Após invasão do tráfico, milicianos da Praça Seca se refugiaram em favela dominada por facção rival

9 de julho de 2020 124

A Polícia Civil já sabe que, após a invasão da Praça Seca, na Zona Norte, pela maior facção do Rio, milicianos que dominam a região pediram apoio de traficantes rivais dos invasores para impedir novos ataques. Paramilitares que fugiram da região durante a invasão buscaram refúgio, ao longo do dia de ontem, no Complexo da Serrinha, em Madureira, na Zona Norte do Rio. No final de 2018, traficantes da Serrinha e milicianos da Praça Seca fecharam um acordo para manter seus domínios.

O pacto entre as quadrilhas foi costurado por Walace de Brito Trindade, o Lacoste, chefe do tráfico da Serrinha, e prevê o fim de ataques de ambos os lados. Também fazem parte do trato o empréstimo de armas entre os grupos criminosos para que sejam usadas em invasões e a liberação da venda de drogas em áreas controladas pelos paramilitares.

 

Traficantes postaram fotos da invasão nas redes sociais
Traficantes postaram fotos da invasão nas redes sociais

 

Após o acordo, o tráfico da Serrinha também passou a replicar uma prática típica da milícia em seus domínios: a cobrança de estabelecimentos comerciais. Atualmente, os criminosos cobram até R$ 4 mil de lojas e estacionamentos no entorno da favela. Lacoste é um dos traficantes mais procurados do Rio e também um dos mais longevos: desde 2012, manda na Serrinha.

Se a milícia já buscou aliados, traficantes da maior facção do estado também pretendem se reforçar para novos ataques: a quadrilha aguarda a chegada de criminosos do Complexo da Maré na região.

Planejamento

A invasão da Praça Seca pela maior facção do Rio começou a ser planejada antes mesmo da pandemia de coronavírus. Policiais civis e militares que investigam o crime na região — que é dominada, desde 2017, pela milícia — já sabem que o primeiro passo dado pela quadrilha para preparar o ataque foi a tomada dos morros do Dezoito e do Saçu, em Quintino, na Zona Norte, em março deste ano. As duas favelas são vizinhas à Praça Seca e foram usadas como ponto de apoio para a invasão. Há mais de um ano, os morros do Dezoito e Saçu eram dominados por um "consórcio" de traficantes da Serrinha e milicianos da Praça Seca.

 

Comunidades da Praça Seca
Comunidades da Praça Seca Foto: Editoria de Arte Extra

 

Participaram do ataque da madrugada desta quarta-feira criminosos dos complexos do Lins e da Penha, na Zona Norte. Fotos tiradas pelos próprios traficantes durante a invasão mostram os criminosos vestidos com roupas camufladas e fuzis na mata, antes do ataque. A polícia já sabe que os criminosos entraram na Praça Seca pela mata — a Floresta da Tijuca conecta o Complexo do Lins, o Morro do Dezoito e todas as favelas da Praça Seca: Barão, Baronesa, Bateau Mouche, Chacrinha e São José Operário.

A tomada do Dezoito e do Saçu pela maior facção do Rio durou quase três semanas em março deste ano. O primeiro tiroteio aconteceu antes mesmo das primeiras medidas tomadas pelo governo do estado em combate à pandemia. Na ocasião, a milícia pediu apoio à outra facção do tráfico, que domina a favela da Serrinha, em Madureira, e os confrontos se arrastaram por semanas.

 

Policiais militares fizeram ação na mata
Policiais militares fizeram ação na mata

 

"Não sustenta guerra mais não, pode abaixar a cabeça que vocês nunca mais vão brotar no Dezoito. Próxima parada, Bateau Mouche", postou um traficante em 15 de março, após a tomada do Morro do Dezoito. "Nossa base tá formada... Dezoito e Complexo do Lins união formada, próxima parada Praça Seca", respondeu outro criminoso.

Os criminosos da maior facção do Rio, entretanto, não ocuparam a Praça Seca: somente entraram, expulsaram os rivais e, após a chegada da Polícia Militar, pela manhã, recuaram para a mata. A Polícia Civil prevê que a disputa terá novos capítulos, com a busca de reforços de ambos os lados.