Judiciário

Por que Raquel Dodge não defendeu a liberdade de imprensa

Antes, o MPF competia com a Defensoria da União. Agora, até o TCU é obrigado a corrigir a ausência de atuação da PGR.


bookmark_borderBRASIL JURÍDICO date_range08 Jul 2019 - 07h29 personLuis Nassif

Dois Procuradores Gerais da República, inimigos figadais, tão diferentes e, ao mesmo tempo, extremamente parecidos no exercício político do cargo, comprovam a maneira fácil com que o Ministério Público Federal é manipulado.



Um, Rodrigo Janot, fez carreira interna como burocrata, cuidando apenas dos micro-problemas da categoria. Não se conhece um caso relevante do qual tenha participado, nem temas jurídicos que tenha desenvolvido. Foi alçado ao cargo por eleição direta, como um político empenhado em administrar as demandas da categoria, e escolhido por trabalho de colegas, influentes junto ao PT.



Outra, Raquel Dodge, com ampla folha de serviços prestadas, grande competência técnica e, aparentemente, defensora das boas causas. Entrou na lista tríplice pelo voto dos colegas, ficou em segundo, mas foi escolhida por Michel Temer devido às suas estreitas ligações com a banda tucana do impeachment.




 



Janot teve pela frente um governo sem a menor noção do exercício do poder. Raquel navegou por um governo do qual ela era aliada e, depois, por um governo truculento como um sargentão de infantaria.



Janot praticou toda sorte de patifarias processuais. Vazou informações, escondeu processos, como o de Aécio Neves na Operação Norbert, aliou-se à mídia, protegendo os aliados da mídia, autorizou a divulgação dos grampos ilegais das conversas entre uma presidente da República e seu antecessor, comandou equipe da Lava Jato que foi aos Estados Unidos levar provas contra a Petrobras. Considerou-se tão poderoso que investiu decididamente contra Michel Temer, no episódio JBS. Para aceitar a bomba que lhe ofereciam, precisou até sacrificar conterrâneos queridos, como Aécio Neves. Sem o álibi PT, deu-se conta, finalmente, de seus próprios limites.



Raquel reduziu o ímpeto acusatório da Lava Jato, os shows irresponsáveis, não se sabe, agora, se por convicção legalista ou pelo fato de, esgotado o veio PT, a gana agora se voltava contra seus antigos aliados. Atuou vingativamente, levantando denúncias de bate-pronto, contra qualquer político que ousasse questionar sua atuação. Aturou os abusos da Lava Jato até o momento em que percebeu que cessara o apoio unânime dos grupos de mídia. Depois investiu pesadamente contra o bom menino Deltan Dallagnoll, mas tão pesadamente que colheu críticas até dos críticos da Lava Jato.



 



Agora, tenta se aproximar de Bolsonaro, decidindo correr por fora das indicações da lista tríplice. Queimou-se  com todas as facções do Ministério Público, da ultradireita religiosa, aos defensores de direitos humanos. E consagra definitivamente sua anomia calando-se ante um abuso inominável ao direito de informação, a ordem de Sérgio Moro para que o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) investigasse Glenn Greenwald.



Coube ao Tribunal de Contas da União (!) interpelar o Ministério da Justiça sobre esse abuso. Antes, o MPF competia com a Defensoria da União. Agora, até o TCU é obrigado a corrigir a ausência de atuação da PGR.



Ao mesmo tempo, os três procuradores eleitos na lista tríplice, são obrigados a tapar o nariz e se aproximar de um presidente que estimula turismo sexual, trabalho infantil, armamento da população, está ligado às milícias e aos assassinos de Marielle Franco.



Mas, como diz o bravo guru dos jacobinos, Luis Roberto Barroso, é assim mesmo.




Os jovens turcos, os concurseiros, como passaram a ser chamados, que julgaram que poderiam colocar a República de joelhos, estão caindo na real, enquanto seus ídolos saem de cena relembrando a canção de Belchior.



Minha dor é perceber

Que apesar de termos feito

Tudo, tudo, tudo, tudo que fizemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos

Como os nossos pais