Elio Gaspari: “os governadores e os prefeitos são mais relevantes que o presidente”
Da Coluna de Elio Gaspari na Folha de S.Paulo.
Na sua catadupa de declarações estapafúrdias, Jair Bolsonaro disse à rádio Bandeirantes que “vai ter um caos muito maior se a economia afundar (…), se acabar a economia, acaba qualquer governo, acaba o meu governo”.
Nessas poucas palavras ele revelou o estado de sua alma, na qual misturam-se teatros de máscaras, delírios e perplexidades. Para ele, a epidemia é um detalhe. O essencial é “meu governo”. Seu mandato só deverá acabar no dia 1º de janeiro de 2023, mas transformou-se numa usina de encrencas, felizmente contornado pela ação dos governadores.
Brasília poderia ter sido uma fonte de informações e de orientações respeitáveis. Degradada, a ação federal move-se entre comédias e provocações. Disso resultou uma descoberta: os governadores e os prefeitos são mais relevantes que o presidente.
Enquanto São Paulo facilita o acesso ao álcool em gel, o filho do presidente decidiu insultar o governo chinês. Já o ministro da Saúde, com um desempenho exemplar, teve que aturar uma crise de ciúmes juvenis de Bolsonaro porque reuniu-se com o governador João Doria. (Talvez convenha que o capitão saiba: Luiz Henrique Mandetta pode pedir o boné.)
Desastradamente, Bolsonaro cumpriu uma de suas promessas de campanha: “Mais Brasil e menos Brasília”.