Política

Toffoli fez de Bolsonaro estadista por 49 segundos


bookmark_borderBRASIL POLÍTICA date_range19 Abr 2019 - 09h24 personJOSIAS DE SOUZA

Ao trocar o figurino de supremo moderador pelo papel de censor, o "amigo do amigo do meu pai" proporcionou a Jair Bolsonaro uma pose inusitada. Deu-se numa cerimônia de comemoração do Dia do Exército, no Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. Num discurso de pouco mais de seis minutos, o capitão reservou 49 segundos para executar a coreografia de um neo-estadista pró-liberdade de imprensa. Dirigindo-se aos "prezados integrantes da mídia", Bolsonaro propôs a superação das diferenças:



— Que pese alguns percalços entre nós, precisamos de vocês para que a chama da democracia não se apague. Precisamos de vocês cada vez mais. Palavras, letras e imagens. Que estejam perfeitamente irmanados com a verdade. Nós, juntos, trabalhando com esse objetivo, faremos um Brasil maior, grande e reconhecido em todo cenário mudial. É isso o que nós queremos. As pequenas diferenças fiquem para trás. O Brasil é maior do que todos nós juntos.".



Atento à movimentação dos ventos, Bolsonaro percebeu que Dias Toffoli obteve o feito supremo de atrair para si a antipatia nacional. Nas redes sociais, habitat natural do presidente da República, a aversão ao "amigo do amigo do meu pai" reacendeu o pavio de sua inflamada militância. E o capitão não hesitou em converter Toffoli numa oportunidade a ser aproveitada.



A reconciliação improvável com a imprensa é mero degrau para atingir um posto de observação confortável, com vista para o processo de autocombustão de Toffoli. Em condições normais, Bolsonaro fará sua primeira indicação para o Supremo em novembro de 2020, quando o decano Celso de Mello completará 75 anos. A segunda indicação virá em agosto de 2021, com a aposentadoria compulsória de Marco Aurélio Mello.



O eventual impeachment de uma toga suprema encurtaria a ansiedade e aumentaria a cota de ministros afinados com os "novos tempos". Afastar ministro do Supremo é coisa inédita e difícil de acontecer. Mas se as trapalhadas de Toffoli servem para alguma coisa é para demonstrar que o impossível não passa de um vocábulo que carrega o possível dentro de si.