Criacionismo

27 de janeiro de 2020 66

 É inacreditável que, no Brasil do séc.XXI, ainda se confunda Ciência com Religião, conforme podemos deduzir da matéria da Folha de 25/1: "Novo presidente da Capes é defensor do criacionismo". A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior) é um órgão ligado ao Ministério da Educação  para conceder bolsas de estudo a pesquisadores. O governo Bolsonaro está trocando a chefia da Capes, como de outros órgãos estatais, visando uma renovação ideológica conservadora. O nomeado Presidente da Capes é Benedito Guimarães Aguiar, expoente da Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas. A nova orientação da Capes promete  ampliar os estudos do criacionismo bíblico, utilizando a nova roupagem do "design" inteligente, como contraponto à teoria da evolução de Darwin, ao princípio da relatividade de Einstein e à doutrina  das ondas gravitacionais descobertas pela física quântica. Estão querendo que o conhecimento do Universo avance para trás!

            Infelizmente, nossa intelectualidade, apesar da evolução cerebral, ainda não consegue separar ciência de religião. Esta, como a arte, é fruto da fantasia, imaginando o mundo, não como ele é, mas como gostaríamos que fosse. Insatisfeitos com nossas desgraças, acossados por sofrimentos e morte, inventamos a existência de um outro mundo, sobrenatural, onde viveriam eternamente as almas sem corpos, o espírito separado da matéria. Ninguém melhor do que o poeta medieval italiano Dante Alighieri, através da obra "A Divina Comédia", para descrever a vida do além, conforme a doutrina católica que postula o destino das almas para o Inferno, Purgatório ou Paraíso, de acordo com méritos ou pecados. Mas isso é matéria de religião e arte, nada a ver com ciência!

            A negação da criação do mundo já existia nos antigos romanos que diziam "nihil ex nihilo" (nada vem do nada) e o químico francês Lavoisier, no séc. XVIII, confirmou a verdade inquestionável: "Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma".  O cigarro que fumamos se transforma em cinzas no chão e polens no ar. É difícil entender por que um Deus teria criado bilhões de galáxias, quando apenas uma estrela, o Sol, é suficiente para aquecer nosso planeta, a Terra, feita uma bola rodando na imensidão do Universo, sujeita a terremotos e tsunamis.  Criacionismo, terraplanismo, imortalidade, crenças em santos e milagres podem ser aceitas como opiniões pessoais, mas não levadas em sala de aula, na vida política ou no governo de Estados, sob pena de desmoralizar o Brasil perante o mundo científico. A história nos ensina que, até agora, nenhum País teocrático deu certo!

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Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
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