‘Chega de negacionismo’, pede médico vacinado no Rio: capital teve feriado de praias lotadas, com zero distanciamento
O Rio de Janeiro assistiu nesta quarta-feira, feriado de São Sebastião, a novas cenas de desrespeito às regras de enfrentamento à Covid-19, com praias lotadas e nenhum distanciamento social. A vacinação já começou, mas nem por isso as medidas de prevenção podem ser relaxadas, é o que afirmam todos os especialistas da área de saúde.
Até as 20h desta quarta, a capital fluminense já havia vacinado mais de 31 mil pessoas contra o coronavírus, mais do que todo o estado de São Paulo (quase 21 mil até ontem), que recebeu o maior carregamento da CoronaVac no país. Só entre os profissionais da saúde, já são 23.962 que receberam a vacina.
O neurocirurgião Ivan Santana, de 73 anos, um dos médicos mais conhecidos do Hospital Municipal Miguel Couto, na Zona Sul do Rio, foi o primeiro a ser vacinado contra a Covid-19 na unidade na manhã desta quarta-feira, dia 20 de janeiro. Emocionado, ele fez um apelo para que a população não tenha desconfiança com a vacina:
— (A vacinação) É o início da vitória contra essa infelicidade que acometeu a humanidade.
No mesmo tom do neurocirurgião, a técnica de enfermagem Marluse Gomes da Silva, de 54 anos, também se emocionou. Nesta quarta, ela foi a primeira vacinada contra a Covid-19 em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.
— É o momento mais especial da minha vida — afirmou ela, que recebeu a primeira dose no Hospital Municipal Luiz Palmier, no Zé Garoto.
Tanto Ivan quanto Marluse foram enfáticos ao afirmar que não é preciso ter medo da vacina, que ela é importante para “conseguir salvar muitas vidas”, como afirmou a técnica.
— Chega de negacionismo, chega de toda sorte de preconceito, seja qual for. O que importa é isso, é vacinar. Espero que todo mundo se vacine — disse Ivan, que, por causa da idade, está afastado do atendimento.
Feriado de praia lotada
Nesta quarta-feira, a sensação térmica passou dos 43 graus na capital fluminense. Para se refrescar, muitos se espremeram nas areias da Zona Sul e da Barra, sem máscara nem distanciamento, e mergulharam no mar mesmo com ele mexido. Parecia um feriado de verão como outro qualquer. Mas nesse mesmo dia, em apenas 24 horas, o Estado do Rio registrou mais de quatro mil casos de Covid-19 e 180 mortes, totalizando 490.821 diagnósticos positivos e 28.215 óbitos desde março.
Com os números de ontem, o estado tem uma média de 139 mortes por dia provocadas pelo novo coronavírus, um aumento de 28% em relação à média de duas semanas atrás.
No país, os números são ainda mais assustadores. Em 24 horas, o Brasil registrou 1.382 óbitos pela Covid-19, recorde desde agosto, e chegou na noite desta quarta-feira, 20, a 212.893 vidas perdidas para a doença. De casos, foram 64.126 novos diagnósticos, elevando para 8.639.868 o total de infectados pelo vírus. Os dados são do consórcio formado por EXTRA, O Globo, G1, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Uol.
Os números, no entanto, parecem não incomodar as milhares de pessoas que lotaram as praias cariocas ontem.
Para o infectologista Edmilson Migowski, é possível que haja pessoas com sintomas leves no meio da multidão, o que é um perigo, mesmo ao ar livre. Mais uma vez, ele ressalta a importância do isolamento.
— Me preocupa mais o contexto de antes e depois da praia. O problema é não só a questão da praia cheia, mas como essas pessoas foram para lá, se pegaram transporte lotado, se usaram máscara. E tem o depois, que inclui a cervejinha, a parada no bar com todos sem máscara, e mais uma vez o coletivo lotado — afirma Migowski.
Com os números da epidemia em alta na cidade, Eduardo Paes afirmou que a prefeitura pretende intensificar a fiscalização, mas cobrou consciência da população para respeitar o distanciamento social. Ele afirmou que ainda não há expectativa de endurecimento das regras de isolamento, mas não descartou medidas mais rígidas:
— Essa decisão é dos técnicos da Secretaria municipal de Saúde, dos epidemiologistas. Isso não tem achismo, tem ciência. O lockdown acontecerá se os técnicos assim decidirem. Eu não descarto nada nunca. Mas não há nem cheiro de lockdown neste momento.
POR - André Coelho, Evelin Azevedo, Geraldo Ribeiro, Gilberto Porcidonio, Lucas Altino e Ludmilla de Lima