Ida de brasileiros a Portugal continua a crescer no governo Bolsonaro

11 de abril de 2019 198

Publicado originalmente no Público

Na semana em que se assinalam os cem dias da tomada de posse de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil, a Casa do Brasil em Lisboa faz um balanço e indica que são cada vez mais os brasileiros, de todas as classes e perfis, que procuram “melhor qualidade de vida” em Portugal.

Muitos destes estão “bem informados e já com uma imigração planeada”, outros são atraídos por “contos” nas redes sociais sobre um “el dourado”, que não existe, conta a presidente da Casa do Brasil, Cyntia de Paula, explicando, em entrevista à Lusa, porque é que também os pedidos de retorno ao país de origem estão a crescer, como confirmam dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

A presidente da Casa do Brasil disse que, sobretudo no último ano, iniciou-se uma nova vaga de imigrantes brasileiros para Portugal, que se acentuou no final de 2018 e início deste ano.

 

A responsável referiu que esta “é uma nova vaga muito diferente das outras, com um aglomerado de perfis” e que veio para ficar, para “construir aqui”.

No ano passado, só a Casa do Brasil em Lisboa atendeu 476 novas pessoas (estão apenas contabilizados os que procuram pela primeira vez a associação). Em 2019, desde Janeiro, tinham sido atendidas 278 novas pessoas, disse a responsável, que faz parte da associação desde 2012 e é presidente desde 2017.

Na história da imigração brasileira já houve momentos de muita afluência como o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, recorda, reafirmando que neste momento “há uma chegada bastante expressiva”.

Perfis diversos

Esta nova vaga é composta por diversos grupos: pessoas com menos qualificações profissionais, um maior número de pessoas com mais qualificação, e muitos estudantes universitários, que já estavam a chegar desde 2009, mas que continuam a crescer, explicou.

 

Mas há também a introdução de uma nova comunidade: a dos aposentados. São pessoas que têm rendimentos próprios no Brasil e a possibilidade de ter agora em Portugal o visto para aposentado. E ainda uma classe mais alta, que dentro do bolo da nova chegada não é “tão representativa”, adiantou Cyntia de Paula.

Os mais representativos “são os profissionais mais qualificados, da faixa entre os 30 e os 40 anos”, acrescentou.

Dos que vão à Casa do Brasil, o motivo comum que os leva a deixar o país de origem é “a procura de uma melhor qualidade de vida”, assegurou.

“Desde a destituição da Presidente Dilma [Rousseff — que sucedeu a Lula da Silva na presidência do Brasil] que sentimos que há na população brasileira uma descrença muito ligada às questões económicas, como o desemprego, que cresceu nesse tempo e já vinha a crescer antes”, referiu também.

“E sentimos que há um descontentamento e uma incerteza do que vai ser o Brasil, no próximo mês, por exemplo. No próximo ano, então, a incerteza é muito maior”, acrescentou.

Por isso, chegam “com uma preocupação com melhor qualidade de vida, melhor oportunidade de trabalho, mas sobretudo de segurança”.

“Uma população que quer contribuir”

“Sentimos que é uma comunidade que vem, não só para trabalhar e mandar remessas para o Brasil, como acontecia no passado. Mas uma população que quer contribuir para Portugal, que quer aqui trabalhar, trazer os seus conhecimentos, aplicar aqui a sua profissão, investir, pequenos investidores, pequenos empresários — porque não só a classe alta faz investimento”, sublinhou Cyntia de Paula.

Ou seja, trata-se de uma comunidade que “veio para contribuir”, que pretende construir e trazer para Portugal as suas famílias.

“Sentimos já a chegada de famílias, o que revela um maior planejamento do processo migratório. Alguns até já vieram num passeio a Portugal antes, ou estudaram melhor o processo”, conta.

Mas, também “continuam a chegar alguns com menos conhecimento da situação, nomeadamente do problema da habitação nos grandes centros urbanos, que é uma das dificuldades novas que antes não se colocava tanto”.