Marcos Lisboa: A reforma da Previdência apenas estabiliza o paciente,
Marcos Lisboa: A reforma da Previdência apenas estabiliza o paciente
por César Locatelli
O discurso dos economistas neoliberais começou a mudar. Eles têm consciência de que a Reforma da Previdência não vai entregar o que tem prometido. Extremamente revelador, o artigo de Marcos Lisboa, “Quem sabe?”, para a Folha de S.Paulo deste domingo (2/6), diz que: “A reforma da Previdência, porém, apenas estabiliza o paciente”.
Está evidente a opinião de Lisboa de que, com a reforma, não haverá crescimento, nem aumento do emprego, como está sendo propagandeado pela imprensa corporativa. Mas mesmo sabendo que não vai resolver, ele continua a fazer campanha pela reforma, atribuindo a queda de viadutos e o incêndio no museu às pensões dos aposentados:
“Com as regras atuais, não há crescimento econômico factível, ou da carga tributária, que evite o aumento descontrolado da dívida pública e a degradação da infraestrutura por falta de manutenção, com queda de viaduto e queima de museu, em decorrência dos gastos crescentes com aposentadorias.”
O jornalista e professor Lalo Leal Filho revelou sua indignação, ao artigo de Marcos Lisboa, em seu perfil no Facebook:
“Chego até o final do segundo parágrafo de um artigo do presidente do Insper, na Folha, e fico sabendo que a Previdência é culpada pela queda de viadutos e de incêndios em museus. Pelo jeito ela deve ser culpada também pela chuva que cai em São Paulo. E há gente que paga fortunas para estudar em escolas onde ensinam essas barbaridades.”
Interessante como o crescimento econômico, que resolveria grande parte ou todo o problema fiscal, pelo aumento da arrecadação de impostos que se seguiria, não passa pelo raciocínio dessa ala de pensamento econômico. Bem, na verdade eles até argumentam que o crescimento está limitado. Essa é outra mudança de discurso ainda mais interessante. Os economistas neoliberais, especialmente aqueles empregados no mercado financeiro, começam a defender a tese de que o produto potencial brasileiro caiu.
O que é isso? O que isso significa? Bem, produto potencial é a produção máxima de uma economia, ou o produto máximo, que se pode alcançar se todos os fatores de produção (trabalho, por um lado, e capital, por outro, formado por máquinas, equipamentos, instalações, matérias-primas) forem completamente empregados.
Era meio consenso, antes da guinada desse grupo, que o produto potencial brasileiro permitiria um crescimento em torno de 3%. Em outras palavras, só pelo aumento do emprego dos trabalhadores e pelo aumento da capacidade já instalada, seria possível crescer 3% ao ano. Lisboa puxa a fila dos que acreditam que o país destruiu capacidade produtiva:
“Para agravar, o ambiente de negócios condena o Brasil a um crescimento potencial medíocre, talvez de 1% ao ano. Podemos ter surtos curtos de recuperação da produção, mas apenas isso.”
Essa afirmação de Lisboa, e ele não está sozinho, revela que o Brasil destruiu capacidade produtiva. Ele não para por aí, ele já levanta as próximas bandeiras que a política econômica deve tremular diante de nós:
“As restrições ao comércio exterior contribuem para a nossa baixa produtividade. As regras de conteúdo nacional e as barreiras à importação dificultam o acesso do setor produtivo ao que melhor se faz em outros países, como as inovações tecnológicas que aumentam a eficiência dos bens de capital.”
Eliminar as barreiras às importações será a próxima bandeira, quando tivermos descoberto que o congelamento de gastos, a reforma trabalhista e a reforma da Previdência não empurraram a economia brasileira para fora do atoleiro.
O México teve a infelicidade de ter tido muitos governos neoliberais antes de eleger agora López Obrador. A desigualdade e a falta de perspectivas levaram milhões de mexicanos a tentar a vida nos EUA. Mesmo com o NAFTA – Tratado de livre-comércio com EUA e Canadá – a vida da maioria dos mexicanos não melhorou. E o discurso dos neoliberais continua mudando e apontando o que ainda falta para o paraíso.
Lisboa não falou de privatização nesse artigo. Deve ter se esquecido.