Em plena pandemia, trocar Mandetta é uma aposta no escuro de Bolsonaro. Por Andrei Meireles

15 de abril de 2020 70

Publicado originalmente no site Os Divergentes

POR ANDREI MEIRELES

 

Dez dias atrás, Jair Bolsonaro quis mas não teve força dentro de seu próprio governo para demitir o popular ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que comanda o combate no país da pandemia do novo coronavírus. A contragosto, ele conteve a caneta. Passou a semana se remoendo. Quando pode, estimulou de forma acintosa a desobediência civil às orientações de isolamento social do Ministério da Saúde. Se o objetivo desse cutucar foi tirar seu ministro da posição de jogar parado, conseguiu. O troco de Mandetta veio na entrevista ao Fantástico.

Jogo jogado, Jair Bolsonaro conseguiu argumentos para convencer o entorno palaciano, inclusive os ministros militares, de que sua autoridade presidencial foi posta em xeque. Deixou de ser a divergência manter ou aliviar o isolamento social, adotar ou não a cloroquina como tratamento oficial, entre outras polêmicas da turma do capitão com os cientistas. Virou questão de hierarquia. Fácil de resolver entre cabeças que a tem como um dos principais valores.

O difícil é encontrar uma alternativa para a Saúde que, além de satisfazer a crença do clã Bolsonaro de que o covid-19 é uma arma chinesa contra a civilização ocidental, consiga, como Mandetta, manter a confiança da população após a troca de comando. Se os especialistas estiverem certos, estamos chegando ao auge dessa epidemia no Brasil. Questão de uma ou duas semanas.

O problema para Bolsonaro já não é mais demitir Henrique Mandetta, é não derrapar na escolha de seu sucessor. Se depender da visão tacanha de Onyx Lorenzoni, cujo horizonte é a eleição gaúcha em 2022, pode até emplacar o deputado Osmar Terra, um médico que endossa o diagnóstico de Bolsonaro de que o novo coronavírus é mais uma “gripezinha”.

O risco de uma opção tipo Osmar Terra é o divórcio total com a comunidade médica e científica. A busca é por alguém com bom currículo médico, mais maleável que Mandetta. O fato é que essa troca na Saúde, em plena guerra sanitária, põe de vez o coronavírus no colo de Bolsonaro. É tudo que o seu mestre e guru Donald Trump quer se livrar.

A conferir.