Como seria um golpe sem Bolsonaro? Por Moisés Mendes

10 de junho de 2020 87

Publicado originalmente no blog do autor

Há um consenso entre os democratas. Bolsonaro conseguiu envolver os militares numa empreitada em que tudo, e não só a perspectiva ameaçadora de um golpe, conspira contra a imagem das Forças Armadas.

Como parecem estar à vontade, uma pergunta deve ser feita: quem, entre os generais aliados de Bolsonaro, estaria de fato preocupado em evitar falas, atos e gestos bruscos que comprometam a reputação de Exército, Marinha e Aeronáutica?

É possível que um general como Eduardo Pazuelllo, que assumiu a tarefa de fazer o serviço sujo das ‘novas’ estatísticas da pandemia, condenadas por todos os especialistas da área, contribua para a imagem do Exército como ministro interino meio permanente de Bolsonaro?

O que um general, que nada sabe de saúde pública, que nunca se envolveu com uma tarefa tão grandiosa como essa, faz num governo que se alia à peste ao invés de tentar juntar forças para combatê-la?

Está consagrado historicamente que ninguém sabe ao certo para que lado pendem os militares em circunstâncias nebulosas como a atual.

Tudo o que dizem sobre o desconforto entre militares da ativa é puro chute. Há desconforto? Quem mediu? Como se manifesta?

E tudo o que também asseguram sobre o apoio incondicional dos generais a Bolsonaro parece ser mero palpite. O que transpira é que as Forças Armadas podem estar mais perdendo do que ganhando ao avalizarem o desgoverno de Bolsonaro. Será mesmo?

Uma hipótese a considerar, levantada por videntes variados, é a de que os militares esperam a hora certa para dar o bote. E o bote pode ser uma tentativa de endurecimento ao lado de Bolsonaro, para que se reafirme a vocação golpista das Forças Armadas. Mas pode também ser algo sem Bolsonaro.

Um golpe com Bolsonaro teria a liderança de Bolsonaro? Seria possível estar sob o comando despótico de um tenente sem condições de liderar uma reunião ministerial?

E como seria um golpe sem Bolsonaro, sem a estrutura do Gabinete do Ódio dos filhos de Bolsonaro, sem a fidelidade da base das polícias militares (que seriam hoje mais bolsonaristas do que castrenses) e sem os milicianos?

Por isso cresce a suspeita do blefe do golpe, enquanto a imagem das Forças Armadas vai sendo submetida a julgamentos, que talvez nem preocupem generais tão hipnotizados pelo poder.

Hoje, é mais provável que um cabo num jipe esteja mais angustiado com a imagem da farda que veste do que um general num carro preto sentado ao lado e Bolsonaro? É de se perguntar e aguardar respostas possíveis com o que virá mais adiante.

O RECADO DE TOFFOLI

O presidente do Supremo, Dias Toffoli, vem dando recados de que não é para ninguém temer as ameaças de golpe. Já mandou um recado a Bolsonaro, para que se aquiete.

O que sempre se diz é quem Toffoli sempre foi o ministro do Supremo com a mais ostensiva tutela militar, sempre com um general por perto.

Pois se é assim, se o presidente do STF tem como se informar sem muitos erros sobre os humores dos generais, é bom ler o que o disse ontem sobre a controvérsia do cada vez mais famoso artigo 142 da Constituição:

“Não há lugar para um quarto poder para o (ou segundo o) artigo 142 da Constituição. As Forças Armadas sabem muito bem que o artigo 142 da Constituição não lhes dá o papel de poder moderador (….). Não podemos confundir os papéis daqueles que estão na ativa e sabem muito bem os limites da atuação das Forças Armadas e daqueles que estão, evidentemente, em um governo, e aí envolve, evidentemente, a defesa das políticas públicas que o governo democraticamente eleito busca implementar. É a Constituição Federal que governa a todos nós”.

É mais do que retórica, é uma informação. É possível ler a seguinte mensagem: não tenham medo da ameaça de golpe, porque o golpe é um blefe, para que a extrema direita mantenha sua turma acordada.