Análise Tática: Fla volta a jogar mal, mas vencer era o mais importante

22 de fevereiro de 2021 2

Antes de avaliar os conceitos táticos e técnicos do jogo é preciso entender o peso emocional e físico de um jogo tão importante e colocá-lo na balança. Flamengo x Internacional fizeram um jogo sem intensidade e alternativas até imaginadas antes da partida. Nem a equipe gaúcha, nem a carioca realizaram uma pressão inicial no adversário e o jogo começou de forma bastante tensa. Os dois times buscavam trabalhar nas suas formações iniciais em bloco médio/baixo, buscando pouco se expor ao adversário antes de tudo.O Internacional no seu já habitual 4-1-4-1 e o Fla trabalhando num 4-4-2/4-2-3-1 onde Gerson e Diego começaram a partida mais alinhados, além de Bruno Henrique jogar mais aberto e Arrascaeta trabalhando mais pelo centro.
O pênalti infantil feito por Gustavo Henrique e convertido por Edenílson mudou o jogo e o transformou em uma das configurações esperadas: Inter em bloco baixo esperando o Fla com a bola nos pés. Contudo a execução das propostas de ambas as equipes deixaram a desejar, tanto do ponto de vista físico e técnico, quanto de ocupação de espaços. O Mengão tinha a bola nos pés de uma forma lenta e morosa. Não conseguia transformar os 61% de posse ao longo da primeira etapa em risco ao adversário muito por conta da falta de profundidade dos quatro jogadores de frente. Já o Inter não realizava uma marcação intensa e deixava muitos espaços entre linhas para o trabalho de Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Arrascaeta.
Enquanto Gerson tentava quebrar linhas e ganhava de forma até tranquila os duelos com Praxedes, Everton Ribeiro e Bruno Henrique mais abertos tinham dificuldades para vencer os duelos contra os laterais colorados Rodinei e Moisés. Gabi fazia péssima partida, onde não conseguia gerar espaços pela esquerda e matava muitas transições ofensivas rubro-negras. Já Arrascaeta buscava se associar mais pelo meio e aproveitar o espaços entrelinhas do Internacional.
Defensivamente o grande problema do Fla foi a pouquíssima pressão na posse de bola adversária nos momentos que perdia a bola. Por falta principalmente de vigor físico, a equipe sofria com os contra-ataques colorados. Diego mais a esquerda, tinha a incumbência de vigiar Edenílson, enquanto Gerson claramente era orientado a auxiliar Isla nas escapadas de Patrick pela esquerda. A dupla de zaga não tinha problemas com a saída de bola, por conta da pressão quase inexistente do Internacional nela. Isso facilitou muito a recuperação emocional de Gustavo Henrique no jogo, que conseguiu ao longo da partida  fazer boas coberturas do centroavante colorado Yuri Alberto.
O Flamengo tentou trabalhar numa saída de bola mais sustentada com os dois laterais mais alinhados, porém com o gol sofrido, Isla voltou a se tornar um ponta direita, enquanto Filipe Luís trabalhava como um terceiro zagueiro, somente saindo de forma pontual. E numa dessas saídas pontuais, o lateral-esquerdo conseguiu interceptar uma bola próximo a meia-lua para rapidamente conectar Bruno Henrique à esquerda. O camisa 27 venceu o confronto com Rodinei e em profundidade serviu para Arrascaeta. O uruguaio finalizou e ,numa tacada de bilhar, empatou o jogo.
Com o empate, o Inter voltou a buscar atacar esporadicamente e em alguns raros momentos via o Flamengo se defendendo em bloco baixo. O Colorado não conseguiu explorar os espaços quando estava em vantagem, tão pouco produzir na pressão da posse adversária. Em avanço não acompanhado por Bruno Henrique, Rodinei conseguiu recuperar uma posse de Filipe Luís e acertou chute forte na trave. O primeiro tempo terminou com as equipes já desgastadas fisicamente e permitindo bastante os ataques adversários.
Já a segunda etapa iniciou com um fato que mudaria a história do confronto e do campeonato: a expulsão de Rodinei. Com um jogador a menos, Flamengo e Internacional se reconfiguraram completamente: Ceni dessa vez rapidamente fez mudanças na equipe buscando o segundo gol. O técnico tirou Isla e colocou em Pedro. O Flamengo passou a jogar numa espécie de 3-5-2 extremamente ofensivo. Com Everton Ribeiro e Bruno Henrique como pontas. Gabi e Pedro mais centralizados. Além de Gerson mais próximo de Arrascaeta. A ideia era conseguir gerar volume ofensivo tanto no meio, quanto dentro da área e arcar com os riscos de manter somente 3 jogadores para marcar o setor ofensivo colorado. Já o Inter tirou Praxedes e colocou o lateral-direito Heitor para recompor o setor. A equipe atuou num 4-4-1, com Dourado mais alinhado a Edenílson.
Sem Isla pela direita, o Flamengo perdeu a profundidade pelo setor. Everton Ribeiro não conseguia construir e não via em Gabi um companheiro para se associar pelo lado. Além disso, Patrick e Moisés conseguiram vencer alguns duelos e conectar transições rápidas. Diferente do que se esperava, o Inter não recuou tanto suas linhas e tentou roubar a bola rubro-negra no meio de campo. Isso foi um contraponto a ideia de Ceni de ter jogadores mais construtores no setor ofensivo, devido a necessidade do trabalho sem bola. Contudo ,após a perda da posse colorada no meio, Bruno Henrique deu a bola para Arrascaeta e abriu o corredor. O meia uruguaio cortou para dentro e em passe milimétrico, encontrou Gabi entre os zagueiros colorados. O histórico camisa 9 da Gávea finalizou a bola de forma mascada, porém a bola foi lentamente para o fundo das redes. Em belo gol coletivo construído em uma transição rápida. Lance que só foi possível pela presença de Pedro na área, na qual causou dúvida no zagueiro colorado. Ponto positivo para Ceni.
Após o gol, mesmo com um jogador a mais, o Flamengo decidiu dar a bola ao Internacional e marcar em bloco médio/baixo. Rogério recompôs a linha defensiva com João Lucas no lugar do exausto Gabigol. João Gomes também entrou no lugar do cansado Diego e Natan no lugar do machucado Rodrigo Caio. A equipe marcava em duas linhas de 4, com Arrascaeta e Pedro tentando pressionar a saída dos zagueiros colorados. Já Abel Braga, que havia tirado Dourado machucado para entrada de Jhonny, tentou reoxigenar o setor ofensivo com mudanças que não alteraram o desenho tático. Galhardo, Peglow e Maurício entraram no lugar de Caio Vidal , Patrick e Yuri Alberto. Com isso, Galhardo atuou mais centralizado. O Internacional pouquíssimo produziu e se expôs aos contra-ataques. Pedro, que havia marcado em posição irregular, fez outro gol ao roubar a bola do adversário. Porém, o gol também foi anulado. Bruno Henrique ainda perdeu outro gol no fim, em uma mais uma boa participação ofensiva de Pedro.
No fim, o Flamengo venceu uma partida que foi muito mais emocional e física, do que técnica e tática. A vitória era muito mais importante que o bom jogo. Onde Rogério foi ousado e recompensado na substituição na segunda etapa. Onde mesmo com todas as dificuldades e do jogo abaixo, a equipe conseguiu produzir ofensivamente e ser bem mais efetiva em suas oportunidades. Além disso, é preciso destacar o melhor jogador em campo: Arrascaeta. O atleta foi imprescindível e decisivo na vitória, diferente das últimas partidas onde o uruguaio perdeu grandes oportunidades, dessa vez o meia foi cirúrgico. Foi uma vitória onde algumas decisões estratégicas de Ceni podem ser discutidas, mas surtiram efeito e trouxeram a equipe pela primeira vez no campeonato como líder. Falta um passo para o octa.