As fotos de Dilma dormindo no avião ou A trilogia do ódio, por Armando Coelho Neto

9 de dezembro de 2019 204

As fotos de Dilma dormindo no avião ou A trilogia do ódio

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Sadismo. Já falei sobre isso neste espaço, destacando o requinte de maldade da escória humana que tomou o país de assalto, mediante um golpe de estado, seguido de fraude eleitoral. Gente que tripudiou da morte da esposa, irmão e neto do ex-presidente Lula. Gente como o ex-juiz Sérgio Moro que pretende legitimar o assassinato de pobres, negros, índios, mulheres, homossexuais. O extermínio dos contrários – objeto explícito de campanha eleitoral do Bozo, hoje legitima o festival de balas perdidas, massacres como o da favela de Paraisópolis, queimadas na Amazônia e no cerrado. Requintes de crueldades cometidos por agentes do Estado.

Sob a égide do ódio bolsopata, recebo de um delegado federal negro, um meme no qual um soldado negro, com um cacete bate num boneco com o rosto de Lula. Negro e pobre, o delegado repassa a figura de um pobre negro batendo num mestiço (Lula) igualmente pobre, que os Marinhos querem transformar em ladrão. Enquanto isso, policiais militares de índole assassina buscam seus cinco minutos de fama exercendo a maldade, batendo com skate numa mãe e no filho.

Ainda sob impacto das imagens acima, recebi de outro delegado federal fotos da ex-Presidenta Dilma Rousseff dormindo no espaço de primeira classe, num avião procedente de Dubai. “Olha a companheira Dilma, voando First Class de Dubai pra SP… eu não disse Caracas ou Havana para SP… Dubai pra SP… meteu aquele Caviar, umas boas taças de Dom Perignon, e logicamente aquele vinho Francês… uma maravilha… Parabéns pra você que também paga por isso !!!”, escreveu o autor das fotos.

Convenhamos que a aparência de quem está dormindo, com exceções de peças publicitárias, não costuma gerar boas imagens. O ódio está presente nas fotos e nos comentários, sugerindo que estaria viajando com dinheiro público. Tecnicamente, crimes de calúnia, injúria e difamação, já que foi acusada publicamente de crime, seria autora de ato e/ou fato desonroso, mais o conteúdo difamante pelo condão desqualificador.

Quero falar de um crime, enquanto Dilma Rousseff dormia. Permita-me, pois, leitor, duas ou três linhas sobre a vulnerabilidade do sono…

Segundo a mitologia grega, Hypnos seria o deus do sono e sua função seria zelar pelo descanso das criaturas na Terra. Seu irmão gêmeo era Thanatos – o deus da morte (filho dos deuses da noite e escuridão). Já a Ciência, em apertada síntese, trata o sono como a suspensão temporária da atividade perceptivo-sensorial e motora voluntária de uma pessoa. Para o Espiritismo, seria um estado de emancipação parcial da alma, uma evasão da alma da prisão do corpo.

 

Hypnos se descuidou de Dilma, entregando-a ao ódio alheio. O fato é que dormindo ou morto, paira o desarmamento a vulnerabilidade de alguém indefeso. Seja sob o ângulo científico, mitológico, religioso e jurídico predomina a ideia de que quem dorme está, em estado de pureza anímica, no caso, violentada.

Primeiramente seria de questionar a aparente conivência e ou deficiência da empresa aérea, por não garantir, mesmo num voo de primeira classe, a privacidade das pessoas. As fotos contam com boa iluminação, como se o trabalho houvesse sido facilitado, ou como se a boa iluminação decorresse de descuido da tripulação. Vejo suspeita de condescendência e ou cumplicidade não apenas da empresa, mas também de outros passageiros. Naquele voo estava uma ex-Chefe de Nação, ex-Comandante das Forças Armadas do Brasil. Do mesmo modo que foram fotos, poderia ser uma outra agressão qualquer.

Dilma dormia. Lembro o leitor de que, entre os motivos de agravamento da pena dos Irmãos Cravinhos (Caso Richthofen), estava o fato da vítima estar dormindo. O Código Penal, no Art. 121, prescreve: Matar alguém: Pena – reclusão, de seis a vinte anos… O crime é agravado entre outros motivos, quando cometido por motivo fútil… à traição, de emboscada ou meio que dificulte ou torne “impossível a defesa do ofendido”. Para a lei, não importa que o autor não tenha dado causa à vulnerabilidade, basta que tire proveito dela, como alguém que está dormindo – caso da ex-Presidenta.

Há uma consciência no pensamento jurídico civilizado quanto ao respeito ao sono, por ser situação de vulnerabilidade. A embriaguez, por exemplo, confere à pessoa a situação de vulnerável. Nesse sentido, exemplificativamente, existe aumento de pena nos estupros praticados por maridos, seguranças e policiais contra mulheres, quando elas estão sob efeito de droga lícita ou ilícita. Quando envolve menores, essa vulnerabilidade é presumida.

Não se trata de simples comparação entre homicídio e o caso das fotos. Quero demonstrar que a lei prevê e pune com agravante, crimes cometidos contra quem está vulnerável. Da Lei Maria da Penha ao Estatuto do Idoso, do ECA à Lei de Drogas, a vulnerabilidade encontra respeito, proteção.

Mediante insidioso abuso de uma situação vulnerável da vítima, com afrontamento inclusive do direito de imagem e invasão de privacidade, parece consumado os crime de calúnia, injúria e difamação, a ser investigado pela Polícia Federal, por ser crime cometido em aeronave, conforme dispõe o art. 109, inc. IX, da Constituição Federal, que dá como exceção crimes da esfera militar.

A assessoria de imprensa da ex-Presidenta disse por meio de nota que ela foi aos Emirados Árabes Unidos participar de um trabalho sobre “Direitos das gerações futuras” e que todas as despesas foram pagas pelos organizadores do evento. O Brasil está refém da trilogia do ódio formada pelo Bozo, Moro e Globo. O mesmo ódio embutido nas fotos, queimadas e chacinas.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.