Confúcio vê articulação ruir, Acir insiste contra a inelegibilidade e Expedito Netto pode decidir o segundo turno

28 de julho de 2026 21

Reviravolta nas convenções desmonta parte da estratégia de Confúcio Moura, enquanto Acir Gurgacz aposta em recursos judiciais e Expedito Netto surge como possível fiel da balança na disputa pelo Governo de Rondônia.

MÉTODO

Há políticos que fazem da paciência uma ciência e da espera uma estratégia. Confúcio Moura sempre pertenceu a essa escola. Durante meses deixou adversários queimarem combustível na pré-campanha enquanto alimentava a curiosidade do meio político com o silêncio calculado de quem conhece cada atalho dos bastidores. Mediu riscos, empilhou conversas reservadas, costurou alianças e parecia mover as peças do tabuleiro como um enxadrista que já conhecia o xeque-mate antes mesmo da abertura.

SOMBRAS

Esta coluna, por diversas vezes, registrou que poucos políticos rondonienses acumulam a longevidade, a experiência e a capacidade de articulação de Confúcio. Não foi por acaso que atravessou três décadas ocupando cargos majoritários e parlamentares. Aprendeu cedo que eleições também se vencem nas sombras dos gabinetes.

REVÉS

A engenharia parecia impecável. O PT nacional priorizou sua candidatura ao Senado, Luciana Oliveira recuou em favor do emedebista e abriu-se a expectativa de ampliar a frente de esquerda. Até o PSB ensaiava sinais de aproximação. As primeiras pesquisas legalmente divulgadas o colocavam entre os nomes mais competitivos da disputa. Tudo indicava que o velho estrategista, mais uma vez, havia limpado o caminho antes de colocar o pé na estrada.

PEDÁGIO

Mas a política, essa divindade pagã que distribui glórias e humilhações na mesma velocidade, resolveu cobrar pedágio. As convenções do fim de semana produziram um roteiro que dificilmente estaria nos cálculos do experiente articulador. O MDB homologou candidatura própria ao governo, contrariando a engenharia construída nos bastidores. Na mesma noite, o PT desfez o apoio, recolocou Luciana Oliveira na disputa ao Senado e desmontou uma peça central da arquitetura política cuidadosamente erguida por Confúcio.

Como se o sábado ainda guardasse poucas ironias, surgiu outro revés. O PDT decidiu homologar a candidatura de Acir Gurgacz ao Senado, mesmo diante dos conhecidos obstáculos jurídicos que cercam sua situação eleitoral. O cenário que parecia consolidado na sexta-feira amanheceu completamente redesenhado menos de vinte e quatro horas depois.

A velha máxima de que experiência não imuniza ninguém contra o azar ganhou um capítulo rondoniense.

EXAUSTÃO

Confúcio sempre foi visto como um mestre das articulações silenciosas, especialista em construir maiorias antes que os adversários percebessem onde estava a batalha. Desta vez, porém, a impressão é que a sofisticada engenharia política encontrou o próprio limite. A habilidade que tantas vezes abriu portas não conseguiu impedir que algumas delas fossem fechadas por dentro.

LIMITES

Ainda não existem pesquisas capazes de mensurar o tamanho do estrago eleitoral provocado pela sucessão de baixas. Mas a fotografia política mudou. E mudou rápido. Confúcio Moura continua sendo um dos nomes mais experientes da política de Rondônia. Justamente por isso, ninguém deveria subestimar sua capacidade de reação. Embora nunca fosse uma unanimidade.

PROFETA

Entretanto, a frente de esquerda, que parecia caminhar em fila indiana, agora exibe rachaduras visíveis. E campanhas raramente sobrevivem ilesas quando aliados começam a disputar entre si o espaço que antes era ocupado pelo consenso. Há uma ironia quase bíblica nesse enredo. Durante décadas, Confúcio cultivou a imagem do profeta das articulações, aquele que parecia enxergar o futuro político antes dos demais e conduzir os acontecimentos conforme suas previsões.

SOBERBA

Desta vez, porém, a própria profecia esbarrou na imprevisibilidade da história. A filosofia ensina que nenhuma ordem é permanente e que a fortuna é a divindade mais caprichosa da vida pública. Quem imagina dominar completamente o curso dos acontecimentos acaba descobrindo que o destino não aceita tutores. Na política, como na existência, a soberba costuma ser apenas o intervalo entre uma vitória e a próxima lição.

ENTREVISTA

O podcast Resenha Política recebeu, pela primeira vez, a ex-deputada federal Mariana Carvalho, pré-candidata ao Senado pelo Republicanos. Depois de vários convites ignorados no passado, a entrevista enfim aconteceu, em clima leve e franco. Mariana demonstrou confiança na disputa, sem esconder que enfrentará adversários de elevada densidade eleitoral. Clique e assista.

MATURIDADE

Chamou atenção, porém, a mudança de postura. A candidata que saiu derrotada na corrida pela Prefeitura de Porto Velho parece ter dado lugar a uma política mais serena e madura. Não demonstra carregar ressentimentos daquela campanha, tampouco o peso do favoritismo que, muitas vezes, sufoca quem larga na frente e não cruza a linha de chegada.

LIÇÃO

Disse ter aprendido com os reveses e apresentou, com desenvoltura de quem conhece os corredores do Congresso após dois mandatos de deputada federal, a forma como pretende exercer um eventual mandato de senadora. Esta coluna, que não economizou críticas à ex-parlamentar no passado, reconhece que o tempo e as derrotas parecem ter forjado uma candidata mais preparada para o embate. Resta saber se a maturidade adquirida será suficiente para vencer um percurso que continua longo, acidentado e repleto de espinhos.

INFLUÊNCIA

A pesquisa Datafolha publicada ontem revela um fenômeno curioso nesta pré-campanha: o eleitor brasileiro está cada vez menos disposto a admitir que decide seu voto pela cabeça dos outros. Nada menos que 67% afirmam que líderes religiosos não terão nenhuma influência na escolha do presidente. Entre jornalistas e profissionais da imprensa, o índice chega a 58%, enquanto 62% dizem que ignorarão opiniões de amigos próximos e das pessoas que seguem nas redes sociais. Até dentro de casa prevalece a autonomia: 60% garantem que o companheiro ou companheira não influenciará a decisão, e 61% fazem a mesma afirmação em relação aos filhos.

LIMITES

Apesar disso, a influência não desapareceu por completo. 38% ainda admitem levar em conta a opinião de terceiros, 36% consideram a dos filhos e amigos, e 32% a das redes sociais. No fundo, a pesquisa retrata um eleitor mais desconfiado das antigas referências, mas não necessariamente mais aberto a mudar de posição. Isso ajuda a explicar outro dado do levantamento: 92% dos eleitores de Lula e Bolsonaro dizem não se arrepender do voto de 2022. A eleição de 2026 tende, portanto, a ser decidida menos pela persuasão e mais pela capacidade de mobilizar quem já está convencido. Isto vem a comprovar, por exemplo, que a estratégia usada e visada de bater da cintura para baixo no adversário não surte mais os feitos do passado. Aliás, Lula e Bolsonaro são provas de que cacetes político não colam. Embora incomode. É do jogo.  

IA

A inteligência Digital na campanha eleitoral começou a provocar polêmica desde que uma peça com seu uso foi utilizada durante a Convenção Nacional do PL. Nela, Bolsonaro aparece falando das virtudes do filho candidato a presidente. Com restrições impostas pelo Judiciário a fala de Bolsonaro provocou um debate e vai obrigar as cortes decidirem seu bom uso. A IA veio para ficar - e causar polêmicas.

OBSTINADO

Na política, a persistência costuma ser tratada como virtude. Em alguns casos, porém, ela flerta perigosamente com a obstinação. O empresário e ex-senador Acir Gurgacz parece determinado a provar que uma decisão judicial definitiva é apenas mais um obstáculo no caminho de sua pretensão de retornar ao Senado.

Desde que foi alcançado pela Lei da Ficha Limpa, trava uma verdadeira peregrinação processual.

RECORRENDO

Recurso sobre recurso, incidente sobre incidente, sempre na expectativa de encontrar, em alguma curva da jurisprudência, a porta que o conduza novamente ao jogo eleitoral. Está em seu pleno direito. O ordenamento jurídico oferece instrumentos para isso, e ninguém pode ser censurado por utilizá-los.

BASTIDORES

Este cabeça chata ouviu de uma fonte graduada do PDT que a cartada mais recente seria tentar desconstituir a decisão que lhe retirou os direitos políticos. Pelo tom da conversa, ficou a impressão de que as movimentações ultrapassam o campo estritamente jurídico, embora o interlocutor, prudentemente, tenha preferido não avançar em detalhes.

MESSIÂNICO

Quem conversa com Acir percebe uma convicção quase messiânica. Ele acredita, com fé inabalável, que desta vez uma instância superior em Brasília lhe devolverá a elegibilidade. É possível? No Direito, jamais convém usar a palavra “impossível”. Afinal, entre o céu e a Praça dos Três Poderes, costumam acontecer fenômenos que escapam à lógica dos mortais.

DIFERENÇAS

Até aqui, entretanto, sua longa peregrinação pelos tribunais produziu mais quilômetros processuais do que resultados concretos. Ainda assim, o partido homologou sua candidatura ao Senado, repetindo um roteiro conhecido. Não é a primeira vez que Acir entra na arena eleitoral carregando a pecha de inelegível. E o desfecho desse filme, por enquanto, todos conhecem. É preciso reconhecer que a passagem pelo Senado Federal foi acima da média dos demais colegas de bancada e procurou colocar os interesses estaduais acima dos empresarias, bem diferente de um senador de Rondônia que trabalha tão somente para o Agro, sua atividade  lucrativa.

CAMALEÃO

O PT oficializou a candidatura de Expedito Neto ao Governo de Rondônia e produziu uma das mais curiosas metamorfoses desta eleição. Ex-deputado federal e ex-presidente de um partido do Centrão, ele agora ocupa o posto de vedete do petismo rondoniense, numa demonstração de que, na política, a coerência costuma ser a primeira vítima das conveniências eleitorais.

SEGUNDO TURNO

O desafio, porém, está longe de ser ideológico. A grande incógnita será saber se Neto conseguirá casar sua candidatura com os votos de Lula em Rondônia, um Estado onde essa transferência nunca foi tarefa simples. A última pesquisa legalmente divulgada mostra que sua pontuação está longe de ser medíocre, mas os votos lulistas estão distantes dos que o indicaram como opção ao governo. Mantido esse desempenho, poderá transformar-se no fiel da balança da disputa. Tudo indica hoje que  não alcance o Palácio Rio Madeira, mas reúne condições de decidir quem chegará lá no segundo turno. Em eleições apertadas, poucos pontos percentuais costumam valer mais do que discursos inflamados. Na eleição  de 2022, Marcos Rogério foi derrotado por um percentual mínimo no segundo turno por razões bem parecidas da atual. A ver.

Fonte: ROBSON OLIVEIRA
RESENHA POLITICA (ROBSON OLIVEIRA)

Jornalista, Advogado e colaborador do www.quenoticias.com.br - contato: robsonoliveirapvh@hotmail.com