Mantega rompe o silêncio para criticar “esperteza daninha de Paulo Guedes”

4 de outubro de 2020 57

Do artigo do ex-ministro Guido Mantega na Folha de S.Paulo.

Depois de mais de três anos afastado do debate nacional por um recolhimento autoimposto, decidi vir a público para comentar a esperteza daninha do ministro da Economia, Paulo Guedes, de tentar esvaziar o orçamento apertado das escolas públicas para financiar o projeto Renda Cidadã do presidente Bolsonaro.

 

Num país com carências educacionais gigantescas, Guedes não hesitou em propor a utilização, para outro fim, de uma parcela da nova receita do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), aprovada neste ano pelo Congresso. Também sugeriu, ao arrepio da Lei de Responsabilidade Fiscal, dar calote nos precatórios das dívidas reconhecidas pela Justiça com aposentados e fornecedores.

Tais manobras, que burlam as limitações do teto de gastos que os próprios conservadores aprovaram –daí a esperteza–, levou economistas próximos do mercado a comparar tais iniciativas ao que teria acontecido no governo Dilma Rousseff, de acordo com a narrativa incorreta. O denominador comum seria a “pedalada fiscal”, uma acusação que, se teve consequências políticas, pois serviu de pretexto para o golpe contra a presidenta, nunca encontrou sustentação técnica, até por ter sido corriqueira em governos anteriores.

 

É uma comparação esdrúxula. Os governos do PT, que tive a honra de servir, jamais desviaram dinheiro da educação para qualquer outra finalidade. Ao contrário, durante os três mandatos e meio do PT, as despesas com educação subiram de R$ 30 bilhões em 2002, para mais de R$ 100 bilhões em 2015. Mencionar Dilma para criticar Guedes revela apenas a desonestidade intelectual de quem procura estabelecer simetrias inexistentes entre as duas figuras públicas.

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