Espada, fé e lei

14 de julho de 2020 62

André Mendonça, Ministro da Justiça, na Entrevista à Veja (15/7) "Com a Bíblia na mão", afirma serem legítimas as manifestações a favor da volta do regime militar, da escolha de um evangélico para o STF (Supremo Tribunal Federal), do  posicionamento de Bolsonaro contra Sergio Moro. E (vejam só!) tudo isso para reivindicar uma "democracia" de melhor qualidade, evitando a volta ao passado. Segundo ele, a composição do nosso STF é bastante injusta, pois só tem judeus e católicos. Daí a necessidade da nomeação de um representante dos evangélicos. 

            É lícito perguntar: o que tem a ver a religião com a função de um ministro do STF? Valem algumas considerações. Conforme meu entender, a sociedade humana evolui por três linhas de força: espada, fé e lei. A espada simboliza a força física e as armas de que se serve o homem  para impor suas vontades (militarismo); a fé é a crença na existência de um mundo sobrenatural, pois não nos conformamos com a dor e a morte (religião); a lei é o conjunto de normas para regular nossa vida em sociedade (jurisprudência). Para o bom funcionamento do Estado, a espada e a fé devem estar subordinadas à lei. Governos dirigidos por gente com formação militar ou religiosa, sem um notório saber jurídico, geralmente são destinados ao fracasso, pois valores ideológicos acabam conflitando com necessidades sociais. Apenas um exemplo: como discutir sobre a descriminalização do aborto com a bancada evangélica do Congresso?

--
Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio