Globo, que apoiou golpe de 64, pede para militares evitarem “delirante fantasia bolsonarista”

31 de março de 2021 42

Prestes a completar 57 anos do editorial, de 2 de abril de 1964, em que dizia que “Ressurge a Democracia”, sobre o golpe militar concretizado dois dias antes, o jornal O Globo pede, em nova coluna em que a opinião da família Marinho é exposta, nesta quarta-feira (31), que os generais não embarquem “em qualquer aventura da delirante fantasia bolsonarista”.

Afirmando que as Forças Armadas entraram em uma crise “sem paralelo em pelo 40 anos” – quando o Brasil ainda vivia sob a batuta dos generais -, o jornal afirma que “a demissão do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa e a consequente saída dos três comandantes militares, Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica), demonstraram que não será fácil ao presidente Jair Bolsonaro usá-las [as FFAA] para fins políticos”.

“Está claro, em que pese a coincidência no calendário, que o cenário institucional hoje é bem diferente. Não há nenhuma indicação de que os militares aceitariam deixar de se submeter à Constituição e ao Estado democrático de direito, para embarcar em qualquer aventura da delirante fantasia bolsonarista”, diz o texto.

A família Marinho ainda lembrou a trajetória de Bolsonaro e o comparou ao ex-presidente venezuelano Hugo Chavez, a quem nutre uma simbologia semelhante à horda bolsonarista, para dizer que o mandatário brasileiro almeja “uma mistura de governo e Forças Armadas no poder”.

“Capitão expulso do Exército por indisciplina, Bolsonaro dedicou sua vida política a atrair apoio entre militares de baixa patente e policiais. Eleito presidente, aumentou as ambições. Inspirado talvez no caudilho venezuelano Hugo Chávez, parece almejar uma mistura de governo e Forças Armadas no poder. É a receita da tragédia. O modelo chavista destruiu a Venezuela”.

O editorial ainda cita o que seria um dos principais motivos da intriga entre Bolsonaro com Azevedo e Silva, que teria se recusado a colocar as Forças Armadas contra governadores e prefetos que decretaram medidas de isolamento social para conter a propagação do coronavírus.

“Ao criticar medidas de governadores e prefeitos para deter o novo coronavírus, Bolsonaro afirmou que “meu Exército” não aceitaria lockdown, que comparou equivocadamente a “estado de sítio”. Ora, o Exército não tem dono”, diz o texto.

Contradizendo o pensamento do próprio Roberto Marinho, patriarca da emissora, O Globo diz que “os tempos em que os quartéis faziam parte do jogo político fizeram mal à política e aos militares”.

“Bolsonaro se caracteriza pelo desassombro e pelo desrespeito a limites. Tornou o Brasil pária mundial pela atuação no meio ambiente, no combate à Covid-19 e noutras áreas. Para o próprio bem, os militares não devem compactuar com os devaneios de um impensável retrocesso democrático”, finaliza.

Mea Culpa
Em agosto de 2013, quando o Brasil ainda vivia sob a normalidade democrática e sem os arroubos do lavajatismo, que teve a emissora como linha auxiliar no novo golpe que aconteceria três anos depois com a deposição de Dilma Rousseff (PT), O Globo admitiu em editorial que o apoio ao golpe de 64 “foi um erro”.

“Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura. Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro”, diz o texto sobre os movimentos nas ruas, que depois seriam usados pela própria emissora para pressionar por um impeachment contra Dilma Rousseff.

“A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais. Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas”, diz o editorial mea culpa de 2013.

O apoio da emissora à ditadura foi usado inclusive por Bolsonaro, que em entrevista à GloboNews em agosto de 2018, durante a campanha eleitoral, elogiou “a memória do senhor Roberto Marinho”.

“Eu quero aqui elogiar, saudar a memória do senhor Roberto Marinho. Editorial de capa do jornal ‘O Globo’ de 7 de outubro de 1984, ‘Senhor Roberto Marinho’: ‘Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas ameaçadas pela radicalização ideológica, distúrbios sociais, greves e corrupção generalizada”, afirmou Bolsonaro, que viria a repetir o texto, escrito por Roberto Marinho em pronunciamento nacional de rádio e tv em setembro de 2020, no Dia da Independência do Brasil.

Fonte: REVISTA FORUM/PLINIO TEODORO