Categorias femininas se destacam, mas ainda têm remuneração menor que as masculinas no UFC

29 de agosto de 2020 95

Na última quarta-feira foi celebrado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. A data marca a 19ª emenda dos Estados Unidos, que impediu o governo americano de proibir o voto feminino e influenciou a luta pelo sufrágio ao redor do mundo. No UFC, sete anos após a primeira luta entre mulheres, as atletas também conquistaram seu espaço e hoje são destaque de muitos eventos. O problema é que, mesmo com o progressivo crescimento da modalidade, as lutadoras ainda recebem, em média, valores menores que os homens quando evoluem dentro da organização. A explicação pode estar no baixo número de atletas contratadas e lutas realizadas pelo Ultimate.

Comparativo da média salarial entre atletas mulheres e homens no UFC — Foto: Infoesporte

 

Combate.com analisou as remunerações feitas pelo UFC no primeiro semestre de 2020. Foram computados 12 dos 16 eventos que aconteceram de janeiro a junho, um total de 133 duelos e 266 pagamentos, considerando sempre a bolsa base concedida pela organização, sem bônus por vitória e desempenho ou incentivos pagos na semana da luta. As quatro datas desconsideradas foram as edições UFC 247, e os Fight Nights 167, 168 e 170, que não tiveram dados divulgados pelas comissões atléticas. Também não foi considerado o valor de US$ 3 milhões recebido por Conor McGregor em janeiro, por ser uma quantia excepcional.

Para lutas do card principal, a diferença das bolsas masculinas e femininas é de 42%: enquanto os homens recebem em média 97 mil dólares, mulheres têm valor de US$ 68 mil. A discrepância também é alta quando analisadas as lutas principais e co-principais de cada evento: homens receberam em média US$ 176 mil pelos “main” e “co-main”, 77% a mais que as mulheres, que ganharam em média US$ 99 mil. Comparando atletas que hoje ocupam os rankings de divisões, o UFC pagou em média US$ 69 mil para as lutadoras e US$ 135 mil para lutadores – valor 95% maior.

Primeira atleta brasileira a lutar pelo UFC - em julho de 2013 - e ex-campeã do peso-palha, Jéssica Bate-Estaca comenta que o fato de haver menor número de apresentações femininas durante o ano tem impacto negativo na média salarial. Como os contratos assinados envolvem um número determinado de lutas, é preciso pisar no octógono com frequência para poder renegociar os valores e progredir financeiramente.

Jéssica Bate-Estaca diz que a quantidade de lutas é determinante para uma melhor remuneração das lutadoras — Foto: Getty Images

 

- Vale muito pela quantidade de lutas que você tem. Quanto mais lutas você vence e quanto mais lutas você tem, mais o seu salário aumenta. Acaba que nós fazemos poucas lutas durante o ano e aí o valor salarial não sobe, fica na mesmice. E até mesmo quando você tem a derrota o seu salário não aumenta, então ele fica estagnado naquele valor e só sobe a partir do momento em que você começa a vencer as lutas – explica Jéssica.

O empresário Thiago Okamura, que trabalha com MMA feminino desde 2003 e é representante de Bate-Estaca e outras atletas como Marina Rodriguez e Virna Jandiroba, corrobora com o que disse a peso-palha. Ele explica que as diferenças de valor tem relação direta com o curto tempo de existência das divisões femininas e com o número baixo de lutadoras por categoria. Para ele, a comparação entre divisões não é proporcional e o desequilíbrio pode diminuir com o desenvolvimento maior do MMA feminino.

- Os contratos do UFC são baseados em lutas realizadas e tempo de casa. Então nada mais normal que divisões mais antigas terem a média de bolsas mais altas que divisões mais novas. Também não podemos esquecer que, além da idade, as divisões são muito diferentes em relação a quantidade de atletas. Enquanto temos categorias com menos de 30 atletas, temos outras com mais de 100, 120 –diz Okamura.

Ronda Rousey e Liz Carmouche fizeram, no UFC 157, a primeira luta feminina do UFC — Foto: Getty Images

 

A primeira luta entre mulheres da história do UFC foi pelo peso-galo (até 61,2kg) em 23 de fevereiro de 2013, quando Ronda Rousey finalizou Liz Camouche com uma chave de braço e defendeu o título. Pouco antes, no fim de 2012, Ronda, então campeã do Strikeforce, havia sido a primeira atleta contratada pelo Ultimate e recebeu o cinturão de Dana White. Mais três categorias foram criadas até hoje: peso-palha (52,2kg) em 2014, e peso-pena (65,7kg) e peso-mosca (56,7kg) em 2017.

A divisão mais pesada, entretanto, tem tão poucas atletas contratadas que não possui ranking estabelecido. No primeiro semestre, só três duelos de peso-pena foram realizados entre as mulheres, contra 14 no peso-mosca, dez no peso-palha e sete no peso-galo. Atletas de maior peso são incomuns no MMA feminino, enquanto em outros esportes de combate - como judô, jiu-jítsu e wrestling - há categorias mais pesadas. No MMA masculino, os pesados também costumam atrair mais atenção do público nos eventos. A comentarista Ana Hissa, do Combate, comenta a questão.

- Difícil chegar a uma conclusão muito precisa, mas acho que é um fato muito cultural. O próprio MMA feminino é recente quando se fala de ocidente. Historicamente, na época da ditadura, mulher não podia por lei praticar luta. Era um esporte proibido para nós aqui no Brasil. Nas Olimpíadas, a introdução do judô foi tarde, depois a luta olímpica e só em 2012 o boxe feminino, com categorias também de mulheres menos pesadas. Talvez o não estímulo de competições, de ter lugar para se apresentar, leva com que as meninas pratiquem, mas vão lutar onde?

Na outra ponta da balança há também uma categoria mais baixa que as oferecidas pelo UFC: o peso-átomo, até 48kg, disputado em torneios como o One Championship e o Invicta FC, este último exclusivamente feminino, realizado nos Estados Unidos. Próxima brasileira a disputar um cinturão do Ultimate, a peso-mosca Jennifer Maia teve o título do Invicta antes de ser contratada por Dana White.

Jennifer Maia acredita que a abertura de categorias mais leves aumentaria daria chance a mais mulheres no MMA — Foto: Jason Silva

- Se abrissem o peso-átomo (48kg) teria mais espaço para outras atletas. Na minha equipe mesmo tem uma atleta que é de 48kg e o peso-palha (52kg) não compensa pra ela. E no peso-pena (66kg) também há muitas atletas querendo mais oportunidades. Talvez não tenha tanto acima, mais fortes, mais altas e mais pesadas, mas acho que até 48kg haveria mais atletas se abrissem – diz Jennifer, que também comenta a quantidade de duelos femininos - Acho que está crescendo, melhorando. O próximo evento já vai ter três lutas. Eles estão movimentando mais e a gente está conquistando o nosso espaço.

A opinião de que há lugar para a criação de mais categorias femininas e a contratação de novas atletas também é compartilhada por Jéssica, que torce para que o UFC aumente o número de lutadoras, dada a quantidade de mulheres que praticam o MMA pelo mundo e “até mesmo para melhorar a quantidade de lutas e o salário”. As brasileiras ainda destacam o mesmo fator de atração sobre as lutas femininas: um confronto mais direto e franco do que o visto entre homens.

- Hoje em dia muitas pessoas chegam em mim e falam: “Jéssica, quando você vai lutar e quando tem luta feminina sempre é a luta mais esperada da noite. A gente sempre quer ver as mulheres lutando porque não tem esse negócio de ficar estudando, dar um soquinho e sair correndo”. A mulherada troca porrada franca, sai sangue, passa a mão na testa e joga na cara da outra – diz Jessica. A fala de Jennifer é parecida - As mulheres já fazem parte disso. Quando não tem uma luta feminina já parece que não dá aquele “up” no evento. As lutas femininas sempre foram um show, a galera que curte assistir fala que a mulherada se arrisca mais, cai pra dentro, não estudam tanto o jogo quanto os homens, eles parecem ter mais medo de tomar um nocaute.

 

A análise dos dados indica que a diferença de rendimentos surge justamente no decorrer do crescimento das mulheres dentro da competição. Via de regra, todos os atletas dão seus primeiros passos no Ultimate ganhando o valor mínimo entre US$ 10 mil e US$ 12 mil. Para lutas do card preliminar durante o período analisado pela reportagem, por exemplo, as mulheres chegam a levar ligeira vantagem sobre os homens na média geral: são US$ 37 mil contra US$ 33 mil de bolsa. No entanto, quando as atletas evoluem no UFC, ocupando espaço nos rankings e fazendo lutas do card principal, a remuneração tende a ser menor que aos homens de destaque semelhante.

Amanda Nunes é a lutadora mais bem paga do UFC na atualidade. Sua bolsa, no entanto, é menor que a de vários lutadores — Foto: Jason Silva

O maior valor pago para para uma mulher no período analisado foi para a brasileira Amanda Nunes, dona de dois cinturões do Ultimate – peso-pena e peso-galo - e com oito disputas de título vencidas desde 2016. Ela recebeu US$ 350 mil de bolsa base pela luta principal do UFC 250, mas pode ser considerada uma exceção, já que nenhuma outra atleta teve quantia maior que a média geral de US$ 156 mil pagos pelos embates principais e co-principais.

Amanda Nunes ocupa o sétimo lugar entre os que mais venceram disputas de cinturão no UFC, independentemente da modalidade, atrás apenas de grandes referências do esporte, como Jon Jones (14) e Anderson Silva (11). Ainda assim, no primeiro semestre de 2020, ela recebeu menos que lutadores como Junior Cigano (US$ 500 mil) ou Alistair Overeem (US$ 400 mil), que têm maior tempo de casa e lutam entre os peso-pesados.

 

Depois de Amanda Nunes, a bolsa feminina mais alta no primeiro semestre foi a da ex-campeã peso-galo Holly Holm, que ganhou US$ 150 mil em janeiro. Weili Zhang, atual campeã do peso-palha, levou US$ 100 mil por sua defesa de cinturão em maio. A outra campeã feminina é Valentina Shevchenko, peso-mosca que lutou em fevereiro em um dos quatro eventos que não tiveram valores divulgados oficialmente, mas estima-se que ela tenha recebido em torno de US$ 125 mil de bolsa base.

De janeiro a junho, quatro disputas de cinturão masculinas foram realizadas. O campeão peso-médio Israel Adesanya recebeu US$ 500 mil em março. Em maio, Henry Cejudo, então dono do cinturão peso-galo, ganhou US$ 350 mil. Já para a luta do ex-campeão meio-pesado Jon Jones, em fevereiro, não há dado oficial, mas estima-se uma quantia em torno de US$ 500 mil. O único “title shot” com valores semelhantes aos femininos foi entre Deiveson Figueiredo (US$ 100 mil) e Joseph Benavidez (US$ 150 mil), em fevereiro. O valor pago pelas principais atletas mulheres também é menor que o de lutadores como Yoel Romero (US$ 350 mil), Justin Gaethje (US$ 350 mil), Andrei Arlovski (US$ 325 mil), Anthony Pettis (US$ 310 mil) e Dominick Cruz (US$ 300 mil), entre outros.

Com relação a patrocínios, a maior parte chega aos lutadores apenas como forma de permuta, e não em dinheiro. Marcas que antes buscavam exposição nos eventos – no uniforme dos atletas, por exemplo – também diminuíram. Jéssica e Jennifer novamente concordam em dizer que a maior parte das empresas que buscam as mulheres levam em conta fatores como aparência e beleza.

- Talvez seja um ponto em que as mulheres tenham um pouquinho de vantagem por usar muitas vezes a aparência para divulgar. Dependendo do tipo de patrocínio eles acabam se interessando um pouco mais pelas mulheres, na minha experiência. Mas também não é nada fora do normal – explica Jennifer, no que Jéssica corrobora – Marcas de estética querem patrocinar a gente pela aparência física, então eles sempre procuram essas meninas que são mais bonitinhas, eu não tenho muito essas oportunidades.

 

Okamura entende que, nos grandes eventos, o nível de desenvolvimento das modalidades femininas no MMA está "muito perto" do masculino. Ele cita uma presença forte e com bons números das lutadores em mídias sociais e avalia um fator que favorece a popularização das divisões femininas entre os fãs.

- Uma grande vantagem que temos no MMA comparado com outros esportes é que nós estamos todos dentro da mesma plataforma, não é preciso parar e ir assistir a um evento diferente para ver as mulheres lutando. Quem assiste ao UFC hoje é exposto ao feminino de qualquer forma. Sempre vai ter gente que não vai gostar, mas pelo menos a exposição está sendo feita e quem realmente gosta do esporte vai conseguir apreciar o trabalho delas da mesma forma que aprecia o deles. (…) Vale lembrar que o Invicta FC, que hoje é o único evento de médio porte trabalhando exclusivamente com MMA feminino, consegue ótimos números em questão de exposição e audiência comparado a diversos outros eventos americanos de mesmo nível – comenta o empresário.

A reportagem tentou contato com o UFC, mas não teve retorno até a publicação desta matéria.

Os valores utilizados foram divulgados pelas comissões atléticas dos EUA e publicados inicialmente pelos sites MMAFighting, MMAJunkie e The Sports Daily.

* Estagiário, sob supervisão de Marcelo Russio