A democracia e a força das ideias nas grandes corporações privadas, por Luis Nassif
O ambiente é executivo. A reunião é no campus da Fundação Dom Cabral em São Paulo. Em torno da enorme mesa, 33 executivos de grandes empresas, integrante do Projeto Legacy. O nome remete a legado, ao que desejam legar para suas empresas e para o país.
A lógica do grupo mostra que há novos ares tomando conta do ambiente corporativo das grandes empresas.
Constatam eles que as empresas têm papel fundamental na construção do país, ainda mais nesses tempos em que as instituições foram desmoralizadas. E, como tal, devem uma resposta objetiva aos problemas nacionais, especialmente aos direitos das populações vulneráveis.
O projeto da FDC atendeu às demandas de seus próprios clientes, incomodados com a situação do país, com o ódio que passou a permear toda a sociedade, com a insensibilidade para as causas sociais e com a constatação de que as.empresas têm papel essencial n construção de um novo mundo.
A visita a Mariana
O evento foi aberto por Antonio Martins, presidente executivo da FDC. Informa que vai levar um grupo de executivos para visitar Mariana e conferir os escombros do vazamento. Em Brumadinho, não há sequer condições de visita, com tudo soterrado pela lama.
Lá, haverá um seminário para discutir a mineração, com presença da Vale, da Fundação Renova, governo estadual e governos locais e escolas de negócio de várias partes do mundo.
O tema principal serão os paradoxos entre o curto e o longo prazo na vida das empresas.
Nas discussões sobre curto prazo, a sessão será sobre o Brasil, para que conselheiros internacionais tenham noção sobre o momento atual. No período da tarde, uma discussão ampla das escolas de negócio, para analisar como as lideranças devem evoluir para conviver com esses paradoxos atuais, a pressão do curto prazo e a maneira de pavimentar o longo prazo.
Brasilidade
Naquela reunião de São Paulo, explica Beth Fernandes, da FDC, o tema será brasilidade. Os executivos serão chamados a desempenhar o papel de construir algo relevante para a empresa, para os próximos (funcionários e entorno) e para a sociedade. À tarde, aprofundarão dois fundamentos de desenvolvimento humano, o científico e a espiritualidade.
A palestra de abertura foi da historiadora Lilian Schwart, que falou sobre a herança da escravidão no país. E Lilian dá uma aula esplêndida sobre o tema. Fala das três revoluções fundadoras do estado moderno, a francesa, a americana e a inglesa, acabando respectivamente com a noção do governantes acima do cidadão, do determinismo de colônias serem sempre colônias e da eternização das sociedades estamentais.
E menciona a revolução esquecida, a haitiana, que mostrou que escravos não seriam escravizados para sempre, derivando para inúmeros quilombos na Bahia, de egressos do Haiti.
Da narrativa, vai tirando lições para uma platéia imersa nos seus ensinamentos. Fala da importância de se aprender com as diferenças, do fato da descoberta das diferenças levar a modificações enormes, com regras de inclusão e exclusão de raça e gênero, e sobre os marcadores sociais da diferença, a maneira como sociedades produzem diferenças e hierarquias e naturalizam as diferenças.
Conclui com o grande ensinamento da historiografia e das ciências sociais contemporâneas: o grande nó brasileiro é a questão racial e a herança da escravidão.
O violência de gênero
Terminada a palestra, quatro grupos relatam os projetos que tocaram.
CEO da Avon, José Vicente Marino fala da coalisão empresarial pelo fim da violência contra mulheres e meninas. No dia 29 de agosto haverá a formalização da coalisão, que trabalhará, no âmbito interno das empresas, a questão do assédio sexual, o papel da empresa como veículo de educação e como local de acolhimento. O grupo é composto também por executivos da Eletrolux de da Sodexo.
Ricardo Garcia, CEO da Belgo Bekaert Arames, reclama da falta de respeito pelas divergências, que leva pessoas a taxarem nordestinos de “paraíba, baiano, canalha”. Fala das agruras dos WhatsApp familiares promovendo o racha das famílias, pelo discurso do ódio. Famílias não podem ser demitidas. Mas um funcionário da empresa publicou na rede comentário homofóbico e foi liminarmente demitido. ”Estamos aqui para valer contra a intolerância”, diz ele. “Há uma pauta urgente a ser implementada e precisamos efetivamente ser agentes dessa mudança”. E não tem dúvida de que “nós é que vamos fazer a diferença”.
Traz dados relevantes sobre a fórmula do gestor moderno. “Apenas 35% dos resultados do gestor se explica pelo negócio em si. O resto são princípios, valores”, diz ele. “O líder inclusivo faz bem para a organização”.
Esqueça o velho paternalismo. Não se trata mais de convidar os excluídos para o baile, mas para que planejem a festa. Não é só tomar consciência das disparidades, para ter atitude proativa.
Dessa interação foram dando cabeçadas sobre as maneiras de interagir com os vulneráveis, enriquecendo o processo de aprendizado, as formas de comunicação.
O projeto do grupo obedece a quatro fases, minuciosamente panejadas de acordo com ferramentas empresariais.
A primeira é a definição dos objetivos e a ampliação da base de conhecimento sobre o tema, que inclui trazer especialistas e montar uma central de conhecimento com modelos e melhores práticas, de maneira que todos do grupos sejam, os “responsivos da diversidade e da inclusão”.
O segundo passo será disponibilizar a central de conhecimento para todo o Legacy.
Em meados de março do próximo ano, vão envolver toda a rede de fornecedores, clientes e entidades empresariais nas bandeiras propostas E a quarta etapa consistirá em tentar influenciar políticas públicas.
A prioridade serão os grupos LBTG, racial e refugiados.
Gerdau e o orgulho gay
O grupo seguinte é coordenado por Gustavo Werneck, presidente da Gerdau, e tem como tema a diversidade e a inclusão. Seu objetivo é conduzir o grupo Gerdau para uma transformação cultural que lhe permita sobreviver e competir nos próximos cem anos.
A empresa demoliu o excesso de hierarquia. Cerca de 40% dos líderes tiveram que sair, por incapacidade de acompanhar as transformações. Houve uma revisão do Instituto Gerdau com toda a corporação tendo como bandeira o capitalismo consciente.
O tema da diversidade surgiu desse esforço. No trabalho, os colegas foram se dando conta de que o processo transformou não apenas a empresa, mas a eles próprios como seres humanos.
Foram criados grupos de afinidade de gênero, raça e LBGT; montado um projeto piloto para egressos do sistema penitenciário. Como lembrou Werneck, hoje em dia existem 45 mil refugiados e 500 mil presos por pequenos delitos. Pegam reclusão e quando saem do presídio, não existem iniciativas de reintegração.
O gesto mais ousado foi na semana anterior ao dia do orgulho gay. O pessoal da comunicação preparou campanha colocando o arco íris sobre o símbolo da Gerdau.
Werneck admite o frio na espinha na hora de apertar o botão que cobriu o logo de arco íris. A mensagem se espalhou pelo Facebook e Linkedin e foi alvo de toda sorte de comentários preconceituosos; e de apoios também. É só imaginar o perfil do cliente Gerdau para se ter ideia da reação.
Nada abalou as convicções da empresas. O presidente do conselho, e representante do principal acionista, mandou seguir em frente.
O conceito de meritocracia
Depoimento dos mais significativos foi de Paula Paschoal, do PayPal. Contou suas vida. Começou como recepcionista e chegou a diretora da PayPal por mérito. Nunca recebeu nenhuma indicação. Deu inúmeras palestras para mulheres para mostrar como, com perseverança e trabalho, poderiam vencer na vida.
Até que, no Dia da Mulher de 2018, foi com amigas visitar uma faculdade de baixa renda. Lá, as mulheres faziam o curso de madrugada, por falta de tempo durante o dia, tendo de cuidar da própria sobrevivência.
“Aí eu percebi como fui privilegiada, apesar de nunca ter sido indicada para nenhum cargo. Sou classe média, meus pais são casados até hoje e sou quase loira”. A experiencia mudou totalmente sua percepção sobre a meritocracia.
Vieram outros depoimentos, contra a intolerância, contra a insensibilidade social, a favor de um país mais justo, do papel essencial das empresas na modernização do país.
Enfim, a comprovação maior de que o país está vivo, pulsante e que existem vozes de bom senso em todos os setores sociais.