As falsas propostas e a letargia messiânica da sociedade, comentário de Rafael Viera

12 de maio de 2020 76

Por Rafael Vier
comentário no post Xadrez do fator Celso de Mello no enquadramento do governo Bolsonaro, por Luis Nassif

O articulista André Araújo do GGN costuma dizer que o acaso é quem constrói a história.

Pensando nisso, lembrei-me da avaliação de muitos analistas políticos, segundo a qual a facada foi responsável pela eleição do atual presidente.

Continuando nas contingências, talvez uma pandemia seja responsável por sua queda.

Enfim, dois eventos aleatórios podem ser determinantes para o início e o fim da atual tragédia em que o Brasil se encontra.

E aqui, cabe um parêntese. Pois, numa perspectiva histórica mais ampla, creio que a posse do atual presidente seja fruto da profecia, segundo a qual a história se repete como farsa. Pois, nessa perspectiva histórica mais ampla, o atual presidente é filho do “mensalão do PT”, da “república de Curitiba” e do “golpimpeachment” em Dilma. Assim como os militares de 64 são fruto do “mar de lama” de Getúlio e da “república do Galeão” e das várias tentativas impedir as posses de JK e Jango. Aí, muitos alegarão e com razão. Ah, mas a gestão dos governos militares não se compara com a do atual governo. Sim. Daí a farsa. Fecha o parêntese.

Retomando. A relação entre a pandemia e a possível queda do atual governo está na estratégia discursiva do presidente, regida sempre pelo conflito.

Assim, quando o mundo e o Brasil se depararam com uma pandemia e todos lançam mão do discurso: temos que salvar vidas. Ao presidente, que sempre opta pelo conflito, resta o discurso: temos que salvar a economia.
E qual é o problema dessa estratégia discursiva?

É que a retórica “salvar vida” significa maior isolamento social, menor propagação e maior controle da doença e, consequentemente, volta mais rápida à normalidade. A ponto de alguns países que adotaram fortemente essa estratégia já estarem comemorando a marca de nenhum caso novo.

 

Por outro lado, a retórica “salvar a economia” significa voltar imediatamente à normalidade. E isso gera maior interação humana, explosão da pandemia, caos social e sanitário e uma retomada econômica mais lenta.

Mas, se isso acontece, porque o discurso do presidente tem tanta força, ao menos no curto prazo?

Isso ocorre por dois motivos.

Primeiro, porque seu governo, estrategicamente, retarda todas as medidas econômicas para o enfrentamento da doença, forçando a sociedade a voltar à normalidade. Segundo, porque quanto maior o isolamento social, no curto prazo, menor será a propagação da doença e o número de infectados e, assim, mais as pessoas acreditarão que o isolamento não é necessário e que a doença não é perigosa.

Logo, no curto prazo, as medidas de isolamento social, contraditoriamente, ao trazerem resultados positivos acabam reforçando o discurso oposto, de que o isolamento social é dispensável e que o mais importante é o retorno à normalidade para recuperar a economia.

Porém, conforme já exposto, voltar à normalidade antes do controle da pandemia faz com que o vírus volte a se propagar com força. E, assim, maior será o tempo necessário de isolamento social e, consequentemente, pior será o desempenho econômico.

Perceberam o problema que uma pandemia imponderável cria numa estratégia discursiva de uma nota só, de quem sempre opta pelo conflito?

 

Em suma, o discurso do presidente é duplamente equivocado. Pois, o discurso contrário, de “salvar vidas” (manter o isolamento social) além de ser socialmente mais aceitável, ao reduzir as vítimas, também é economicamente mais eficaz. Enquanto que o discurso “salvar a econômica” (voltar logo ao trabalho), antes do controle da doença, produz mais vitimas e prejudica o desempenho econômico.

E aqui, não custa alertar os “economistas” incapazes de resolver uma equação que leva em conta a realidade empírica e tem mais de uma variável. Pois, a equação crescimento econômico, que depende da variável “trabalho”, não existe na realidade sensível sem a variável “coronavirus”. Ou seja, só é possível resolver a equação “crescimento econômico” levando em conta as duas variáveis (trabalho e doença) simultaneamente.

Posto isso, há uma certeza e uma dúvida.

A certeza é que essa estratégia discursiva do presidente causará mais mortes e prejudicará o desempenho econômico. A dúvida é saber quanto tempo a sociedade brasileira irá levar para acordar dessa letargia imposta por discurso messiânico do “bem” contra o “mal”, feito por um presidente sádico que atenta contra os interesses de sobrevivência e desenvolvimento da própria sociedade?