SAÚDE

MANUEL NEVES E CASTRO: “A MENOPAUSA É UM DESPERTADOR. QUANDO CHEGA, A MULHER TEM QUE ABRIR OS OLHOS”


bookmark_borderBRASIL SAÚDE date_range19 Out 2019 - 07h48 personCatarina Pires

Aos 87 anos, o ginecologista Manuel Neves e Castro continua a fazer clínica. Foi um dos primeiros bolseiros da Gulbenkian e foi para os Estados Unidos estudar as hormonas. Trabalhou para o inventor da pílula e viu nascer a fertilização in vitro. Quando chegou a Portugal, trazia terapêuticas inovadoras. Fundou a Sociedade Portuguesa de Menopausa e foi por proposta sua que foi instituído o Dia Mundial da Menopausa. Defende a medicina preventiva e as terapias hormonais que, diz, fazem milagres.



Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens



 


O Dia Mundial da Menopausa, que se assinala hoje, foi criado por proposta sua. Como é que isso aconteceu?



Fui dirigente da Sociedade Internacional de Menopausa e a certa altura percebi que a sua única atividade era realizar um congresso por ano e não achei aquilo bem. Por outro lado, verifiquei que entre as sociedades dos vários países, havia umas mais ativas que outras. Primeiro, propus a criação de um conselho das sociedades de menopausa afiliadas à Sociedade Internacional, o que exigia que cada direção tivesse um programa de ação e o executasse nos seus países, e depois propus a criação de um dia em que todas elas fossem obrigadas a falar de menopausa, para os médicos e para o público. A proposta foi aceite, depois a Organização Mundial de Saúde reconheceu e hoje o dia celebra-se em todo o mundo.



Considerava que era necessário falar de menopausa?



Sim, porque havia pouca informação e principalmente desinformação.



Em que sentido?



No sentido em que durante muito tempo a terapia hormonal significava na cabeça das pessoas risco de cancro e era preciso desmistificar isso. Segundo, porque os médicos não ensinavam às pessoas as regras fundamentais da medicina da qualidade de vida: exercício físico, alimentação correta e controlo do stress.



Porque é que o cancro está a aumentar? Todos temos células malignas em circulação, mas só alguns têm cancro. Porquê? Porque o nosso organismo tem um mecanismo de defesa – a imunidade – que cria anticorpos que matam as células estranhas ao organismo. Quando a imunidade baixa, esses anticorpos diminuem e nessa altura as células estranhas têm o poder de se desenvolver. O que baixa a imunidade? Uma vida sedentária, o stress e uma má alimentação. Oitenta por cento das causas de morte devem-se a estes erros.




A menopausa é um sinal de alarme para as mulheres saberem que chegou o momento de tomar cuidado com o futuro. O futuro vai depender daquilo que fizerem quando entram na menopausa.




Daí a importância da prevenção.



A população está a envelhecer e é urgente tomar todas as medidas para evitar a doença e os custos sociais e económicos que implica. As doenças cardíacas, a osteoporose e o cancro podem ser prevenidos através das três regras que referi. As fraturas devidas à osteoporose, por exemplo, podem ser prevenidas com uma alimentação rica em cálcio e com suplementos de vitamina D, de que a maior parte das pessoas são carentes e não sabem, e se não tem vitamina D os ossos começam a ficar fracos e a partir-se. Por isso, falar da menopausa também é tão importante.



Costumo dizer que é quase como um relógio despertador, chega aos 50 e é como as passagens de nível: pare, escute e olhe. O que é que a mulher tem que fazer? Prevenir, comendo bem, fazendo exercício físico e controlando a ansiedade, e vigiar, fazer mamografia, ver a densidade óssea, ver a pressão arterial, ver o peso.



Há um determinado número de coisas que são fatores de risco e surgem nessa altura por causa do bilhete de identidade e de uma modificação do ambiente hormonal em que a mulher vive. Agora pergunta-me: mas todas as mulheres têm que fazer tratamentos hormonais?



Pergunto.



Nem pensar. Primeiro, a regra de ouro em relação aos tratamentos hormonais é que não são iniciados depois dos 60 anos, porque nessa altura já há fatores de risco que podem ser agravados pela administração hormonal. Segundo, só deve ser administrada para alívio dos sintomas e melhoria da qualidade de vida. Que tipo de sintomas? Irritabilidade, depressão, suores noturnos, afrontamentos, diminuição da líbido, secura vaginal, etc.



Quando temos esses sintomas, fazemos o tratamento e ao fazê-lo sabemos que iremos prevenir doenças cardíacas, doenças ósseas, Alzheimer, etc. Mas se a mulher não tem sintomas não faz tratamento hormonal e faz a prevenção dessas doenças por outros métodos, que não os hormonais.



E quais são?



Os que referi acima. É uma questão de educação. A menopausa é um sinal de alarme para as mulheres saberem que chegou o momento de tomar cuidado com o futuro. O futuro vai depender daquilo que fizerem quando entram na menopausa.



Não é aos 70 anos, quando está osteoporótica que a pessoa vai reverter a osteoporose, é antes, entre os 40 e tal e os 50. Isso é importante por várias razões, para termos uma população idosa saudável e com qualidade de vida, que é um direito que todas as pessoas têm, mas também é uma obrigação para com a sociedade em que estão inseridas, por forma a não a sobrecarregar com custos de saúde de doenças que podem ser prevenidas.



Mas há muitas campanhas de sensibilização para um estilo de vida mais saudável, uma alimentação correta, a importância do exercício físico e a verdade é que as pessoas têm relutância em mudar. Porquê?



Pois, é o problema dos plásticos, o problema do clima, o problema da qualidade de vida. Não podemos obrigar, mas podemos convencer o mais possível. Tem que haver da parte do Ministério da Saúde campanhas mais fortes. Por exemplo, a campanha antitabaco está a ser bem feita nas escolas. Se estou a fumar ao pé de um miúdo, ele diz logo que não devia fazê-lo. É aí que a coisa começa, na educação.




A polémica [sobre a terapia hormonal da menopausa] é entre os médicos que sabem do que estão a falar e os que não sabem. Isto não é Sporting ou Benfica. Não é uma questão de opção, é uma questão de conhecimento, estudo, prática e investigação.




As terapêuticas hormonais de substituição e a utilização de hormonas não é consensual, mesmo entre os médicos. Porquê?



Não diga de substituição, esse é um erro induzido por razões comerciais, porque os laboratórios que fabricavam as hormonas usavam a expressão hormonal replacement traduzido por hormonas de substituição, o que pressupunha que todas as mulheres tinham que fazer hormonas. Não é assim. Eu propus a nível internacional, e hoje isso é aceite, falar apenas em terapêuticas hormonais da menopausa, o que quer dizer que são terapêuticas usadas quando necessário.




Desde miúdo que queria ser médico e tinha o meu armário de remédios, tinha uma bata, um barrete e uma máscara e operava um urso de peluche, cortava, cozia, até lhe punha um dedal no focinho a fingir que era a anestesia.




Mas porque é que uns defendem o uso de hormonas e outros não?



A polémica é entre os médicos que sabem do que estão a falar e os que não sabem. Isto não pode ser uma questão do género se é do Sporting ou do Benfica. Não é uma questão de opção, é uma questão de conhecimento, estudo, prática e investigação.



Eu durante muitos anos fui médico do quadro do IPO e tinha uma colega, distinta ginecologista, que quando chegou a altura, aconselhei a fazer tratamento. Ela respondeu que nem pensar. Como era previsto, primeiro foi uma fratura do pulso, depois uma fratura do colo do fémur e depois começou a envelhecer por aí abaixo, com todas as consequências de nunca ter feito qualquer tratamento preventivo, fosse hormonal ou não. De maneira que é um disparate completo, que resulta de desinformação e desconhecimento.



Trata-se simplesmente de medir prós e contras. Na prática, o que temos que fazer é determinar quais são os fatores de risco da paciente que temos à frente. Tem fatores de risco para cancro da mama? Não damos. Não tem? Damos, para prevenir doenças cardíacas e ósseas. O balanço entre os prós e os contras pende muito para os prós, exceto se houver contraindicações.



Quando começou a sua prática clínica, ser ginecologista era difícil?



Eu desde miúdo que queria ser médico e tinha o meu armário de remédios, tinha uma bata, um barrete e uma máscara e operava um urso de peluche, cortava, cozia, até lhe punha um dedal no focinho a fingir que era a anestesia.



O meu pai era professor catedrático da Escola de Medicina Veterinária, de maneira que eu estava muito sensibilizado para os problemas da biologia e da reprodução. E tinha um tio que era médico de família em Belas, um excelente médico, colega do professor Francisco Gentil – herdei a marquesa que esse meu tio tinha no consultório, era uma marquesa de cristal importada de Nova Iorque para ele, que era menino rico, e para o professor Francisco Gentil, que também era menino rico. Ainda a tenho.



Entusiasmei-me com a vida de médico do meu tio e isso a juntar à influência do meu pai, que tratava muitas coisas hormonais e de fertilidade animal, fez-me ir para medicina. O meu pai aconselhou-me endocrinologia e a dedicar-me aos problemas da reprodução e das hormonas, porque a veterinária estava muito mais avançada do que a medicina humana e era verdade (os veterinários não tinham problemas éticos de experimentação).




Nos Estados Unidos, o meu patrão era Dr. Pincus, o inventor da pílula. Cá, trabalhei a fertilidade, o planeamento familiar e finalmente a menopausa. Ou seja, segui todas as fases da vida da mulher.




Mas seguiu ginecologia.



Especializei-me em ginecologia e queria também endocrinologia, mas na altura as regras da Ordem não permitiam associar as duas especialidades. Tenho o titulo de obstetra, que nunca fui, mas não o de endocrinologista, uma das minhas áreas de investigação.



Na altura, decidi ir para os Estados Unidos, que era onde mais se sabia sobre química e hormonas e consegui uma bolsa da Gulbenkian para isso (fui o segundo bolseiro da Fundação Gulbenkian nos Estados Unidos, comecei a mexer-me mal li a notícia de que o Gulbenkian tinha morrido e tinha deixado em testamento a criação da Fundação, que seria dirigida por Azeredo Perdigão).



Quantos anos esteve nos Estados Unidos?



Três e mais tarde outros dois, para investigação. Mas, respondendo à sua pergunta, nunca senti dificuldade. Tive a sorte de chegar numa altura em que a ginecologia era fundamentalmente cirúrgica, alterações menstruais e infertilidade só um ou dois é que faziam, mas na parte hormonal falhavam e foi aí que entrei, tinha trazido medicamentos dos EUA e tinha aprendido muita coisa. Por exemplo. estimular a ovulação ninguém fazia cá e eu fazia. Fartámo-nos de fazer coisas, no domínio da fertilidade.



O interesse pela menopausa surgiu mais tarde?



Sim, mas eu já vinha preparado para isso. Comecei pela fertilidade, depois dediquei-me ao planeamento familiar (nos Estados Unidos, o meu patrão era Dr Pincus, o inventor da pílula, e eu assisti ao desenvolvimento da fertilização in vitro). A menopausa veio porque trabalhei com indivíduos que eram grandes mestres nessa área.



Havia relativamente poucos medicamentos disponíveis cá e eu comecei a fazer tratamentos com implantes de estradiol, que é hormona feminina. Comecei com essa terapêutica, depois criei a Sociedade Portuguesa de Menopausa, para difundir a necessidade de tratar as mulheres que precisassem e ensinar médicos como fazer os tratamentos.



Foi uma sequência: fertilidade, planeamento familiar, menopausa. Ou seja, segui todas as fases da vida da mulher, do princípio ao fim.




Continuo [a trabalhar aos 87 anos]. Reformar-me-ei no dia em que os meus colegas me disserem: estás a fazer asneiras. Ou quando eu tiver a perceção, se tiver essa graça, de que não sou o mesmo e que devo parar.




Defende uma abordagem holística da menopausa e dos problemas que lhe estão associados. Nesta abordagem estão incluídas as chamadas terapias alternativas? Em mulheres que não possam fazer terapêutica hormonal, que tipo de resposta pode ser dada?



Holístico é um termo que uso na minha clínica porque é fundamental tratar a pessoa que tem a doença, não a doença, e a pessoa está inserida numa sociedade, numa família e no seu próprio corpo. Quando adotamos uma perspetiva holística, consideramos que todos estes fatores afetam a mulher e podem ser positivos ou negativos.



Por exemplo, uma mulher chega ao meu consultório cheia de afrontamentos, eu quero saber como é que o marido reage a isso e como é que no emprego reagem às crises de irritabilidade dela, como é que os filhos, a família, as amigas, lidam com o problema. Não me interessa o medicamento que vou dar, interessa-me a medicina da qualidade de vida e esta é holística e tem que ter em consideração todos esses aspetos.



Eu não trato menopausas, trato mulheres. Um célebre cirurgião inglês William Hosler dizia que tão importante é conhecer a doença como a mulher que a tem e o que acontece muitas vezes é que muitos médicos não têm tempo para conhecer a pessoa e despacham. Eu não consigo fazer uma consulta em dez minutos.





Aos 87 anos continua a trabalhar?



Continuo. Reformar-me-ei no dia em que os meus colegas me disserem: estás a fazer asneiras. Ou quando eu tiver a perceção, se tiver essa graça, de que não sou o mesmo e que devo parar.



A idade biológica é que conta, não é a idade cronológica. Há indivíduos que têm uma idade cronológica avançada, mas uma idade biológica jovem e o contrário também. Eu, neste momento, sinto que a minha idade biológica está muito abaixo da minha idade cronológica.



Continuo a fazer conferências, a escrever artigos científicos, a atualizar-me e continuo a adorar fazer clínica. Essa tem sido a minha vida.



Ainda não me respondeu sobre as terapias alternativas para a menopausa.



Pois. Por exemplo, afrontamentos e calores estão muito relacionados com os níveis hormonais, mas como diz e muito bem, há contraindicações na terapia hormonal e há tratamentos, desde a acupuntura, o exercício físico, a psicoterapia e agentes psicotrópicos, os chamados antidepressivos e ansiolíticos, que são eficazes.




A tensão pré-menstrual, que é uma coisa que aflige e seriamente várias mulheres, tem tratamento, nas calmas: uma suplementação de progesterona com um ansiolítico pré-menstrual e adeus tensão pré-menstrual.




A menopausa é uma fase da vida que algumas mulheres encaram como uma libertação e outras encaram como o fim. Onde está o meio termo?



As que acham que é uma libertação, porque se livram da menstruação e já podem ter uma vida sexual sem receio de engravidar têm razão. As que pensam o contrário, porque sentem que perderam a juventude, de que a menstruação era um símbolo, e sentem-se assexuadas, sentem que deixaram de interessar ao marido e aos homens, deixam de sentir isso quando começam a tratar a sintomatologia da menopausa, física e psicológica. Os tratamentos fazem milagres.



Uma coisa de que muitas vezes também não se fala é de menstruação, que durante anos é um suplício para muitas mulheres – irritabilidade, dores, depressão, ansiedade. E parece que não há grande resposta para isso.



Há, então não há? Por exemplo, a tensão pré-menstrual, que é uma coisa que aflige e seriamente várias mulheres, tem tratamento, nas calmas: uma suplementação de progesterona com um ansiolítico pré-menstrual e adeus tensão pré-menstrual.



As dores menstruais têm solução, porque a maioria das mulheres que as têm, têm-nas por causa de uma coisa chamada endometriose, que se trata. A pílula como tratamento desta sintomatologia também é eficaz.