedes lamentou que não tenha prosperado sua proposta sobre o regime previdenciário de capitalização. Declarou que esse modelo "educaria financeiramente as famílias mais pobres". 




 


Como assim? "Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo". O IBGE esclarece que os mais pobres consomem nada. 


 


A economia começa a reagir. Mas a reação é demasiado lenta. E o estômago que vive além das fronteiras da pobreza não dispõe de tempo para esperar pelo dia em que conseguirá educar-se financeiramente a ponto de poupar, como deseja Paulo Guedes. 


 


O mundo desses estômagos cabe no intervalo entre uma refeição e outra. Seu relógio biológico só tem tempo para certas horas: a hora do café, a hora do almoço, a hora do jantar… Nessa rotina, a hora da poupança não se encaixa. 


 


Certas autoridades deveriam passar um mês com R$ 145. Chegariam ao final da experiência com uma fome de ministro —ou de presidente da República. Dessas que o sujeito resolve abrindo uma geladeira bem abastecida. 


 


Talvez percebessem que as reformas liberais não precisam ser adotadas em detrimento das políticas sociais. Afinal, para que serve o equilíbrio fiscal senão para resolver o drama social de forma consistente? 




 


Um governo instalado há apenas dez meses tem o legítimo direito de colocar em prática as ideias que prevaleceram nas urnas recém-abertas. Seria uma tolice questionar esse direito. 


 


Admita-se, para efeito de raciocínio, que as providências encaminhadas pela atual administração serão um sucesso. Ainda assim, a prosperidade não virá instantaneamente. 


 


Convém abrir os olhos para os extremamente pobres. Tratá-los como seres invisíveis é vergonhoso e desumano. 


 


Criticar os governos anteriores não resolve o problema dos estômagos em cujas paredes ardem os jatos de suco gástrico. Melhor buscar maneiras de atenuar o drama da transição entre a fome e a bonança que produzirá hipotéticos excedentes para a poupança. (por Josias de Souza)



Walter Franco morreu há duas semanas, mas sua música continua conosco. Assim


como continuam por aí aqueles que a inspiravam. É o caso de Canalha: o post


dá uma boa noção do quanto a quantidade deles aumentou desde 1979. 



 




Sobre o autor

A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR Celso Lungaretti )