Com mineração de criptomoedas, escritório de golpes e ladrões de celular com 'meta', tráfico criou central de crimes no Complexo da Maré

11 de junho de 2026 26

GOYO GLOBO

Uma investigação mostra que o Terceiro Comando Puro (TCP) transformou dez favelas do Complexo da Maré em uma central de crimes. Cercada por algumas das mais importantes vias expressas da cidade, a comunidade é usada para esconder bandidos em troca do pagamento de “aluguel”, receber carros, cargas e celulares roubados e abrigar escritórios de mineração de criptomoedas e de aplicação de golpes, além de vender (e cultivar) drogas. A diversificação, de acordo com a polícia, busca ampliar os lucros da quadrilha. Ontem, policiais civis e militares vasculharam a região para cumprir 56 mandados de prisão. Na Operação Trinus, foram capturados 25 suspeitos e apreendidos cinco fuzis e duas pistolas. Os agentes também recuperaram 27 carros e 22 motocicletas.

Houve intensa troca de tiros na chegada dos policiais às favelas. O funcionamento de mais de 40 escolas e três postos de saúde foi afetado. Passageiros que estavam na Estação Fiocruz, do BRT, na Avenida Brasil, tiveram que se jogar no chão para se proteger dos tiros. Não há informação sobre inocentes ou suspeitos feridos. Os principais alvos da operação — Michel de Sousa Oliveira, o Mangolé; Alexandre Ramos Nascimento, o Pescador; e Leandro de Sousa Nunes, apontados como chefes da facção na Maré — não foram localizados.

"Mineradora" de criptomoedas do TCP encontrada pela Polícia Civil na Maré — Foto: Polícia Civil

"Mineradora" de criptomoedas do TCP encontrada pela Polícia Civil na Maré — Foto: Polícia Civil

A ação é resultado de seis meses de investigação da 21ª DP (Bonsucesso) e foi organizada em seis frentes, para atingir a estrutura montada pelo TCP para obter receita. A principal delas focou nos roubos de carga. Segundo a polícia, existe uma espécie de consórcio entre os bandidos da Maré e do Complexo da Pedreira, na Pavuna, que atuam nos ataques a caminhões na Avenida Brasil e nas linhas Vermelha e Amarela e dividem os lucros. Parte dos produtos roubados, afirmam os policiais, é negociada no Baile da Disney, conhecido evento na Vila do João.

— Essa é uma característica (de atuar em parceria) muito comum. Eles podem ir para outro terreno de atuação porque ali também existe uma quadrilha da mesma facção — explicou o delegado Tiago Dorigo, da 21ª DP.

O mapa financeiro do TCP — Foto: Editoria de Arte

O mapa financeiro do TCP — Foto: Editoria de Arte

Outra parte do material roubado é vendida em estabelecimentos na própria Maré. Segundo Dorigo, a área dominada pelo TCP no complexo passou a funcionar como um “verdadeiro shopping center de veículos e cargas roubadas”.

— Muitos desses comércios pertencem a familiares dos chefes da facção. Uma parte das cargas roubadas é escoada imediatamente para abastecer essas lojas — afirmou o delegado.

De acordo com a investigação, o Baile da Disney ocupa posição estratégica na engrenagem econômica do TCP. Realizado no campo da Vila do João, aos sábados, o evento se tornou conhecido por ter decoração temática inspirada em personagens infantis, pirotecnia, atrações circenses e apresentações musicais. Investigadores tiveram acesso a imagens em que mais de 40 bandidos armados de fuzis aparecem circulando no meio do público.

— Esse ambiente é utilizado para venda de material roubado, onde a facção criminosa ostenta forte poderio bélico e vários cantores fazem apologia ao crime, o que fortalece cada vez mais essas facções — disse Dorigo.

A mineração de criptomoedas pelo crime — Foto: Editoria de Arte

A mineração de criptomoedas pelo crime — Foto: Editoria de Arte

Durante a operação, policiais encontraram ainda um escritório de mineração de criptomoedas — instalação onde ficam computadores potentes que validam transações — na Vila do João, uma estratégia mais recente de obtenção de lucro. No fim de maio, outra fazenda de mineração foi localizada no Complexo do Lins, na Zona Norte, controlado pelo Comando Vermelho. Os equipamentos nesses espaços têm um consumo excessivo de energia.

— Essas quadrilhas estão sempre buscando novas formas de auferir lucros. Tudo que é novidade e que der dinheiro, não importa se na ilegalidade, eles vão praticar ou abrir espaço para que pessoas especializadas usufruam da proteção deles para praticar o crime — explicou Dorigo.

A polícia suspeita que o escritório pagava “aluguel” à facção para operar na favela. Também será investigado se o tráfico estava lavando dinheiro em aplicações de bitcoins.

— Se tornou seguro se instalar dentro dessas comunidades e abrir um escritório do crime. Os mais variados tipos de golpistas e estelionatários saíram do centro da cidade e abriram escritórios em comunidades, porque sabem da dificuldade que a polícia tem para realizar operações — afirmou o delegado.

A polícia suspeita que o escritório pagava “aluguel” à facção para operar na favela. Também será investigado se o tráfico estava lavando dinheiro em aplicações de bitcoins.

— Se tornou seguro se instalar dentro dessas comunidades e abrir um escritório do crime. Os mais variados tipos de golpistas e estelionatários saíram do centro da cidade e abriram escritórios em comunidades, porque sabem da dificuldade que a polícia tem para realizar operações — afirmou o delegado.

 

Fonte: Por Ana Carolina Torres e Anna Bustamante