CABE-NOS PROVAR QUE A EMANCIPAÇÃO HUMANA PODE SER INICIADA NO BRASIL

18 de maio de 2021 255

dalton rosado

VIVEMOS UM MOMENTO HISTÓRICO

Lênin, nas Teses de Abril

Há momentos na história nos quais parece que o universo conspira contra o que está socialmente posto como se a própria natureza estivesse vivendo as dores do parto de um novo porvir. 

Acabei de assistir, por indicação do blog, ao bom filme O trem de Lenin (saiba mais sobre clicando aqui) que mostra a importância de um grupo de revolucionários exilados na suíça e seu retorno à Rússia no processo de ruptura daquele país com a monarquia czarista dos Romanov, ao mesmo tempo em que se desenrolava a 1ª Guerra Mundial

A penúria do povo russo aumentava pela guerra e se aliava à instabilidade própria de uma mudança de conceitos políticos e relações de propriedade então em curso. 

A deposição de Nicolau II e a instalação, no começo de 1917, de um governo provisório vacilante quanto à continuidade ou não da participação da Rússia campesina numa guerra que dizimava milhões de seus cidadãos impunha a tomada de decisões fora do tradicional colaboracionismo social-democrata emergente, representado pelo novo poder vacilante que se instalara.

Os bolcheviques, liderados por Lenin e com a decisiva participação de Trotsky no processo revolucionário armado, compreenderam a necessidade de a Rússia firmar imediatamente a paz em separado com a Alemanha, o que se deu em março de 1918, garantindo a sobrevivência do primeiro Estado dito proletário, que havia sido criado em novembro de 1917 (correspondente a outubro no antigo calendário juliano).Líderes bolcheviques em 1917: Trotsky (batendo continência) comandou a tomada do poder e criou o Exército Vermelho; Lênin (à dir.) forjou o partido revolucionário e formou o governo 

Jamais poderemos saber se seria dado um novo rumo ao processo revolucionário caso Lenin não tivesse morrido em 1924, após o agravamento do seu estado de saúde, apenas sete anos após a chamada revolução vermelha (em contraposição à revolução branca, liberal, de fevereiro de 1917); são os desígnios da história, às vezes impossíveis de desvendarmos). 

Pessoalmente, mesmo respeitando a liderança, o gênio político e a indubitável postura revolucionária de Lenin, suponho que ele não havia compreendido a necessidade de a Rússia, com sua grande extensão territorial e recursos materiais, promover uma ruptura com as categorias capitalistas então continuadas.

Vale, aliás, lembrar que foi Lenin o principal proponente da chamada Nova Política Econômica, de orientação liberal, um passo atrás para se retirarem trunfos propagandísticos das mãos dos contrarrevolucionários e combater a fome que se instalava na Rússia. 

Ele a defendeu como medida conjuntural que permitiria a retomada do rumo socialista adiante, quando seriam dados dois passos à frente

Se, sobrevivendo, Lenin daria mesmo uma nova guinada nesse processo, é coisa que jamais saberemos, mas cumpridor de suas promessas ele sempre foi... 

Em toda a sua vasta obra, Lenin pouco, ou quase nada, se reportou ao que considero a parte mais importante da obra de Karl Marx – a crítica da economia política –, ou seja, da forma-valor e de toda a sua nefasta entourage acessória.

A partir da morte de Lenin, estabeleceram-se na direção do Partido Comunista pretensos revolucionários, oportunistas como Stalin, incapazes de promover novos avanços sociais e de conviver com a têmpera e renúncia ao culto personalista de poder que deve nortear o senso de justiça dos verdadeiros revolucionários.

Seguiu-se a perseguição e morte dos integrantes da chamada velha guarda bolchevique em processos forjados, como sempre acontecia com a monarquia czarista e tantos outros governos ditatoriais mundo afora em relação aos seus opositores. 

Assim mesmo, não podemos esquecer que, durante seus anos de isolamento com relação à concorrência de mercado capitalista, a Rússia conseguiu alavancar a industrialização e instalar a infraestrutura básica  de que ainda era carente (energia, estradas, eletrificação, petróleo, alfabetização, etc.), compensando o atraso  acumulado sob os czares

Tal recuperação tardia, contudo, só pôde seguir até esbarrar nos limites exigidos pela lógica expansionista do capital e ter de se abrir para a fratricida concorrência de mercado externo.

A vitória russa em Stalingrado é tida como a batalha que selou o destino de Hitler 

E não devemos esquecer, também, que a heroica resistência do povo russo, ao custo de cerca de 27 milhões de mortos (mais de 50% do total de óbitos na guerra), e sua até então desconhecida força bélica mecanizada (melhor adaptados ao clima e topografia, os tanques russos prevaleceram sobre a blitzkrieg –guerra relâmpago– alemã) foram o fator determinante da guinada no rumo do conflito, com os aliados saindo da defensiva para a vitória. 

Vivemos um momento impar na história recente e breve do capitalismo, de pouco mais de duas centenas de anos em suas formas políticas e de revoluções industriais. 

Conjugaram-se no presente momento dois fatores explosivos:

— a obsolescência dos conceitos de produção de valor a partir da exploração do trabalho abstrato, hoje tornado em maior parte desnecessário, o que representa a morte da galinha dos ovos de ouro;

— o alastramento de uma pandemia virótica que, apesar do seu baixo grau de letalidade per capita (em torno de 2% a 3% dos infectados), é tão abrangente a ponto de estar criando um impasse capitalista entre se morrer infectado ou adotar-se o isolamento social, arcando com a consequente redução da produção e circulação de mercadorias a patamares insuficientes para o abastecimento do consumo e a dinâmica da reprodução da massa de valor.  

Chile, 2019: pesadelo para o Paulo Guedes!

Tal como Lenin, estamos num contexto no qual a única saída possível é nos voltarmos para um modo de produção capaz de promover a ruptura com o velho capitalismo carcomido, cujos sinais de esgotamento são evidentes.

Podemos constatar nos nossos vizinhos o exaurimento de governos que atuam sob a égide de todo o sistema capitalista. Basta uma fagulha para começar o incêndio. 

O aumento de passagens no Chile (como já acontecera no Brasil em 2013), foi o bastante para que houvesse um levante capaz de mobilizar o povo chileno na exigência de uma constituinte, prenúncio de um novo tempo em substituição ao esgotamento de uma modelo que encontrou o inconciliável limite e choque entre forma e conteúdo sociais. 

Na Colômbia se observa o mesmo processo de insatisfação popular; na Bolívia os golpistas conservadores de ontem estão a ser presos; na Argentina o governo conservador perdeu as eleições e se elegeu um governante de centro, mais keynesiano do que liberal, mas que logo, logo enfrentará o desgaste de um processo irreversível de esgotamento do modelo ainda vigente por lá; no Paraguai, germina a mesma insatisfação.

Se lançarmos um olhar para Jerusalém; para o Iêmen; para a Síria; para o Afeganistão; para a França dos coletes amarelos; para os movimentos civis étnicos dos Estados Unidos, etc., vamos ver que o quadro mundial é de ebulição social.    

Nesta nação-continente que tem mais da metade de toda a população da América do Sul e é uma das mais ricas em recursos naturais do planeta, cabe-nos dar um exemplo ao mundo de nossa capacidade revolucionária, demonstrando ser possível iniciarmos aqui o processo de emancipação humana. 

Os requisitos para tanto estão dados, pois este é um país que:

— tem mais boi do que gente;

— mais soja e cereais do que capacidade de comê-los (e ainda assim há fome!); 

— mais ferro do que toda a China; 

— mais água potável no Rio Amazonas do que em todos os rios da Europa;

— mais terra fértil do que se possa necessitar;

— mais gente criativa e miscigenada, capaz de conviver sem conflitos, do que qualquer outra nação no mundo;

— maior capacidade de ser feliz, apesar da violência urbana que toma ares de uma guerra civil e de outras mazelas erradicáveis. 

 

À tarefa, pois!!! (por Dalton Rosado)

Observação: surgidos na derrotada revolução de 1905 e recriados a partir da abdicação  do czar em fevereiro de 1917, os sovietes eram cada um dos conselhos constituídos pelos delegados dos trabalhadores, dos camponeses e dos soldados. Após a tomada de poder pelos bolcheviques em novembro de 1917, passaram a ter função de órgão deliberativo (DR).

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Fonte: CELSO LUNGARETTI
A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR CELSO LUNGARETTI )