Da parapsicologia ao negacionismo: quem é Bia Kicis, deputada cotada para presidir a CCJ da Câmara

6 de fevereiro de 2021 67

O anúncio de que a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) deverá presidir a comissão considerada a mais importante na Câmara, a de Constituição e Justiça (CCJ), criou uma onda de protestos, que começou entre críticos do presidente Jair Bolsonaro, mas atingiu até parte dos aliados, que veem na parlamentar uma caixa de ressonância do bolsonarismo mais radical. Mas como essa ex-procuradora que já teve papel importante em governo petista e se especializou em reiki, uma terapia que busca a energia vital do universo para equilibrar os chacras, se tornou símbolo de extremismo político no Brasil?

 

A resposta passa principalmente pelas ideias do guru de extrema direita Olavo de Carvalho, que conquistou a ex-servidora, segundo ela própria, por volta de 2014, quando começava o movimento popular que ajudaria a tirar Dilma Rousseff (PT) da presidência da República – e daria fama e votos a essa advogada de 59 anos.

Até essa época, Beatriz Kicis Torrents de Sordi se dedicou a atividades menos midiáticas, como a família, o trabalho na Procuradoria-Geral do DF, onde ingressou em 1992, e o reiki, uma técnica japonesa de cura por poderes místicos que não tem eficácia comprovada cientificamente, mas conta com seguidores no mundo inteiro e integra o leque de terapias alternativas oferecidas pelo SUS.

Kicis é mestre na técnica, uma prática tibetana redescoberta no Japão no século passado que se propõe a realizar curas naturais através da imposição das mãos, e fundou a Escola Brasileira de Reiki em 1998. Ela é autora de um livro que faz sucesso entre os praticantes de reiki no Brasil e pode ser encomendado em sites especializados em livros.

 

No mesmo ano, ela se formou especialista em um Núcleo de Parapsicologia que a UnB manteve em meio a polêmicas até outra ex-aluna, uma vidente, se envolver de maneira negativa na apuração de um ruidoso crime em Brasília, o homicídio do casal Vilella e da empregada em um apartamento na 113 Sul, em 2009. O Metrópoles destrinchou essa história no podcast O crime da 113 Sul, publicado ano passado.

Fundado pelo físico Álvaro Tronconi em 1989, o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais da UnB promoveu pesquisas em astrologia, ufologia, conscienciologia (potenciais do cérebro) e abordagens alternativas da medicina (como o reiki). Médiuns, videntes e outros ditos paranormais foram investigados pelo núcleo em busca de validação científica de seus feitos – sem sucesso registrado no período em que o local funcionou.

Trajetória surpreendente

Várias pessoas que conviveram com ela antes de 2014 disseram que os sinais de extremismo e negacionismo não pareciam estar lá. É o caso do ex-senador Cristóvam Buarque, que foi governador do DF entre 1995 e 1999, quando era do PT, e teve Kicis como subprocuradora geral.

A Procuradoria, apesar do nome, não é composta dos membros do Ministério Público, mas de advogados do governo. “Foi uma profissional de enorme competência e agilidade. Respondia tudo na hora, era conhecedora das leis, convicta”, lembra ele, que diz não recordar, porém, alinhamento político. “Nem desalinhamento, não discutíamos política. Mas não via nela nenhuma oposição às ideias do governo, que era do PT na época”, completa ele, que conta ter se incomodado com a Bia Kicis que encontrou depois, por volta de 2016.

“Eu estava em uma sorveteria na Asa Norte, com meus netos, e ela começou a filmar escondida, de longe, e transmitir pela internet, uma completa invasão de privacidade”, lembra ele. “E eu havia inclusive votado pelo impeachment de Dilma, que era a pauta dela. Eu nem soube então por que ela estava fazendo aquilo. Foi surpreendente”, lembra o ex-senador, que aproveita a conversa para lamentar a radicalização da política brasileira e a ascensão de figuras como o guru de Bia, Olavo de Carvalho.

“Com essa história de Foro de São Paulo, que nunca teve importância nenhuma, eram só ideólogos se reunindo para falar de coisas atrasadas. Nunca foi como a Internacional Socialista, que fazia políticas pros partidos nacionais”, relata ele, que deixou o PT em 2005 sem nunca ter ido a reuniões do grupo.

Chefe de Bia Kicis nessa época da Procuradoria-Geral do DF e amigo da hoje parlamentar, o jurista Marcello Alencar de Araújo, ex-procurador-geral, conta que nunca viu nela sinais de extremismo político no tempo em que conviveram.

 

“Grande amiga, nos dávamos muito bem e trabalhávamos bem juntos. Tanto que, anos após minha saída do cargo, quando Agnelo foi eleito [governador do DF pelo PT em 2010], eu participei da transição e cheguei a indicar o nome da Bia para procuradora-geral no governo dele. Mas Agnelo tinha outros indicados também, e não a escolheu”, recorda Araújo, que hoje atua como advogado em um escritório da capital. O escolhido na época foi o procurador Rogério Marinho Leite Chaves.

Apesar de ninguém apontar Kicis como defensora aberta do PT mesmo nessa época, outro contemporâneo dela na PGDF contou que a então procuradora chegava a ter discussões acaloradas com colegas ligados ao grupo político de Joaquim Roriz, adversário dos petistas.

Atualmente deputada distrital, a ex-vice-governadora Arlete Sampaio é outra que se surpreende pela mudança no perfil da ex-vice-procuradora geral em sua gestão. “Eu não consigo entender o que aconteceu com ela. E perguntei isso a ela da última vez que nos vimos: ‘O que aconteceu com você?'”, contou Arlete ao Metrópoles, preferindo manter para si a resposta que escutou da antiga companheira de GDF.

A influência de Olavo

O guru do bolsonarismo vira e mexe critica os políticos de direita por focarem no poder eletivo, em buscar cargos políticos em vez de investirem na formação de seguidores. Em texto publicado no jornal Diário do Comércio em 2010, com o título “A falta que a militância faz“, Carvalho escreveu que “poder é fazer-se obedecer”, é ter influência sobre “uma massa militante disciplinada, organizada e adestrada para seguir, com o mínimo de atrito, uma linha de comando”.

Para o guru, os políticos de direita “não aprendem a lição do PT, que em suas primeiras décadas soube adiar e sacrificar a política eleitoral ao interesse maior de criar e manter unida a militância”.

E criar essa militância, ainda segundo o texto de 2010 de Carvalho, “começa com círculos muito pequenos de intelectuais que, por anos, nada fazem senão discutir e discutir” até estarem prontos para o “adestramento da militância propriamente dita”.

Bia Kicis parece levar a sério o aviso do guru, pois se notabilizou, desde 2015 pelo menos, por criar grupos de debate e divulgação, que acabaram partindo para a ação direta com ações na Justiça e manifestações nas ruas.

Ódio raiz nas redes

Em 2015, faltando um ano para se aposentar da PGDF, Kicis participou da fundação do Instituto Resgata Brasil. Ao lado de colegas do setor jurídico com inclinações conservadoras, ela começou a fazer barulho com ações judiciais. Uma delas conseguiu bloquear a doação para a Bolívia, pelo governo Dilma, de uma termoelétrica em Rondônia que havia sido reformada ao custo de R$ 60 milhões.

A repercussão do caso ajudou Bia Kicis a furar a bolha regional e se tornar uma liderança dos protestos anti-Dilma fora do eixo Rio-São Paulo, onde as manifestações contra o governo já reuniam milhares de pessoas e projetavam lideranças conservadoras. Uma dessas lideranças era Marcello Reis, fundador do grupo Revoltados On-line e ex-marido da hoje deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que coordenava um movimento parecido, o Nas Ruas.

Bia então entrou para o Revoltados On-line, do qual virou coordenadora, e ajudou a colocar Brasília entre as cidades com grandes protestos pelo impeachment de Dilma.

Veja um registro de vídeo postado originalmente pela página do Revoltados On-line, em março de 2015, replicado pelo jornal progressista GGN em forma de protesto conta a ação política da então corregedora da PGDF: