Globo apoia Mendonça e condena Moraes na guerra do STF
247 – Em meio à escalada da crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF), o jornal O Globo tomou partido em favor do ministro André Mendonça e fez duras acusações contra Alexandre de Moraes, ao defender que o primeiro continue à frente das investigações sobre o Banco Master e que o segundo seja formalmente investigado pelas suspeitas levantadas no caso.
A posição foi apresentada em editorial publicado pelo jornal neste sábado (5), sob o título “STF deve rechaçar manobra de Moraes no caso Master”. O Globo sustenta que Moraes tentou atingir Mendonça por meio de um relatório considerado frágil e levar a apuração contra o colega para o inquérito das fake news. O jornal cobra que o presidente do STF, Edson Fachin, impeça esse movimento e preserve a investigação conduzida por Mendonça.
O editorial descreve o Supremo como mergulhado em sua “mais aguda crise em tempos democráticos” e afirma que a Corte precisa permitir que sejam investigados os indícios apontados contra Moraes. Na avaliação do jornal, o ministro teria reagido às revelações sobre suas supostas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro tentando colocar Mendonça sob investigação.
O Globo chega a levantar a hipótese de que o movimento tenha servido para deslocar o centro da crise: “Talvez para desviar a atenção das revelações comprometedoras a respeito de suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro”.
Globo vê tentativa de atingir Mendonça
O confronto descrito pelo editorial gira em torno de um relatório da Polícia Federal com menções a André Mendonça. Segundo o jornal, Moraes utilizou o documento para pedir uma investigação contra o colega.
O Globo afirma, porém, que o material teria sido elaborado a partir de fontes frágeis de informação e não teria valor como prova. A partir disso, questiona a iniciativa de Moraes e indaga por que o ministro teria recebido o documento, uma vez que não é relator dos casos aos quais as informações estariam relacionadas.
O editorial também contrapõe a atitude de Moraes à atuação de Mendonça. Segundo o jornal, enquanto o relatório utilizado contra Mendonça seria frágil, outro documento da PF teria apresentado elementos concretos relacionados a Moraes e suas supostas ligações com Vorcaro.
O Globo sustenta que Moraes tentou usar a análise da inteligência da PF para levar Mendonça ao inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news. O jornal chama o procedimento, aberto em 2019, de “abstruso” e afirma que ele há muito deveria ter sido encerrado.
Fachin barra inclusão no inquérito das fake news
A iniciativa encontrou uma barreira na presidência do Supremo. Edson Fachin decidiu desmembrar o pedido contra Mendonça do inquérito das fake news e reuni-lo às informações relacionadas às suspeitas contra Moraes.
O presidente do STF deu ainda prazo de cinco dias úteis para que os envolvidos apresentem esclarecimentos, incluindo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Segundo O Globo, Fachin também se comprometeu a encerrar o inquérito das fake news.
O editorial considera essencial que o presidente do STF impeça a utilização do procedimento para interferir na investigação do caso Master e cobra uma apuração efetiva das acusações surgidas contra Moraes.
O jornal destaca uma declaração de Fachin nesta sexta-feira:
“Nenhuma autoridade está acima da Constituição.”
Para O Globo, a afirmação deverá agora ser colocada à prova dentro do próprio Supremo.
Jornal aponta suspeitas contra Moraes
O editorial dedica sua crítica mais dura ao relatório da PF que, segundo o jornal, teria apresentado elementos sobre as relações de Moraes com Vorcaro e com o Banco Master.
O Globo afirma que o documento indica que Moraes teria editado um contrato pelo qual o banco remunerava o escritório de advocacia de sua mulher. O texto também cita informações sobre disponibilização de aviões, helicópteros e cartões de crédito a familiares do ministro.
Ainda segundo o editorial, Vorcaro teria consultado Moraes sobre a possibilidade de deixar o país dois dias antes de ser preso e solicitado uma atuação do ministro junto a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues para tentar interromper as investigações sobre o Master.
O jornal também dirige críticas ao procurador-geral da República por ter defendido a nulidade do relatório. Para O Globo, a situação coloca em questão a participação de Gonet no caso.
Editorial defende condução de Mendonça
Ao mesmo tempo em que concentra ataques em Moraes, o editorial faz uma defesa explícita da atuação de André Mendonça.
O Globo sustenta que as investigações relacionadas ao Master devem continuar sob sua relatoria e afirma que o ministro “até aqui vem se conduzindo corretamente em suas funções, apesar de todas as pressões sofridas”.
A posição explicita o alinhamento do jornal na disputa que se formou dentro da Corte: de um lado, considera legítima a investigação conduzida por Mendonça; de outro, trata como uma manobra a tentativa de Moraes de colocá-lo sob investigação.
O pedido contra Mendonça chegou à presidência do Supremo depois de uma reunião de três horas entre Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O editorial chama atenção para o fato de que cabe ao presidente do Senado decidir sobre o encaminhamento de pedidos de impeachment contra ministros do STF.
Caso Toffoli é citado como precedente
O Globo também recupera o episódio envolvendo Dias Toffoli, que anteriormente comandava a relatoria do caso Master.
Segundo o editorial, a Polícia Federal encontrou elementos relacionando o resort Tayayá a um fundo envolvido nas investigações sobre o banco. O jornal afirma que posteriormente veio a público que Toffoli seria sócio oculto do empreendimento.
O ministro acabou deixando a relatoria, posteriormente sorteada para Mendonça. O Globo critica, entretanto, a resposta institucional dada naquele momento, quando o Supremo divulgou uma nota conjunta em defesa de Toffoli.
Para o jornal, Fachin não pode repetir agora o que chama de “solução” adotada naquele episódio.
Globo cobra plenário contra Moraes
Na conclusão, O Globo defende que o plenário do STF autorize a investigação das suspeitas contra Alexandre de Moraes e preserve André Mendonça na condução do caso Master.
O editorial cobra de Fachin “transparência e firmeza” e afirma que manobras capazes de transformar a investigação em um “faz de conta” representariam um golpe na credibilidade do Supremo.
A cobrança ocorre num momento em que Fachin tenta avançar com a discussão sobre um código de ética para os ministros, proposta apresentada quando assumiu a presidência da Corte.
Para O Globo, a saída para a crise passa por manter a tramitação regular das investigações, preservar Mendonça na relatoria e permitir que as acusações envolvendo Moraes sejam examinadas. Na guerra aberta no Supremo, o editorial deixa claro de que lado está.