Guajará-Mirim: ausência de médico legista agrava sofrimento de famílias

6 de fevereiro de 2026 28

A ausência de médico legista em Guajará-Mirim e Nova Mamoré voltou a expor um problema histórico enfrentado pelas duas cidades da região de fronteira com a Bolívia. Sem atendimento pericial local, corpos continuam sendo removidos para Porto Velho, capital de Rondônia, o que prolonga o sofrimento de familiares e atrasa procedimentos legais e funerários.

A situação ganhou repercussão após a morte de Edmilson Sales Torres, de 74 anos, conhecido como “Dólar”, figura bastante conhecida e querida em Guajará-Mirim. Em uma mensagem publicada nas redes sociais, o cinegrafista Cleilson Sales, ex-integrante da TV Guajará-Mirim e sobrinho da vítima, prestou homenagem ao tio e, ao mesmo tempo, manifestou indignação diante da falta de assistência do poder público.

Na publicação, Sales destacou o carisma e a alegria de Edmilson, lembrado como uma pessoa brincalhona e de sorriso fácil, cuja presença marcou gerações. No entanto, o texto também evidencia a dor ampliada pela precariedade do serviço público, uma vez que a família precisou lidar com a burocracia e o deslocamento do corpo até a capital.

O caso reforça uma realidade antiga na região: a inexistência de estrutura adequada do Instituto Médico Legal (IML) obriga famílias enlutadas a enfrentarem longas esperas e deslocamentos em momentos de extrema fragilidade emocional. Moradores e lideranças locais cobram providências das autoridades estaduais para garantir atendimento pericial nos próprios municípios, evitando que situações semelhantes continuem se repetindo.

O drama relatado pelo cinegrafista ganhou contornos ainda mais dolorosos na quarta-feira, 4, quando ele comunicou a morte de Edmilson Sales, vítima de um grave acidente de trânsito registrado na BR Engenheiro Isaac Bennesby (BR-425)Segundo informações preliminares, o veículo conduzido por Edmilson colidiu com outro automóvel na tarde de terça-feira, nas proximidades de um laticínio localizado próximo à entrada da cidade. A vítima ainda foi socorrida, mas morreu a caminho do hospital.

Em razão da ausência de médico legista no município, o corpo de Edmilson foi encaminhado ao IML de Porto Velho, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec). A situação voltou a evidenciar a fragilidade da estrutura pericial mantida pelo Governo de Rondônia na região de fronteira. Até o início da tarde desta quinta-feira, 5, o corpo de Edmilson, segundo o radialista João Teixeira ainda não havia retornado a Guajará-Mirim, prolongando o sofrimento de familiares e amigos que aguardavam a liberação para os procedimentos funerários.

Foto: Emerson Barbosa

Visivelmente abalado, Cleilson Sales manifestou indignação ao lembrar que a legislação brasileira determina que toda morte decorrente de causa violenta deve, obrigatoriamente, passar por exame de necropsia no Instituto Médico Legal, uma atribuição direta do Estado. Segundo ele, a falta de estrutura adequada acaba transferindo para as famílias um ônus que deveria ser exclusivamente do poder público, expondo um problema antigo e recorrente que segue sem solução em Guajará-Mirim e Nova Mamoré.

Em seu relato, Cleilson destacou que o médico legista responsável pelo atendimento em Guajará-Mirim havia retornado para Porto Velho horas antes do acidente, em razão de um cronograma restrito de atuação no município, que ocorre apenas entre segunda e quarta-feira. Com isso, a região ficou desassistida justamente no momento em que mais precisava do serviço pericial.

Outro ponto citado foi a distância enfrentada pela família. Devido à inexistência de profissionais no local, o corpo de Edmilson precisou percorrer mais de 600 quilômetros, considerando ida e volta até a capital, para a realização da necropsia, o que agravou ainda mais o sofrimento dos familiares.

Cleilson classificou a situação como inadmissível para uma cidade do porte de Guajará-Mirim e criticou a fragilidade das escalas adotadas pelo Estado. Segundo ele, a dor da perda acaba sendo ampliada pela burocracia e pela ausência de investimentos em saúde e perícia no interior de Rondônia. “Perdemos um tio, um amigo e um cidadão exemplar. O que pedimos não é um favor, é o básico: dignidade no momento do adeus. Guajará-Mirim pede socorro e clama por respeito”, declarou.

Fonte: Por Emerson Barbosa