Coisas boas não aparecem com essa fumaceira toda', afirma ministro Santos Cruz sobre início do governo Bolsonaro

28 de maio de 2019 234

BRASÍLIA - Ele está no centro do que muitos consideram uma guerra interna dentro do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), mas sua calma, que parece inabalável, não transmite isso. Na sala que ocupa no quarto andar do Palácio do Planato, apenas a um andar de distância do chefe de Estado com quem diz conversar com frequência, não existe simbologia militar. Nas paredes, uma foto do presidente e um quadro colorido decoram o ambiente no qual trabalha o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz , general da reserva que entre 2006 e 2009 chefiou a missão de paz no Haiti e entre 2013 e 2015 esteve à frente da missão de paz no Congo, coordenando 23,7 mil militares de 20 países.

 

Tudo isso, disse em entrevista exclusiva ao GLOBO , preparou seu "psiquismo" para o momento atual. Nas últimas semanas foi alvo de ataques nas redes sociais por parte de Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, e do vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente. Perguntado sobre as agressões, fez uma analise quase acadêmica sobre a explosão das redes e concluiu que "tem pessoas que acham que aquilo ali é uma liberdade de ataque pessoal de toda forma. De fazer um tipo de guerrilha, um comportamento criminoso". 

Em meio a debates sobre a tensão entre militares e civis no governo, o ministro negou a existência de uma "ala militar". "Jamais houve qualquer conversa entre dois militares com espírito de grupo militar dentro do governo", assegurou o general, que confia na aprovação da reforma da Previdência, considerada fundamental por ele em função da necessidade de equilíbrio fiscal e como "símbolo de uma virada".

Já são quase cinco meses de governo, o senhor faz um balanço positivo dessa etapa?

CARLOS ALBERTO DOS SANTOS CRUZ: Tem muita coisa boa acontecendo e muitas vezes elas não aparecem por essa fumaceira toda, por pequenas coisas, discussões, até brigas pessoais que têm um grande reflexo. Essas discordâncias que existem num ambiente de democracia e liberdade de expressão. Sem dúvida o balanço é positivo. Um novo governo chegou, com agenda e expectativa boa. O Bolsonaro teve o grande mérito de mobilizar a população brasileira. O Brasil estava traumatizado com tanta corrupção. O volume de dinheiro disso tudo, valores que assombravam. Em todos os estados, no Rio de Janeiro, que sempre tem essa expressão forte de referência. Bolsonaro chegou com uma proposta de acabar com isso, de aproveitar melhor os recursos públicos, de segurança pública. A segurança pública melhorou muito, o índice nacional de assassinatos caiu mais de 20%.

Por que, então, as pesquisas mostram uma queda notável de apoio ao governo?

SANTOS CRUZ: Você ter uma pequena queda depois de um tempo é normal. A vida real obriga o governo a fazer opções e nem sempre essas opções são tão alegres.

Os cortes na educação, por exemplo?

SANTOS CRUZ: O corte na educação não foi tão significativo. Talvez a interpretação da coisa tenha sido muito mais significativa.

Foi um corte grande.

SANTOS CRUZ: Não... você tem uma parte de despesas obrigatórias e outras são as chamadas discricionárias. Foi só nessa parte discricionária. As manifestações partiram de uma interpretação, às vezes o próprio anúncio... não podemos responsabilizar o pessoal.