Livro “A Morte da Verdade”: a culpa é dos russos e pós-modernos
A Internet era um sonho do Vale do Silício, um paraíso inspirado na fé pela natureza humana criado por pioneiros tecnológicos. Então, apareceram “agentes mal-intencionados” que deturparam tudo com o pecado – fake news, pós-verdades, obscurantismo e preconceitos. Na capa do livro que nos conta essa história bíblica vemos uma serpente que se esgueira para fora de um balão de HQ. Essa serpente é Donald Trump e a chamada “direita alternativa”, ajudados por hackers russos. Mas também inspirados nos pensadores pós-modernos como Baudrillard e Derrida que teriam destruído a âncora filosófica da Verdade – a noção de Realidade, fazendo o Paraíso decair no niilismo e relativismo. A crítica literária norte-americana Michiko Kakutani vai encontrar o pecado original das fake news nos hackers russos e pensadores do pós-modernismo no seu livro “A Morte de Verdade”. Kakutani revela um discurso que transforma não só a teoria das fake news em um novo rótulo do jornalismo corporativo no mercado das notícias. Também é uma forma ideológica de varrer para debaixo do tapete as mazelas da financeirização global, das “machine learnings” e algoritmos do Vale do Silício – a culpa é sempre dos russos e franceses…
Era uma vez a World Wide Web, imaginada em 1989 por Tim Berners-Lee como um sistema de informação universal, conectando pessoas e compartilhando informações. “Um caso raro em que aprendemos informações novas e positivas sobre o potencial humano”, escreveu o insider do Vale do Silício, o cientista da computação Jaron Lanier. “Um empreendimento coletivo com a doce fé na natureza humana”, completou Jaron.
Em resumo, dessa maneira a crítica literária por quatro décadas no New York Times e um prêmio Pulitzer, Michiko Kakutani, explica a ascensão da chamada “direita alternativa” e a proliferação dos fenômenos das fake news e pós-verdade no livro “A Morte da Verdade”, Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018.
Aliás, a capa do livro de Kakutani parece reforçar essa narrativa do Paraíso perdido: uma serpente se esgueira para fora de um balão de diálogo de histórias em quadrinhos.
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Michiko Kakutani |
Guerras culturais
São 270 páginas em que a autora tenta transformar a guerra particular do establishment acadêmico norte-americano contra o discurso de extrema-direita de Trump em uma crise epistemológica da própria Ciência. Trump e a chamada “alt-right” teriam inventado todos os males que assolam a Internet e redes sociais – notícias falsas, a crise do discurso racional, a pós-verdade, relativismo e o obscurantismo científico. Com o luxuoso auxílio dos espertos hackers russos (invocados agora também pelo ministro Sérgio Moro ao ser pego com a boca na botija) e os pensadores pós-modernos.
Em primeiro lugar, acusando as “implicações culturais” do pensamento do pós-modernismo de nomes como Foucault, Derrida, Lyotard e Baudrillard – o colapso das narrativas oficiais, o niilismo, o desconstrutivismo, o relativismo e o desaparecimento das noções filosóficas de realidade e objetividade.
“Podemos afirmar com segurança que Trump jamais teve contato com as obras de Derrida, Baudrillard ou Lyotard e os pós-modernistas dificilmente poderiam ser culpados por todo o niilismo que paira livremente pelo planeta” (p.53), até admite a autora.
Para mais tarde descrever como, lentamente, as ideias da academia migraram para o mainstream político depois de a crise da noção de “realidade” (a âncora filosófica da “verdade”) foi se infiltrando na cultura popular da literatura, cinema e música pop através de artistas como David Bowie, David Lynch, Quentin Tarantino, Thomas Pynchon, Philip K. Dick, entre outros.
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Bowie, Tarantino, Lynch: deixaram entrar na cultura pop a chaga do pós-modernismo… |
Pensamento invertido
Ora, provavelmente por Kakutani ser uma crítica literária, ela inverte as relações de causalidade – como se o debate filosófico e cultural é que produzisse estragos no mundo político e econômico. Filósofos como Baudrillard e Derrida nada mais fizeram do que refletir ou teorizar sobre transformações que o capitalismo tardio pós-guerra estava gerando na sociedade com a aceleração tecnológica e as transformações nas relações de trabalho e exploração.
Assim como Baudrillard falava do “crime perfeito” (o “assassinato do real”) não como se o seu pensamento tivesse cometido esse crime epistemológico: Baudrillard refletia como a aceleração tecnológica em direção à virtualidade do real (dos parques temáticos como Disneylândia aos capacetes de realidade virtual do Vale do Silício) criava mundos solipsistas, niilistas, no qual o hiper-real era mais preferível do que “o deserto do real”.
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Kakutani às voltas com RAVs |
Russos são “RAVs”
Kakutani parece confundir o mensageiro com a mensagem. E Imputa a culpa nos… franceses. Afinal, a tecnologia (marco de pureza do progresso norte-americano) é supostamente neutra e só cria seus “lados sombrios” quando “agentes mal-intencionados” sequestram as bem-intencionadas ferramentas tecnológicas.


