COM BOLSONARO EM QUEDA LIVRE, VOTO ÚTIL NO 1º TURNO SE TORNA INÚTIL

14 de junho de 2022 60

Como nos faroestes estadunidenses de antanho, o maior vilão morre no fim.

Jair Bolsonaro, que, face à sua total incapacidade para governar, esquivou-se deste dever e está em campanha para a reeleição desde que recebeu a faixa presidencial, vem em queda livre nas pesquisas eleitorais e roda a baiana dia sim, outro também, por saber que depois da derrota poderá ter de responder pelo seu rosário de crimes como deputado e como presidente. 

Então, tenta recuperar prestígio popular com esmolas tardias que não cabem no orçamento federal, flerta com o congelamento de preços que gerou a hiperinflação do Sarney, implora aos empresários de supermercados que deixem de ser capitalistas até outubro e abstenham-se de novos aumentos, surpreende Joe Biden com um estapafúrdio pedido de ajuda para deter Lula.

Só conseguiu desmoralizar ainda mais o Brasil no exterior, supondo-se que isto ainda seja possível. Seu apelo desesperado àquele contra quem fez campanha estridente e descabida em 2020 não levou em conta que, com todos os defeitos, Biden não é como Lyndon Johnson, um caipirão que comia na mão da CIA e em 1964 engoliu a lorota de que o Brasil estava a um passo do comunismo. 

Afora o ridículo de não ter obtido resposta de Biden, que preferiu trocar de assunto, Bolsonaro acrescentou à sua extensa lista mais um crime de responsabilidade passível de impeachment ("proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo") e mais um motivo para os altos comandantes militares o repudiarem. Pois, na mentalidade da caserna, o que ele fez configura traição à pátria.

É quase certo que não chegará ao 2º turno, seja em razão de uma vitória antecipada do Lula, seja porque a rapidez do derretimento da candidatura dele, Bolsonaro, poderá abrir brecha para qualquer azarão

Vale lembrar que em 2017, não suportando mais a intensa polarização, o eleitorado francês fez de Emmanuel Macron o novo presidente, embora ele houvesse lançado sua candidatura quatro meses antes do pleito e sem o respaldo de um grande partido, tendo concorrido pelo movimento centrista Em marcha!. Mesmo assim, ganhou da ultradireitista Le Pen no 1º turno (23% a 22%) e arrasou-a no 2º (66% a 34%).

E O OUTRO GIGOLÔ DA POLARIZAÇÃO, COMO É QUE FICA? –  Vai ser uma justiça poética se Lula não eleger-se à custa da polarização, depois de ele e o PT terem veladamente boicotado a luta pelo impeachment do genocida e explicitamente esvaziado as manifestações #ForaBolsonaro

Se ainda assim acabarem derrotados, quem acompanha criticamente os acontecimentos políticos lhes atirará na cara que foi não só imoral como também inútil acumpliciarem com a morte de centenas de milhares de brasileiros que sobreviveriam à covid se o ocupante do Palácio do Planalto não fosse um alucinado ultradireitista, inepto para o cargo e com evidentes problemas mentais.

O esboço de plataforma eleitoral do Lula, recentemente divulgado, mostra bem o porquê de tanto empenho em bater em bêbado, capitalizando a rejeição-monstro do Bolsonaro. É uma montoeira de bandeiras do passado que há muito caducaram, um mais do mesmo que não leva em conta o acentuada aceleração da crise do capitalismo nem oferece nenhuma fórmula viável para o Brasil sair do buraco econômico que tirou a escada do Bolsonaro e o deixou pendurado na brocha.

Uma vitória do Lula, também serviçal do capitalismo, apenas significará a substituição do capataz boçal e truculento que agarra a comida com as mãos por um populista messiânico que não surta à toa, negocia as maneiras mais elegantes de maquilar a exploração do homem pelo homem e usa os talheres certos.

E, embora resolva o problema imediato de despachar certamente para o limbo (eventualmente para o hospício ou para a prisão) quem há três anos e meio desgraça o Brasil, uma eleição do Lula embute uma enorme possibilidade de continuidade e até agravamento da penúria atual, ensejando uma volta da extrema-direita ao poder dentro de alguns anos, em nova reprise desse filme que já não aguentamos mais assistir.

Daí eu considerar que a prioridade máxima da esquerda neste instante é reconstruir-se após a hibernação reformista, voltando a ser alternativa ao capitalismo e não sua força auxiliar.

Como primeiro passo, cabe-nos denunciar incisivamente o arrastão do voto útil por meio do qual o PT tenta evitar o 2º turno, surfando no alarmismo desinformado ao fingir ainda acreditar numa possibilidade de golpe bolsonarista, hipótese sem a mínima consistência hoje em dia.

Tal golpe, se Bolsonaro tivesse força política e coragem pessoal para encabeçá-lo (seu vexatório recuo na micareta golpista do 7 de setembro está bem vivo no memória de todos nós), teria de ser dado antes do 1º turno, pois seria tolice desfechá-lo depois de consumada a derrota. Trump já inviabilizou esse formato. Então, por que abrirmos mão de nossas convicções em nome de uma emergência que verdadeiramente inexiste?

E, com o espectro golpista ora reduzido a fogo fátuo, quem luta pela superação do capitalismo tem um objetivo estratégico bem diferente do daqueles que atuam para eternizar, supostamente atenuada, a dominação capitalista. Ora, as alianças entre verdadeiros esquerdistas devem sempre basear-se em valores permanentes, não em vantagens e conveniências transitórias.

Mesmo quando se faz realmente imperativo somarmos forças com agrupamentos dos quais divergimos fortemente, isto só cabe no 2º turno. O 1º é o momento do voto consciente, devendo servir para marcarmos posição e divulgarmos nossas bandeiras.

Para encerrar, lembro a avaliação insuspeita do Zé Dirceu, que esgotou esta questão com uma única frase em 1998, rechaçando as pressões para que o PT recomendasse o voto útil já no 1º turno da eleição para governador de São Paulo:

"Nada mais sem sentido do que a tese de que os partidos de esquerda devem apoiar [Mário] Covas para derrotar [Paulo] Maluf".

Falou e disse. (por Celso Lungaretti)  

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Fonte: CELSO LUNGARETTI
A VISÃO DEMOCRÁTICA (POR CELSO LUNGARETTI )