Internacional

Poliomielite é erradicada na África quatro anos depois dos últimos casos

Campanha de vacinação contra a poliomielite em Hotoro-Kudu, distrito Nassarawa de Kano, noroeste da Nigéria, em 22 de abril de 2017 - AFP/Arquivos


bookmark_borderPOLITICA INTERNACIONACIONAL date_range25 Ago 2020 - 15h05 personAFP

A Organização Mundial da Saúde (OMS) deve certificar nesta terça-feira que o continente africano está “isento de poliovírus selvagem”, quatro anos depois da detecção dos últimos casos no nordeste da Nigéria, uma região devastada pelo conflito contra os jihadistas do grupo Boko Haram.



 



Graças aos esforços mobilizados pelos governos, profissionais de saúde e comunidades, mais de 1,8 milhão de crianças foram salvas desta doença”, afirmou a OMS em um comunicado publicado antes do evento histórico, uma etapa crucial na erradicação mundial da enfermidade.



O anúncio oficial está previsto para acontecer em uma videoconferência a partir das 15H00 GMT (12H00 de Brasília). O evento reunirá o diretor geral da OMS, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, a diretora da organização para a África, Matshidiso Moeti, assim como os bilionários filantropos Aliko Dangote e Bill Gates, entre outros.



“É uma vitória formidável, um alívio”, declarou à AFP o doutor Tunjui Funshuo, do comitê Pólio Nigéria da associação Rotary International.



“Há mais de 30 anos começamos este desafio. Dizer que estou feliz é um eufemismo!”, disse o médico nigeriano, que dedicado a vida a esta causa.



Provocada pelo “poliovírus selvagem” (PVS), a poliomielite é uma doença infecciosa aguda e contagiosa que afeta principalmente as crianças, que ataca a medula espinhal e é capaz de provocar uma paralisia irreversível.



Era endêmica em todo o planeta até o desenvolvimento de uma vacina nos anos 1950. Os países mais ricos tiveram acesso ao medicamento rapidamente, mas Ásia e África continuaram durante muitos anos como focos infecciosos.



Em 1988, a OMS contabilizava 350.000 casos em todo o mundo e mais de 70.000 oito anos depois apenas na África.



 


Mas, graças a uma consciência coletiva incomum e a grandes esforços financeiros (19 bilhões de dólares em 30 anos), apenas dois países do mundo apresentam atualmente contágios de “poliovírus selvagem”: Afeganistão (29 casos em 2020) e Paquistão (58 casos).



Até recentemente, a Nigéria, um país de 200 milhões de habitantes, também aparecia na lista. No início dos anos 2000 ainda era um epicentro da doença.



Na região norte, de maioria muçulmana, a pressão dos círculos salafistas interrompeu as campanhas de vacinação contra a pólio entre 2003 e 2004. Um boato afirmava que eram uma ferramenta de um grande complô internacional para esterilizar os muçulmanos.



As autoridades precisaram de um grande trabalho de conscientização com os líderes tradicionais e religiosos para convencer a população a vacinar os filhos.



Mas o conflito com o grupo extremista Boko Haram, em 2009, acabou com as esperanças de erradicar a doença na década passada. Em 2016 foram detectados quatro novos casos de poliomielite no estado de Borno (nordeste), foco da insurreição jihadista.



“Naquele momento, 400.000 crianças ficaram à margem das campanhas médicas devido à violência”, recorda o doutor Funsho.



A segurança continua extremamente volátil no nordeste da Nigéria, onde o Boko Haram e o Estado Islâmico da África Ocidental (Iswap) controlam grandes áreas, especialmente ao redor do Lago Chade.



Nas áreas “parcialmente acessíveis”, as campanhas de vacinação foram organizadas com a proteção do exército e de milícias de autodefesa, explicou o médico Musa Idowu Audu, coordenador da OMS para o estado de Borno.



Nas zonas totalmente controladas pelos jihadistas, a OMS e seus sócios estabeleceram contato com a população nas estradas ou nos mercados, para formar uma rede de “informantes de saúde” e “sentinelas” que alertavam sobre casos.



Quase 20 profissionais da saúde e voluntários morreram nos últimos anos no nordeste da Nigéria por esta causa, recorda o doutor Audu.



Atualmente, 30.000 crianças permanecem “inacessíveis”, um número “muito baixo” para que aconteça uma transmissão epidêmica, de acordo com os especialistas.