Consciência cósmica
Bem vindo mais um livro do nosso ilustre cientista Marcelo Gleiser "O Caldeirão Azul" (o Universo, o Homem e seu Espírito). O título desta coletânea de ensaios se refere à cor de nosso minúsculo planeta Terra, visto do alto, no contexto da imensidão do mundo até agora conhecido. Muito significativa a dedicatória: "Para todos aqueles que se questionam". Efetivamente, o livro nos estimula a refletir sobre o imenso mistério do Universo, perguntando-nos quem somos, de onde viemos, para onde iremos.
Nesta busca, o autor considera fundamental o estudo da ciência no contexto da filosofia, religião e arte, visto que o conhecimento profundo da realidade cósmica e psíquica, do átomo ao amor, deveria envolver o conjunto das várias disciplinas. Há leis naturais que regem o comportamento coletivo, como o desempenho de formigas e abelhas. Ações e emoções têm um caráter fisiológico comum a todos os seres vivos, mas apenas ao homo sapiens, pelo maior e melhor desenvolvimento de sua massa cerebral, é dado questionar a origem de si próprio e do universo conhecido.
Na página 89, tratando da presumida dicotomia entre matéria e espírito, Gleiser pergunta: "O que é uma mente sem um corpo ou um corpo sem uma mente"? Isso nos lembra a antiga contestação do filósofo grego Aristóteles ao mestre Platão, que presumia a existência das idéias num mundo sobrenatural, sendo os objetos da nossa realidade apenas suas representações. Para Aristóteles, diferentemente, a idéia de uma árvore não está no além, mas na própria árvore, deduzida pela mente humana através da capacidade de abstração, que nos faz distinguir o universal do particular. Ele foi o pai do hilemorfismo (de "hilé" = matéria + "morphé" = forma), a teoria filosófica que prega a inseparabilidade do corpo e do espírito.
De modo semelhante, na era moderna, Ferdinand de Saussure, ao falar do signo lingüístico, composto de significante e significado, usou a bela imagem dos dois lados de uma folha de papel, que podem ser distintos, mas jamais separados. De acordo com a teoria da Evolução, a alma (espírito ou mente) começa a tomar forma durante a gestação e vai se aperfeiçoando, conforme o avanço da atividade cerebral e das experiências de vida, até à morte corporal. Não haveria mais espírito após a desintegração dos neurônios. Já, pela teoria da Criação, sustentada pelas várias religiões, a alma humana, diferentemente do que acontece com outros seres vivos, seria enjeitada, bela e pronta, em algum momento da gestação, por intervenção divina. Eu duvido que minha alma de agora, de idade avançada, seja a mesma que tinha quando bebezinho!
Mais intrigante ainda é o mistério do macrocosmo e da possibilidade da existência de seres extraterrestres. O telescópio espacial Kepler, lançado pela NASA em 2009, descobriu milhares de exoplanetas (planetas e satélites fora da esfera solar). Apenas na Via Láctea existem em torno de 40 bilhões de outros mundos semelhantes ao nosso. A pergunta é: por que um Deus teria criado trilhões de astros, se apenas o Sol seria suficiente para aquecer a Terra? Talvez somente nós, humanos, "restos animados de estrelas", sejamos capazes de especular sobre o sentido da existência, acompanhando a evolução dos tempos. O advento da Inteligência Artificial irá alterar nossa realidade. Torçamos que seja para melhorar a vida no nosso planeta!
Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
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