Carbono Oculto mira ex-diretor do Genial e empresário ligado a Vorcaro

24 de setembro de 2026 39

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Estado de São Paulo e a Receita Federal deflagraram na manhã desta quinta-feira (24), a Operação Crédito Oculto, uma nova fase da Operação Carbono Oculto.

Estão sendo cumpridos mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo.

Entre os alvos da operação estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial, e o empresário Antônio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos.

 

 

Mineiro é apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O empresário assinou acordo de delação premiada com a PGR (Procuradoria-Geral da República).

A empresa de Freixo seria utilizada para repasses do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Procurada, a defesa de Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, informou que não irá se manifestar.

Em nota, o Banco Genial ressaltou que Humberto Tupinambá não atua mais na instituição. Veja o posicionamento na íntegra:

"O Banco Genial esclarece que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.

Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.

No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.

A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.

Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.

A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários."

Investigações e desdobramentos da Carbono Oculto

De acordo com as identificações ocorridas na operação Carbono Oculto, a primeira estrutura foi criada para ocultar e dissimular os reais proprietários de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo.

Outro operador financeiro, titular de fintechs e outras empresas, teria usado a infraestrutura societária e financeira do grupo empresarial, não apenas para a movimentação financeira das empresas da organização criminosa, como para criar novas camadas de ocultação sobre a titularidade da usina sucroalcooleira, entre outras fraudes.

Embora a titularidade formal da empresa sucroalcooleira estivesse distribuída entre fundos de investimento e outras empresas aparentemente independentes, os elementos reunidos indicam que a estrutura foi organizada para preservar o controle econômico dela sem que os reais beneficiários fossem revelados.

Segundo as investigações, um dos pontos envolve uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Os levantamentos apontam que uma empresa ligada à sociedade de investimentos adquiriu os créditos por meio da transferência de cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC).

A análise financeira indicou que uma parte relevante dos recursos empregados na aquisição das cotas tinha origem de fundos de investimentos controlados pelo mesmo grupo investigado. A estrutura teria criado um fluxo financeiro circular, que dava aparência de legitimidade à operação e dificultava a identificação dos reais beneficiários.

A ocultação da titularidade da usina sucroalcooleira, em duas etapas e por dois grupos de operadores do mercado financeiro, blindou a usina sucroalcooleira e também a usou como instrumento para a estruturação de um novo negócio jurídico da organização criminosa.

A nova aquisição do esquema seria de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país, conhecida como Terrana. 

Usina sucroalcooleira e os R$ 100 milhões

As análises econômico-financeiras apontam que a aquisição da distribuidora de combustíveis foi viabilizada por outra estrutura financeira composta por banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e empresas de fachada. Ela era organizada para distanciar os recursos ilícitos usados na operação e os seus verdadeiros financiadores e beneficiários econômicos.

As prórprias contas bancárias da usina teriam recepcionado R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa para financiar a aquisição.

Seguindo modus operandi já apontado pelo Ministério Público de São Paulo, os valores passaram “em poucos minutos” por múltiplas contas gráficas de três empresas do grupo ocultadas por contas bolsões em fintechs, que seriam usadas como “contas de passagem”, até aportarem na conta da usina sucroalcooleira.

Com isso, a usina passou a integrar a carteira de um novo fundo de investimento criado especificamente para o negócio jurídico. O valor de R$ 100 milhões foi aportado em referido fundo de investimento.

Depois, a fraude foi arquitetada por intermédio de um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). O fundo de investimento realizou a aquisição de um CDB perante o Banco Tradicional que, por sua vez, usou o dinheiro para realizar uma operação “casada” com a emissão de duas cédulas de crédito bancário para duas shell companies da própria organização criminosa.

As empresas de fachada se capitalizaram mediante o negócio jurídico simulado e foram usadas para ocultar e dissimular os verdadeiros beneficiários finais do negócio jurídico, ou seja, a aquisição da distribuidora de combustíveis.

Segundo as investigações, recursos foram utilizados para adquirir integralmente as cotas de um fundo imobiliário. Os imóveis que davam suporte econômico à operação já haviam sido previamente transferidos para empresas patrimoniais e, posteriormente, para fundos imobiliários.

Dessa forma, os bens permaneciam sob o controle econômico do grupo investigado, mas deixavam de figurar diretamente em seu patrimônio pessoal, o que dificultava a identificação dos reais proprietários e proporcionava blindagem patrimonial.

Os elementos reunidos apontam que a fintech, a empresa sucroalcooleira, os fundos de investimento, as holdings e as empresas-veículo desempenhavam funções complementares na estrutura.

O papel de cada instituição no esquema

De acordo com as investigações, a fintech permitia a circulação e fragmentação dos recursos. A empresa sucroalcooleira recepcionava e incorporava os valores à atividade econômica formal.

Já os fundos assumiam a posição econômica de financiadores de fato, as holdings realizavam as aquisições e as empresas-veículo serviam como camada adicional de separação entre a origem dos recursos e os reais beneficiários dos ativos adquiridos.

Os fundos imobiliários foram usados para concentrar imóveis vinculados aos investigados.

Além de fornecer garantias e suporte econômico às operações, os veículos mantinham bens de alto valor em patrimônios segregados, fora da titularidade direta dos investigados, o que ampliava a blindagem patrimonial e dificultava a visualização do patrimônio efetivamente controlado pelo grupo.

A investigação constatou a construção e a interligação de múltiplas estruturas de lavagem de dinheiro, não apenas pela organização criminosa atuante em todo o setor de combustíveis, mas também por operadores do mercado financeiro que prestam serviços de lavagem de capitais, consistindo em verdadeiras convergências criminosas à disposição de múltiplos grupos criminosos.

A empresa financeira empregada na aquisição simulada da empresa sucroalcooleira movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.

Para os investigadores, o volume financeiro, considerado com as demais evidências, reforça os indícios de uso de uma estrutura financeira e de investimentos para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de dinheiro.

A CNN Brasil entrou em contato com a Entre Investimentos e tenta localizar a defesa dos citados. O espaço está aberto para manifestações.

 

Fonte: CNN