Amorim confirma: governo analisa rompimento de relações comerciais militares com Israel
"A adoção da medida, que teria um forte efeito simbólico, é examinada pelo presidente, pelo chanceler Mauro Vieira e por mim", disse o assessor especial
O embaixador Celso Amorim, assessor internacional do presidente Lula, confirmou ao Brasil247 que o Brasil está considerando a possibilidade de romper acordos militares com Israel, em sinal de da forte reprovação do governo brasileiro ao genocídio na Faixa de Gaza e a todas as práticas do governo israelense contra a população palestina, incluindo o impedimento da chegada de ajuda humanitária, como ocorreu esta semana com o aprisionamento da chamada "Flotilha da Liberdade".
A tensão no relacionamento bilateral escalou esta semana com o arresto dos ativistas que conduziam o navio da Flotilha, o Madleen, entre os quais o brasileiro Thiago Ávila. Preso e colocado em solitária, ele está em greve de fome desde ontem e pode ser deportado a qualquer hora. O Itamaraty condenou a interceptação ilegal do barco e o sequestro dos tripulantes e trabalha pela libertação de Thiago.
Na quarta-feira (11) Amorim recebeu um grupo de parlamentares e da Fepal (Federação Árabe-Palestina), aos quais admitiu que o assunto estava em análise, como forma mais concreta de resposta à conduta de Israel, que qualificou de “desumana e totalmente contrária à moral e à ética”. A informação acabou sendo divulgada por alguns dos participantes e foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo como se fosse uma decisão já tomada, o que foi corrigido pelo embaixador em nota oficial.
Na manhã desta quinta-feira procurei o embaixador para saber se haveria alguma decisão nas próximas horas sobre a hipótese de rompimento dos acordos militares e ele me respondeu:
--Repito o que eu disse a eles. A adoção desta medida, que teria um forte efeito simbólico, expressando nosso absoluto rechaço ao que Israel vem fazendo, é uma hipótese que está sendo examinada pelo presidente, pelo chanceler Mauro Vieira e por mim, naturalmente. Muitos aspectos precisam ser considerados e isso é que está sendo feito.
Um dos aspectos, certamente, envolve a reação dos militares brasileiros, que prezam muito a cooperação com Israel e reagiram fortemente, há poucos meses, quando houve a decisão de suspender as negociações de um acordo de fornecimento de alto valor.
Rompimento de relações é decisão complexa
No encontro de quarta-feira, Amorim foi questionado sobre a razão pela qual o Brasil, apesar da reiterada condenação do genocídio, ainda não rompeu relações diplomáticas com Israel. Fiz a mesma pergunta, que sempre nos chega pelos internautas da Comunidade 247.
O rompimento, disse-me o embaixador, é algo mais complexo do que se pensa no senso comum. O Brasil mantém sua embaixada em Tel Aviv, embora sem um embaixador desde a crise diplomática ocorrida quando o presidente Lula associou as ações israelenses ao Holocausto. Fechá-la, segundo Amorim, prejudicaria muito o atendimento aos brasileiros que vivem em Israel e na Jordânia, e mesmo em Gaza. A embaixada em Tel Aviv, muitas vezes, possui melhores condições para ajudar estas pessoas, como se viveu naquela remoção dos brasileiros no início da guerra.
Assim, o rompimento de relações diplomáticas não parece estar no horizonte do governo.
Relações pragmáticas
As relações militares entre Brasil e Israel sempre tiveram foco na cooperação técnica, com momentos de aproximação e distanciamento, dependendo dos governos e contextos internacionais.
Israel é um dos principais fornecedores de tecnologia militar ao Brasil, especialmente em áreas como Sistemas de vigilância e drones, equipamentos de comunicação militar, modernização de veículos blindados e aviões. Empresas israelenses como a Elbit Systems têm forte presença no Brasil, incluindo fábricas e joint ventures, como a AEL Sistemas em Porto Alegre, que fornece peças para caças da Força Aérea Brasileira.
Durante os governos Lula e Dilma a relação militar se manteve técnica, mas havia um certo distanciamento político em razão da posição crítica do Brasil à ocupação israelense na Palestina. Já no governo Bolsonaro houve um estreitamento ideológico e militar com Israel, que Bolsonaro visitou em 2019.
A Elbit e a Ares Aeroespacial (outra subsidiária israelense) participaram de projetos de modernização dos blindados EE-9 Cascavel do Exército Brasileiro. A Ares fornece ao Exército e à Marinha as torres Remax, de armas remotamente controlada, sistemas de armas para navios-patrulha, com o sistema Typhoon, também de uso remoto. Estes e outros equipamentos são produzidos no Brasil, com transferência de tecnologia prevista em contratos.
Por tudo isso, o rompimento militar não é simples e enfrentaria resistências militares. Por outro lado, as compras brasileiras, pelo volume, contribuem para a sustentação econômica do governo de Netanyahu. As Estimativas de especialistas indicam que os contratos militares entre Brasil e Israel, incluindo parcerias industriais, superam US$ 1 bilhão desde o início dos anos 2000. O Brasil é, em alguns anos, um dos cinco principais destinos de exportação de armamentos israelenses.
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A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br