Religião

A TRADIÇÃO ( COM T MAIÚSCULO)


bookmark_borderRELIGIÃO E FÉ date_range06 Nov 2017 - 03h25 personARMANDO ALEXANDRE

Os autores eclesiásticos clássicos davam, de modo geral, muito valor à tradição oral dos fiéis. Que tradição é essa? É o conjunto de conhecimentos que foram sendo passados por via oral, no bom povo de Deus, de geração em geração, de pessoa a pessoa, através do séculos.



Para muitos espíritos modernos, esse pode bem parecer um sistema anacrônico e não muito confiável de transmitir conhecimentos. A tradição, entretanto, ainda quando mesclada com alguma dose de mera legenda, é de incalculável valor no estudo verdadeiramente científico da História. Uma tradição solidamente assentada tem, para o estudioso da História, valor muito grande. Por vezes até, quando aparece um documento escrito contradizendo frontalmente uma tradição sólida, o historiador prudente e equilibrado começa por duvidar da autenticidade ou veracidade do documento, antes de pôr em dúvida o que sempre e por toda a parte se teve como certo.



De fato, nos tempos em que a escrita era pouco disseminada, em que os povos não se comunicavam entre si a não ser muito esporadicamente, a maior parte dos conhecimentos humanos era transmitida oralmente, de pessoa a pessoa, de geração em geração.



A Igreja sempre considerou com respeito as tradições antigas dos fiéis. E, sobretudo, sempre acatou de modo especialíssimo a Tradição - note–se aqui a inicial maiúscula.



O que vem a ser essa Tradição, com T maiúsculo?



Nosso Senhor Jesus Cristo pregou aos homens durante três anos, e com sua Paixão e Morte confirmou e selou o que ensinara. Mas não deixou nenhum ensinamento escrito. Aliás, a única ocasião em que os Evangelhos registram ter Nosso Senhor escrito alguma coisa, foi quando, para confundir a hipocrisia dos fariseus que desejavam apedrejar a pecadora (cfr. Jo 8,6–8), escreveu os pecados deles na areia.



Somente anos depois da Ascensão os quatro Evangelistas, inspirados pelo Divino Espírito Santo, colocaram por escrito o essencial da vida e do ensinamento do Mestre. Os Evangelhos são livros densos de conteúdo e significado, mas de pequena extensão. Seus autores não se preocuparam em serem exaustivos, não pretenderam nem de longe colocar por escrito tudo quanto o Senhor dissera e fizera.



São João chega mesmo a afirmar que, se se quisesse escrever tudo quanto Nosso Senhor Jesus Cristo fez durante sua vida terrena, "nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever" (Jo 21,25).



Evidentemente, não foi por menosprezo que a Igreja dos primeiros tempos não se preocupou em consignar por escrito esses ensinamentos. Na realidade, eles não estavam perdidos, mas haviam sido confiados por Deus à Tradição - com inicial maiúscula - de sua Igreja.



São duas, conforme ensina a Doutrina Católica, as fontes da Revelação Divina: a Sagrada Escritura e a Tradição. A Sagrada Escritura contém os Livros Sagrados reconhecidos como canônicos pela Igreja, ou seja, aqueles que verdadeiramente foram inspirados pelo Divino Espírito Santo.



Quanto à Tradição, que nos foi transmitida ininterruptamente desde a fundação da Igreja, é por ela que conhecemos a interpretação autêntica das Escrituras. A Tradição chegou até nós primeiramente através dos Apóstolos e discípulos do Senhor; em seguida, pelos chamados Padres da Igreja, ou seja, os autores eclesiásticos dos primeiros séculos da Era Cristã; mais tarde, pelo ensinamento dos Santos e Doutores, fiéis continuadores da Tradição apostólica - tudo sob o controle e o bafejo dos Papas, sucessores de São Pedro e Vigários de Jesus Cristo na Terra.



Lutero errou ao negar o valor da Tradição como fonte da Revelação e pretendendo que unicamente a Bíblia escrita contém toda a Revelação. Daí se ter posto ele a interpretar as Escrituras sem o indispensável cuidado da fidelidade ao ensinamento tradicional. Daí também o delírio de divergências e contradições subjetivistas em que forçosamente mergulham seus seguidores.



Em fins do século XIX e princípios do século XX esteve muito em moda, entre intelectuais católicos influenciados pelo racionalismo então dominante, negar a existência de Santos honrados desde tempos imemoriais pela Igreja, contestar a veracidade de relíquias e zombar do que se pretendia tachar como excessiva credulidade de incontáveis gerações de fiéis que nos precederam na Fé. O Papa São Pio X (1903–1914) condenou severamente, entre outros erros modernistas, essa moda. E, mais tarde, com o avanço das ciências históricas, verificou–se que muitas afirmações apresentadas como científicas pelos modernistas de há 100 anos não têm base científica séria.



 



 



 



 



ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador e jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da Históri