A "VEIA" LOUCA DOS GATOS

20 de janeiro de 2019 644

Embora eu já estivesse intimamente decidida, foi por puro descargo de consciência que resolvi fazer uma quase consulta pública sobre o assunto. Nas redes sociais atrevi-me a perguntar se uma pessoa poderia ser considerada uma acumuladora de gatos se os tivesse em número de cinco. Para minha íntima satisfação, a maior parte das pessoas disse que não.

            A verdade é que muito provavelmente as pessoas tenham se manifestado dessa forma porque perceberam meu verdadeiro intuito, que nada mais era do que conseguir aval. Além disso, não costumo ter como amigos pessoas que não gostam de animais. Lógico que eu sabia que minha enquete era de imparcialidade duvidosa, mas foi legal ser incentivada.

            Por mim, verdade seja dita, eu teria um zoológico. Pena que minha casa, meus recursos financeiros e o que me sobra de bom senso não me permitem. Tento, dessa forma, ser coerente e não me deixar transformar em uma maluca, ao menos não em uma que possa ser identificada a olho nu.

            Durante muito tempo em minha vida, assim como sei que é o desejo de outros tantos amantes dos animais, alimentei o sonho de ter uma chácara, um espaço no qual eu pudesse abrigar uma expressiva parcela de animais abandonados e vítimas de maus tratos. O tempo foi passando e eu cheguei à conclusão de que isso talvez não se materialize. E vejam que nem se trata de pessimismo, mas de uma simples constatação.

            Resolvi que se não conseguirei fazer por vários animais, ao menos gostaria de fazer por mais um. Cachorros, após a morte daqueles que foram meus companheiros por quase 16 anos, não quero mais. Não em uma casa sem um quintal com terra ou espaço adequado. Já onde havia quatro gatos não seria tão insano ter mais um bichano. Ou seria?

            Comecei a ver fotos de filhotinhos para adoção e meu coração começou a se encher de vontade. Após consultar as bases, tomei a decisão final. Eu pegaria mais um gatinho. O último a integrar o bando. E foi assim que no feriado de finados, pesando 450 g, cabendo inteira na palma da minha mão, a Lika chegou à família multiespécie que criei.

            Toda branca e de olhos azuis, a gatinha, com cerca pouco mais de 30 dias de vida, já havia conhecido o pior lado da humanidade. Entregue a duas crianças em uma casa de rações, foi rejeitada pelos adultos que, moradores de uma comunidade, a jogaram no telhado, local onde passou a noite, em agonia, miando desesperadamente. Foi resgatada por uma amiga e entregue a mim.

            Resumida a pelos e ossos, ela mais parecia um ratinho albino. Hoje, após alguns perrengues, vacinas, remédios, banhos e muito amor, ela pesa quase dois quilos e parece uma pelúcia. Doce, mansa, ela é o quinto elemento. Cheguei agora ao meu limite, mas não me arrependo, pois amor com amor se paga, sobretudo quando o ser amado é inocente e puro como um animal de estimação. Ademais, não tenho salvação: em terra de patas, sou doida varrida...

 

 

 

 

CINTHYA NUNES – jornalista, advogada e professora universitária.

cinthyanvs@gmail.com