Política

Como nos tempos do Pasquim, nós, ó: top! top! top!

"São notórias as declarações autoritárias, fascistas, de apologia à violência e à tortura e incentivadoras do vale-tudo na autodefesa, entre outras. O presidente nunca se desculpou nem desmentiu qualquer uma delas"


bookmark_borderBRASIL POLÍTICA date_range17 Jun 2019 - 07h44 personCONGRESSO EM FOCO/PAULO JOSÉ CUNHA

Os principais problemas da atual presidência não apenas são as atrocidades que seu titular pratica (afrouxamento da legislação que rege posse e porte de armas, corte de recursos da educação, relaxamento das regras de trânsito etc.) e declarações irresponsáveis e criminosas. O principal problema, isto sim, é sua postura abertamente autoritária, visível na forma como não volta atrás em nenhum dos disparates praticados nem é capaz de se desculpar minimamente por afirmações que vão contra as normas mais comezinhas da vida em uma sociedade democrática.



A “retratação” de araque que fez na semana passada à deputada Maria do Rosário, por ter disparado contra ela aquele petardo – “Não te estupro porque você não merece” - é a prova mais contundente do estilo machista e da absoluta incapacidade de se conduzir de forma civilizada numa sociedade que respeita direitos e obedece a limites de conduta. Na “retratação” exigida pela justiça, o capitão não foi além do protocolar pedido de desculpas e da surrada explicação de que a afirmação imbecil foi feita no calor do debate. Aproveitou-se da nota para fazer proselitismo rasteiro, lembrando ter proposto castração química para estupradores. Declarações anteriores, como se pode conferir aí adiante, desmentem tudo o que a nota pretendeu afirmar.



Retratação imposta é cumprimento de protocolo



 



São notórias as declarações autoritárias, fascistas, de apologia à violência e à tortura e incentivadoras do vale-tudo na autodefesa, entre outras. Nunca se desculpou nem desmentiu qualquer uma delas. No caso Maria do Rosário a “retratação” só ocorreu porque a Justiça o obrigou. Com uma agravante: até então o capitão-presidente não apenas evitou desculpar-se como até repetiu as afirmações criminosas.



No site Congresso em Foco é possível ler um excelente artigo, assinado pelo xará Luiz Claudio Cunha , que fez o enorme favor de colecionar um bom acervo das cretinices proferidas por Bolsonaro ao longo de sua trajetória . Aí vão algumas:



1996 - "Gastaram muito chumbo com o [capitão e líder guerrilheiro Carlos ] Lamarca. Ele devia ter sido morto a coronhadas" ;



1998 -  “O general Pinochet devia ter matado mais gente no Chile”;



1999 - “ Mataram só 300? (referindo-se à ditadura militar) Deviam ter matado uns 30 mil, inclusive o Fernando Henrique Cardoso!...”;



2008 - “O governo deveria apoiar as milícias, já que não consegue combater o tráfico de drogas, e talvez legalizá-las no futuro”;



2011- “Prefiro filho morto em acidente do que vê-lo com um bigodudo por aí”;



“O MEC é porta aberta para homossexualidade e pedofilia”;



“Não entraria em avião com piloto selecionado por cota racial, nem aceitaria ser operado por médico cotista”;



“Quem não presta no Brasil é 70% do eleitorado”;



“Sou preconceituoso, com muito orgulho”;



2014 -  “A [jornalista] Míriam Leitão estava chorando esses dias, na imprensa, porque foi torturada: 'Botaram uma cobra no meu quarto’. Eu tenho pena da cobra!";



2015 - “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida”;



“A PM tinha que matar mais no Brasil”;



2016 - “O erro da ditadura foi torturar e não matar” ;



2017 - “Sou capitão do Exército, a minha especialidade é matar”;



2018 - "Lamento a morte de Vladimir Herzog, se foi suicídio ou morreu torturado. Suicídio acontece, pessoal pratica suicídio" (2018).



E tem mais, muito mais



Acrescento à lista do xará a manifestação favorável ao fechamento do Congresso (quando era deputado!), a apologia à tortura em diversas entrevistas, e, no plenário do Congresso, o elogio público ao torturador Brilhante Ustra, a quem dedicou o voto que proferiu a favor do impeachment de Dilma. E a resposta racista à cantora e apresentadora Preta Gil sobre como reagiria se um de seus filhos se apaixonasse por uma mulher negra: “Eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”.



Insisto: nenhuma dessas declarações canalhas mereceu pedido de desculpas, reparação ou manifestação de arrependimento. Deve-se concluir, portanto, que é assim que pensa, é assim que age, é assim que governa.



Como nos tempos do saudoso Pasquim, que tem feito uma falta danada, nós tamos é, ó: top!top!top!