“Caso mais chocante da minha carreira”, diz promotor sobre chacina

20 de abril de 2026 14

Após o fim do julgamento do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, nesse sábado (19/4), Marcelo Leite, um dos promotores que atuaram no processo, descreveu o julgamento como um dos mais marcantes já realizados no DF, “tanto pela extrema violência quanto pelo número de vítimas”.

Para ele, o caso entra para a história pela brutalidade e pelas consequências trágicas.

Com anos de atuação no Tribunal do Júri, Marcelo Leite não hesitou ao dimensionar a gravidade do processo. “Eu já trabalho há muitos anos no Tribunal do Júri. Realmente foi o crime mais chocante de que já participei”, afirmou. Segundo ele, o julgamento foi atravessado por forte carga emocional.

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“Acima de tudo, foi um julgamento que envolveu muito emocional, não só das famílias, como nosso também”, disse.

O promotor ressaltou o envolvimento direto do Ministério Público ao longo de todo o processo e avaliou o desfecho como uma resposta consistente da Justiça.

“A gente se envolveu muito no caso e estamos satisfeitos com o resultado. As penas foram muito bem colocadas. Então, ficamos com a sensação de dever cumprido”, declarou. Somadas, as penas dos réus envolvidos no extermínio de toda uma família chegam a 1.258 anos de prisão.

Marcelo leite foi o principal promotor do Crime da 113 Sul, que resultou no triplo homicídio do casal José e Maria Villela, pais de Adriana Villela, e da funcionária da família, Francisca Nascimento Silva. O caso foi um dos mais emblemáticos da capital da República e demorou 10 dias para ser julgado pelo Tribunal do Júri. Veja mais sobre o crime aqui.“Caso mais chocante da minha carreira”, diz promotor sobre chacina - destaque galeria

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Delegado Ricardo Viana, responsável pela investigação à época do crime, prestou depoimento nessa terça-feira (14/4)

Cinco réus são acusados de matar 10 pessoas da mesma família

Réus estão sentados lado a lado, mas não podem se comunicar

Réus da considerada a maior chacina do DF

Julgamento dos réus da maior chacina do DF

Maior chacina do DF

Indagado sobre o ponto em que teve uma maior dificuldade para lidar com o julgamento dos réus, Leite informou que entre os momentos mais tensos do júri destaca o depoimento de Gideon Menezes, considerado o mandante do crime.

“Teve o interrogatório do Gideon, que tentou imputar a duas das vítimas mortas a responsabilidade pelo caso. Isso foi muito impactante”, disse. Apesar disso, o promotor afirmou que a acusação conseguiu sustentar sua versão. “Conseguimos mostrar que era mentira e os jurados acolheram nossa tese.”

A decisão envolvendo o réu Carlos Henrique também foi abordada. O homem foi absolvido da acusação de homicídio da vítima Thiago Belchior e condenado pelo sequestro do rapaz. A pena de Carlos foi estipulada em dois anos de prisão.

Questionado sobre a diferença na punição — alvo de críticas de familiares das vítimas —, o promotor explicou os limites da atuação no Tribunal do Júri. “Muitas vezes o jurado não concorda com a definição jurídica do fato. Tivemos votos a favor e contra, e acima de tudo respeitamos a soberania do veredito”, afirmou.

Segundo Marcelo Leite, a atuação de Carlos Henrique foi considerada pontual dentro da dinâmica dos crimes. “Ele entrou no caso de uma forma específica, não participou desde o início. Entendemos que ele tinha responsabilidade por ter sequestrado a vítima e a entregue aos demais envolvidos”, explicou.

Ainda assim, reconheceu: “Os jurados entenderam que essa prova não foi suficiente.”

Ao final, o promotor reforçou que o Ministério Público ainda avalia os próximos passos. “Estamos dentro do prazo e vamos analisar se há viabilidade e chance de êxito em um eventual recurso”, concluiu.

Tribunal do Júri

O Tribunal do Júri da chacina teve início na segunda-feira (13/4) e durou seis dias. O julgamento já é considerado o segundo mais longo da história da capital, atrás apenas do júri do caso que ficou conhecido como o Crime da 113 Sul, que se estendeu por 10 dias.

No total, os jurados ouviram 18 testemunhas ao longo de uma semana, os cinco réus e quase 7h de debate entre defesa e Ministério Público.

Os réus responderam por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.

Entenda o caso

  • Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã (DF), e também para obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar seus familiares.
  • Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil. As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina (DF), onde Marcos foi morto e enterrado.
  • No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
  • Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
  • O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
  • Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
  • Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
  • Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.

Disputa por terreno de R$ 2 milhões

Um terreno no Itapoã (DF), avaliado em R$ 2 milhões, teria motivado os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas. O local tem cachoeira privativa, ampla área de pastagem de gado e cerca de cinco hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.

O plano seria assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar nenhum herdeiro vivo. O terreno, no entanto, sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.

Veja imagens do local antes da invasão

 

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O homem, segundo os verdadeiros proprietários, teria invadido o local e recusado sair

Avaliado em R$ 2 milhões, o terreno no Itapoã que teria motivado a maior chacina do Distrito Federal tem cachoeira privativa, ampla área de capim de gado e cerca de 5 hectares – equivalente a 50 mil metros quadrados

Desde 2020, um processo corre na Justiça para que os donos das terras possam retomá-la por meios legais

Veja imagens do local após a invasão

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Alvo de disputa judicial, o terreno no Itapoã que teria motivado a maior chacina do Distrito Federal não pertencia a Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54, como ele teria dito a conhecidos

O homem, segundo os verdadeiros proprietários, teria invadido o local e recusado sair

Por isso, desde 2020 um processo corre na Justiça para que os donos das terras possam retomá-la por meios legais

O local onde parte das vítimas da chacina vivia está repleto de carros desmontados

Local onde vivia vítimas da maior chacina do DF

Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um. São eles:

  • Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca.
  • Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos.
  • Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal.
  • Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal.
  • Elizamar da Silva – esposa de Thiago.
  • Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar.
  • Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos.
  • Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia.

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No total, 10 pessoas de uma mesma família foram assassinadas em uma das maiores chacinas do Distrito Federal. Elizamar, dona de um salão de beleza na Asa Norte, é uma delas

O corpo de Thiago Gabriel, marido de Elizamar, também foi encontrado após um boletim que indicou seu desaparecimento

Os três filhos de Elizamar e Thiago – os gêmeos Rafael e Rafaela da Silva, 6, e Gabriel da Silva, 7 – estavam com a mãe no dia em que sumiram

Renata Juliene Belchior, de 52 anos, e Gabriela Belchior de Oliveira, de 25 anos, mãe e irmã de Thiago, também foram mortos

Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54, esposo de Renata, desapareceu juntamente com a esposa e a filha Gabriela. O corpo dele foi achado dentro do um cativeiro em que integrantes da família dele foram encontrados

Execução do crime

A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.

A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família. Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.

Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os três filhos pequenos do casal.

Fonte: Jéssica Ribeiro