CABE-NOS PROVAR QUE A EMANCIPAÇÃO HUMANA PODE SER INICIADA NO BRASIL
dalton rosado
VIVEMOS UM MOMENTO HISTÓRICO
Há momentos na história nos quais parece que o universo conspira contra o que está socialmente posto como se a própria natureza estivesse vivendo as dores do parto de um novo porvir.
Acabei de assistir, por indicação do blog, ao bom filme O trem de Lenin (saiba mais sobre clicando aqui) que mostra a importância de um grupo de revolucionários exilados na suíça e seu retorno à Rússia no processo de ruptura daquele país com a monarquia czarista dos Romanov, ao mesmo tempo em que se desenrolava a 1ª Guerra Mundial.
A penúria do povo russo aumentava pela guerra e se aliava à instabilidade própria de uma mudança de conceitos políticos e relações de propriedade então em curso.
A deposição de Nicolau II e a instalação, no começo de 1917, de um governo provisório vacilante quanto à continuidade ou não da participação da Rússia campesina numa guerra que dizimava milhões de seus cidadãos impunha a tomada de decisões fora do tradicional colaboracionismo social-democrata emergente, representado pelo novo poder vacilante que se instalara.
Os bolcheviques, liderados por Lenin e com a decisiva participação de Trotsky no processo revolucionário armado, compreenderam a necessidade de a Rússia firmar imediatamente a paz em separado com a Alemanha, o que se deu em março de 1918, garantindo a sobrevivência do primeiro Estado dito proletário, que havia sido criado em novembro de 1917 (correspondente a outubro no antigo calendário juliano).Líderes bolcheviques em 1917: Trotsky (batendo continência) comandou a tomada do poder e criou o Exército Vermelho; Lênin (à dir.) forjou o partido revolucionário e formou o governo
Jamais poderemos saber se seria dado um novo rumo ao processo revolucionário caso Lenin não tivesse morrido em 1924, após o agravamento do seu estado de saúde, apenas sete anos após a chamada revolução vermelha (em contraposição à revolução branca, liberal, de fevereiro de 1917); são os desígnios da história, às vezes impossíveis de desvendarmos).
Pessoalmente, mesmo respeitando a liderança, o gênio político e a indubitável postura revolucionária de Lenin, suponho que ele não havia compreendido a necessidade de a Rússia, com sua grande extensão territorial e recursos materiais, promover uma ruptura com as categorias capitalistas então continuadas.
Vale, aliás, lembrar que foi Lenin o principal proponente da chamada Nova Política Econômica, de orientação liberal, um passo atrás para se retirarem trunfos propagandísticos das mãos dos contrarrevolucionários e combater a fome que se instalava na Rússia.
Ele a defendeu como medida conjuntural que permitiria a retomada do rumo socialista adiante, quando seriam dados dois passos à frente.
Se, sobrevivendo, Lenin daria mesmo uma nova guinada nesse processo, é coisa que jamais saberemos, mas cumpridor de suas promessas ele sempre foi...
Em toda a sua vasta obra, Lenin pouco, ou quase nada, se reportou ao que considero a parte mais importante da obra de Karl Marx – a crítica da economia política –, ou seja, da forma-valor e de toda a sua nefasta entourage acessória.
A partir da morte de Lenin, estabeleceram-se na direção do Partido Comunista pretensos revolucionários, oportunistas como Stalin, incapazes de promover novos avanços sociais e de conviver com a têmpera e renúncia ao culto personalista de poder que deve nortear o senso de justiça dos verdadeiros revolucionários.
Seguiu-se a perseguição e morte dos integrantes da chamada velha guarda bolchevique em processos forjados, como sempre acontecia com a monarquia czarista e tantos outros governos ditatoriais mundo afora em relação aos seus opositores.
Assim mesmo, não podemos esquecer que, durante seus anos de isolamento com relação à concorrência de mercado capitalista, a Rússia conseguiu alavancar a industrialização e instalar a infraestrutura básica de que ainda era carente (energia, estradas, eletrificação, petróleo, alfabetização, etc.), compensando o atraso acumulado sob os czares
Tal recuperação tardia, contudo, só pôde seguir até esbarrar nos limites exigidos pela lógica expansionista do capital e ter de se abrir para a fratricida concorrência de mercado externo.
A vitória russa em Stalingrado é tida como a batalha que selou o destino de Hitler
E não devemos esquecer, também, que a heroica resistência do povo russo, ao custo de cerca de 27 milhões de mortos (mais de 50% do total de óbitos na guerra), e sua até então desconhecida força bélica mecanizada (melhor adaptados ao clima e topografia, os tanques russos prevaleceram sobre a blitzkrieg –guerra relâmpago– alemã) foram o fator determinante da guinada no rumo do conflito, com os aliados saindo da defensiva para a vitória.
Vivemos um momento impar na história recente e breve do capitalismo, de pouco mais de duas centenas de anos em suas formas políticas e de revoluções industriais.
Conjugaram-se no presente momento dois fatores explosivos:
— a obsolescência dos conceitos de produção de valor a partir da exploração do trabalho abstrato, hoje tornado em maior parte desnecessário, o que representa a morte da galinha dos ovos de ouro;
— o alastramento de uma pandemia virótica que, apesar do seu baixo grau de letalidade per capita (em torno de 2% a 3% dos infectados), é tão abrangente a ponto de estar criando um impasse capitalista entre se morrer infectado ou adotar-se o isolamento social, arcando com a consequente redução da produção e circulação de mercadorias a patamares insuficientes para o abastecimento do consumo e a dinâmica da reprodução da massa de valor.
Chile, 2019: pesadelo para o Paulo Guedes!
Tal como Lenin, estamos num contexto no qual a única saída possível é nos voltarmos para um modo de produção capaz de promover a ruptura com o velho capitalismo carcomido, cujos sinais de esgotamento são evidentes.
Podemos constatar nos nossos vizinhos o exaurimento de governos que atuam sob a égide de todo o sistema capitalista. Basta uma fagulha para começar o incêndio.
O aumento de passagens no Chile (como já acontecera no Brasil em 2013), foi o bastante para que houvesse um levante capaz de mobilizar o povo chileno na exigência de uma constituinte, prenúncio de um novo tempo em substituição ao esgotamento de uma modelo que encontrou o inconciliável limite e choque entre forma e conteúdo sociais.
Na Colômbia se observa o mesmo processo de insatisfação popular; na Bolívia os golpistas conservadores de ontem estão a ser presos; na Argentina o governo conservador perdeu as eleições e se elegeu um governante de centro, mais keynesiano do que liberal, mas que logo, logo enfrentará o desgaste de um processo irreversível de esgotamento do modelo ainda vigente por lá; no Paraguai, germina a mesma insatisfação.
Se lançarmos um olhar para Jerusalém; para o Iêmen; para a Síria; para o Afeganistão; para a França dos coletes amarelos; para os movimentos civis étnicos dos Estados Unidos, etc., vamos ver que o quadro mundial é de ebulição social.
Nesta nação-continente que tem mais da metade de toda a população da América do Sul e é uma das mais ricas em recursos naturais do planeta, cabe-nos dar um exemplo ao mundo de nossa capacidade revolucionária, demonstrando ser possível iniciarmos aqui o processo de emancipação humana.
Os requisitos para tanto estão dados, pois este é um país que:
— tem mais boi do que gente;
— mais soja e cereais do que capacidade de comê-los (e ainda assim há fome!);
— mais ferro do que toda a China;
— mais água potável no Rio Amazonas do que em todos os rios da Europa;
— mais terra fértil do que se possa necessitar;
— mais gente criativa e miscigenada, capaz de conviver sem conflitos, do que qualquer outra nação no mundo;
— maior capacidade de ser feliz, apesar da violência urbana que toma ares de uma guerra civil e de outras mazelas erradicáveis.
À tarefa, pois!!! (por Dalton Rosado)
Observação: surgidos na derrotada revolução de 1905 e recriados a partir da abdicação do czar em fevereiro de 1917, os sovietes eram cada um dos conselhos constituídos pelos delegados dos trabalhadores, dos camponeses e dos soldados. Após a tomada de poder pelos bolcheviques em novembro de 1917, passaram a ter função de órgão deliberativo (DR).
Postado por celsolungaretti
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