Concessionária da BR-364 transforma cobrança em deboche; a ingenuidade incomum de Sérgio Gonçalves; e a eleição não tem favorito
DEBOCHE
A concessionária da BR-364, responsável por impor ao rondoniense um dos pedágios mais caros do país por quilômetro rodado, acaba de anunciar sua mais nova “grande obra”: a instalação de totens de atendimento em redes de supermercados para facilitar a arrecadação. Na propaganda institucional, a medida é vendida como comodidade ao usuário. Na prática, porém, soa como deboche para uma população que já sofre com tarifas consideradas extorsivas e que até agora não viu as prometidas melhorias estruturais saírem do papel.
REFÉM
Não existe parâmetro razoável para comparar o preço do pedágio cobrado em Rondônia. A BR-364 não é uma rodovia opcional, turística ou secundária. Trata-se da única ligação terrestre entre praticamente todos os municípios do estado. Tudo passa por ela: famílias, ambulâncias, trabalhadores, produção agrícola, mercadorias e combustível. O cidadão rondoniense virou refém de uma estrada federal entregue à exploração privada sem que lhe fosse garantida uma contrapartida minimamente proporcional.
PRESSÃO
O impacto econômico já começa a ser sentido. O aumento do custo do frete inevitavelmente chega às prateleiras, pressiona a inflação local e pode até resultar em cortes de empregos em setores que dependem diretamente do transporte rodoviário. No fim da cadeia, quem paga a conta é sempre o consumidor.
ARRECADAÇÃO
O mais revoltante é que sequer existe a justificativa da geração de empregos robustos para amenizar a sangria financeira. As praças operam de forma praticamente digital, sem cabines fixas e com reduzida necessidade de mão de obra. Ou seja: o dinheiro sai de Rondônia, mas o retorno efetivo para a economia local é mínimo.
BOLETOS
Enquanto isso, as obras prometidas seguem em ritmo invisível. A tão falada duplicação alcança menos de 200 quilômetros em uma rodovia que ultrapassa mil quilômetros de extensão dentro do estado. Venderam desenvolvimento, segurança e modernização, mas até agora a população recebeu apenas boletos digitais e tarifas abusivas.
DESGASTE
Os políticos rondonienses também têm sua parcela de responsabilidade. Muitos “levaram bola nas costas” durante a discussão do contrato e permitiram a instalação dessa verdadeira drenagem financeira. Agora, com o desgaste popular crescendo, tentam posar de indignados e prometem pressionar a ANTT pela redução das tarifas.
MODELO
O detalhe que evitam contar à população é que existe um contrato firmado, recheado de cláusulas que dificultam - e muito - qualquer redução significativa dos valores cobrados.
No fim, Rondônia corre o risco de viver a pior combinação possível: um pedágio caro, obras lentas e uma economia sufocada para sustentar um modelo de concessão que, até aqui, beneficia muito mais a arrecadação da empresa do que o direito de ir e vir da população.
LITIGANDO
Entre a política e o foro, o vice-governador de Rondônia, Sérgio Gonçalves, parece ter escolhido o segundo como extensão do primeiro. Depois de abortar a pré-candidatura ao Palácio Rio Madeira - movimento inevitável quando Marcos Rocha decidiu permanecer no cargo -, reapareceu não em palanque, mas no Judiciário.
DERROTA
O alvo foi a exoneração de assessores promovida pelo governador. Sérgio buscou reverter a dispensa de colaboradores nomeados em cargos comissionados e recolocá-los na folha estadual. Perdeu em todas as instâncias. A derrota judicial apenas confirmou o que o episódio já sugeria politicamente: não se tratava de uma discussão sobre legalidade administrativa essencial, mas de um braço de ferro interno. O vice-governador sempre tem usado a velha e surrada tática: cutuca e se esconde. Assim coleciona derrotas.
RISCO
A relação entre governador e vice já vinha azedada desde o ano passado. Na ocasião, durante a permanência de Marcos Rocha fora do país, em viagem a Israel, em meio ao cenário de guerra, Sérgio teria articulado com um deputado estadual a tentativa de declarar vago o cargo de governador, sob o argumento de ausência de autorização legislativa e demora no retorno ao estado. Desde então, a convivência institucional virou uma baita indiferença. Sobra ao vice o consolo de uma candidatura a deputado estadual e ainda assim correndo o risco de mais uma derrota.
ESPAÇOS
A nova ofensiva judicial reforça esse ambiente. Afinal, se as exonerações não comprometeram o funcionamento da máquina pública, a discussão perde densidade administrativa e ganha contorno estritamente político. Em português menos cerimonioso: a disputa não era pela engrenagem do Estado, mas pelos espaços em torno dela.
SINECURA
E aí mora o dado mais eloquente. Quando a retirada de comissionados não produz qualquer abalo na administração, a conclusão incômoda aparece quase sozinha: muitos desses cargos parecem servir mais à acomodação de interesses do que à necessidade objetiva do serviço público.
VAIDADES
Entreatos, o contribuinte assiste ao velho espetáculo da República tropical: cargos tratados como patrimônio de grupo, exonerações convertidas em batalhas de vaidade e a Justiça convocada para arbitrar aquilo que, no fundo, nasceu da política menor. Não dá razão de Estado - mas da conhecida sinecura dos apaniguados. Sérgio Gonçalves entrará para a história com um vice visceral e um aprendiz de político de uma ingenuidade incomum.
LOROTA
É prematuro cravar qualquer cenário eleitoral para o Governo de Rondônia com base nos dados hoje disponíveis. Os números ocultos das pesquisas dizem muito mais do que os percentuais divulgados semanalmente. O que se pode afirmar, até aqui, é que a disputa de 2026 segue completamente aberta, sem favorito consolidado. É pura lorota quem se aventura a prever, com tanta antecedência, o desfecho da corrida sucessória. Política muda como o vento: o que hoje parece sólido, amanhã pode virar poeira. Essa é uma verdade tão elementar quanto dois e dois serem quatro.
TRIUNVIRATO
Três pré-candidatos despontam, neste momento, como os nomes mais competitivos da disputa. Quando a campanha começar efetivamente e o eleitor decidir comparar perfis, trajetórias e propostas, será possível fazer uma leitura mais precisa do cenário. Até lá, Marcos Rogério, Adailton Fúria e Hildon Chaves aparecem como os nomes de maior densidade eleitoral e capilaridade política no estado. São três pré-candidaturas robustas, com potencial para travar uma disputa acirrada até o último dia de campanha pelas duas vagas no segundo turno.
ESQUERDA
No campo da esquerda, Expedito Neto tentará atrelar sua candidatura ao tradicional voto “13”, apostando na vinculação entre presidente e governador. Ainda que consiga consolidar essa estratégia, suas chances de vitória parecem reduzidas diante do perfil majoritariamente conservador - e, em muitos segmentos, francamente antipetista - do eleitorado rondoniense. Já Samuel Costa entra na disputa praticamente isolado no espectro da esquerda e tende a cumprir um papel mais simbólico no processo eleitoral.
BOLHAS
Outra incógnita é a recente pré-candidatura do emedebista Pedro Adib. Por ainda estar em fase embrionária, é cedo para medir sua viabilidade. Contudo, se o MDB permanecer sob a orientação política de Confúcio Moura, o partido tende a enfrentar as mesmas dificuldades de penetração eleitoral observadas nos demais projetos ligados ao campo progressista. Pedro Adib, porém, surge como um intelectual refinado e pode oferecer ao debate uma agenda distinta da polarização predominante. O problema é que o eleitorado parece cada vez mais aprisionado nas bolhas ideológicas e, até aqui, não deu sinais consistentes de buscar uma alternativa fora dos extremos.
IMPEACHMENT
O arquivamento do pedido de impeachment contra o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, apresentado à Câmara Municipal pelo vereador Marcos Combate, já era esperado nos bastidores políticos. Faltavam ao requerimento elementos mínimos capazes de sustentar uma medida extrema como a cassação de um chefe do Executivo. Sem lastro probatório consistente e sem adequada tipificação jurídica das supostas infrações político-administrativas, o pedido acabou sendo remetido às calendas antes mesmo de ganhar musculatura dentro do Parlamento municipal.
BOLHAS
Outra incógnita é a recente pré-candidatura do emedebista Pedro Adib. Por ainda estar em fase embrionária, é cedo para medir sua viabilidade. Contudo, se o MDB permanecer sob a orientação política de Confúcio Moura, o partido tende a enfrentar as mesmas dificuldades de penetração eleitoral observadas nos demais projetos ligados ao campo progressista. Pedro Adib, porém, surge como um intelectual refinado e pode oferecer ao debate uma agenda distinta da polarização predominante. O problema é que o eleitorado parece cada vez mais aprisionado nas bolhas ideológicas e, até aqui, não deu sinais consistentes de buscar uma alternativa fora dos extremos.
IMPEACHMENT
O arquivamento do pedido de impeachment contra o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, apresentado à Câmara Municipal pelo vereador Marcos Combate, já era esperado nos bastidores políticos. Faltavam ao requerimento elementos mínimos capazes de sustentar uma medida extrema como a cassação de um chefe do Executivo. Sem lastro probatório consistente e sem adequada tipificação jurídica das supostas infrações político-administrativas, o pedido acabou sendo remetido às calendas antes mesmo de ganhar musculatura dentro do Parlamento
VIOLÂNCIA
Não são raros relatos de abordagens ríspidas a servidores municipais e recentemente o parlamentar chegou a ameaçar, da tribuna da Câmara, “dar um soco” no prefeito caso recebesse tratamento semelhante ao que, segundo ele, teria sido dispensado ao vereador Dr. Santana. Declarações dessa natureza ajudam a esvaziar a seriedade de iniciativas que, em tese, deveriam ter densidade política e jurídica.
FOLCLÓRICO
O pedido de impeachment acabou não sendo levado a sério nem mesmo por boa parte dos próprios vereadores. Na imprensa, o requerimento ganhou mais espaço como episódio folclórico do que como fato político relevante, tornando-se praticamente nota de rodapé diante da ausência de fundamentos robustos.
CORREÇÃO
Ainda assim, reduzir a atuação de Marcos Combate apenas ao excentrismo seria simplificar excessivamente sua presença no Legislativo. O vereador também protagoniza fiscalizações importantes relacionadas à aplicação dos recursos públicos e frequentemente levanta questionamentos pertinentes sobre contratos e ações da administração municipal. Em democracias maduras, fiscalizações duras e independentes não apenas são legítimas, como ajudam o próprio Executivo a corrigir falhas, rever excessos e aprimorar a gestão.
EXAGERADO
O desafio para a oposição, porém, é encontrar o equilíbrio entre firmeza e responsabilidade. Quando a crítica abandona o campo técnico e mergulha no exagero permanente, corre o risco de perder credibilidade - e transformar o que deveria ser controle institucional em mero espetáculo político.
PODCAST
Hoje, no podcast Resenha Política, entrevistamos o ex-juiz Robson José Santos, desligado da magistratura do Tribunal de Justiça de Rondônia por não preencher os requisitos da vitaliciedade. Ele sustenta ter sido vítima de racismo estrutural justamente dentro de uma instituição cuja missão constitucional é garantir direitos fundamentais e combater toda forma de discriminação racial.
PÁREA
A entrevista é esclarecedora. Este cabeça-chata não deixa perguntas pela metade e aborda, sem rodeios, cada uma das imputações que culminaram em sua exoneração. Robson José Santos responde ponto a ponto, sem tergiversar, e tenta reverter sua saída no CNJ sob a tese de perseguição racial. Vale assistir. Parte da cobertura feita até aqui apresentou o único juiz negro da primeira instância de Rondônia como um personagem incompatível com a liturgia do cargo e um verdadeiro pária da magistratura. A entrevista oferece ao público a oportunidade de ouvir o outro lado dessa história. Sem meias palavras e sem receios de sacudir o cheiro de naftalina que geralmente impregnam os trajes pretos, longos e medievais que ornam o poder.
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RESENHA POLITICA (ROBSON OLIVEIRA)
Jornalista, Advogado e colaborador do www.quenoticias.com.br - contato: robsonoliveirapvh@hotmail.com