SAÚDE

Fabricante chinesa de vacina reage à desconfiança de Bolsonaro e, consequentemente, no Brasil


bookmark_borderBRASIL SAÚDE date_range28 Out 2020 - 14h17 personO GLOBO

O laboratório chinês Sinovac, responsável pela vacina para a Covid-19 que está sendo desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan de São Paulo, reagiu nesta terça à desconfiança levantada sobre o imunizante no Brasil, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro. Procurada pela coluna, a empresa com sede em Pequim afirmou que os resultados apresentados até agora são suficientes para assegurar aos brasileiros que é seguro tomar a vacina.





— Os dados falam por si — afirmou a Sinovac.



Segundo o laboratório chinês, as duas primeiras fases de testes da CoronaVac em voluntários na China demonstrou resultados satisfatórios em termos de imunização e segurança, e serviram como base para a seleção de dosagem para a fase 3 de estudos clínicos, a última etapa antes da aprovação. Quatro vacinas de empresas chinesas estão na fase 3 de testes, e embora elas ainda não tenham tido a aprovação final, milhares de pessoas em várias partes da China já foram submetidas aos imunizantes, com uso emergencial aprovado a partir de 22 de julho. A vacinação ainda não está disponível ao público em geral e nã há prazo para que isso ocorra.

Segundo o governo, ela é limitada a “grupos especiais com necessidades urgentes”, como equipes de saúde e estudantes que viajam para o exterior. As vacinas também foram oferecidas a diplomatas estrangeiros, mas com a ressalva de que, se deixarem o país, ela não os livrará da quarentena obrigatória de duas semanas quando voltarem à China. A oferta não incluiu os diplomatas brasileiros na China.



Para ser liberada a CoronaVac no Brasil ainda precisa concluir a última fase dos testes clínicos e ser aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o governador de São Paulo, João Dória, afirmou que as primeiras seis milhões de doses chegarão ao Brasil até segunda-feira.



Na resposta à coluna, o laboratório chinês preferiu não entrar na polêmica surgida a partir da recusa do presidente Jair Bolsonaro em aprovar a aquisição de 46 milhões de doses da CoronaVac, mesmo depois de já ter sido confirmada pelo ministério da Saúde. No ataque mais direto à credibilidade da China desde que chegou à presidência, Bolsonaro afirmou que “o povo brasileiro não será cobaia de ninguém” e que o governo federal não comprará a vacina chinesa, “até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido lá”.



A Sinovac não disse se está em contato com o governo para tentar reverter a decisão, limitando-se a afirmar que “respeita todo tipo de decisão tomada por qualquer governo”.



A desconfiança do presidente com a China, e especificamente com as vacinas produzidas no país, se estende a uma parcela dos brasileiros, conforme demonstrou nesta semana o Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública da Universidade de Brasília. No estudo do CPS/UnB, se a vacina for da China a disposição dos pesquisados em se submeter à imunização diminui em 16,4%. Contra tal resistência, o laboratório chinês aposta não só na eficácia de sua vacina, mas em informar os brasileiros sobre ela.



— Estamos dispostos também a dar nossa assistência para a educação pública sobre o conhecimento das vacinas — disse a Sinovac, que não entrou na questão de quanto custará cada dose produzida no Brasil em parceria com o Butantan. - Nosso modelo de negócios no Brasil é que nosso parceiro será o responsável pela estratégia comercial para o mercado local.





Também pedi a reação do governo chinês ao estudo do CPS/UnB que revelou a resistência dos pesquisados a tomar uma vacina produzida na China. Assim como ocorreu na última vez que levantei a polêmica despertada no Brasil, o ministério das Relações Exteriores evitou o confronto.



— Primeiro, quero dizer que a China sempre acredita que deve desenvolver relações amistosas e cooperação com o Brasil, com base na igualdade e no respeito mútuo. Desde o início da pandemia, China e Brasil mantiveram cooperação e os testes clínicos de vacinas de Covid-19 conduzidos por instituições públicas e privadas no Brasil tem corrido sem problemas — disse o portta-voz Wang Wenbin. — A China tem atribuído grande importância à segurança e à eficácia no desenvolvimento de vacinas e seguimos estritamente os padrões e regras internacionais.



Oficialmente, os chineses mantêm uma postura comedida em relação aos ataques de Bolsonaro. Por enquanto não há indícios de que pode haver retaliação. Mas o governo chinês não costuma antecipar seus movimentos.



Sutilmente, porém, por meio da imprensa, pode-se perceber sinais de alerta. No jornal Global Times, um dos mais aguerridos da mídia estatal, o diretor do Centro de América Latina da Universidade de Xangai, Jiang Shixue, comparou Bolsonaro a Trump, “alguém que ganhou a eleição inesperadamente" e, uma vez no poder, mostra um comportamento "insatisfatório”. Politizar a questão das vacinas não ajudará o Brasil em sua luta contra o vírus e também poderá causar danos aos laços da China com o Brasil, advertiu Jiang.