Martin Wolf quis dizer “capitalismo trambiqueiro”, por César Locatelli

23 de setembro de 2019 191

Martin Wolf quis dizer “capitalismo trambiqueiro” 

por César Locatelli

Vários economistas que respeito recomendaram fortemente o artigo de Martin Wolf no Valor Econômico de sexta (20). Tentei ler, mas não consegui. A matéria era exclusiva para assinantes (deixei de assinar o jornal quando resolveram fazer política partidária, como os outros). Percebi, no entanto, que o artigo era traduzido do Financial Times de quarta (18), que, surpreendentemente, consegui abrir.

Fiquei surpreso com a diferença entre o título original e o título traduzido. Resolvi ir até a banca comprar o Valor. Em português lê-se “Capitalismo rentista ameaça democracia”. O título em inglês é “Martin Wolf: why rigged capitalism is damaging liberal democracy”. Achei bastante discutível traduzir “rigged capitalism” por “capitalismo rentista”.

Na linha fina, subtítulo, o Valor traz: “A economia não está mais beneficiando a todos, o que está gerando um perigoso avanço populista”. Na versão em inglês temos: “Economies are not delivering for most citizens because of weak competition, feeble productivity growth and tax loopholes”. A mudança da linha fina é quase tão questionável quanto à do título. Seriam filigranas (termo da moda), essas escolhas de termos, ou tirariam luz de aspectos relevantes?

“As economias não estão produzindo o resultado esperado para a maioria dos cidadãos por conta da fraca competição, débil crescimento da produtividade e evasão fiscal”. Assim seria o subtítulo mais adequado ao que Wolf quis dizer. O foco não é o populismo, tampouco existe a ideia de que a economia um dia beneficiou a todos, mas não está mais beneficiando. O foco é no ganho desproporcional dos grandes grupos, fruto de um mercado onde a livre concorrência inexiste, na estagnação da produtividade e nas brechas da legislação fiscal.

Wolf se exaspera com os lucros registrados por empresas dos EUA em paraísos fiscais: “As corporações dos EUA registram ‘sete vezes’ mais lucros em pequenos paraísos fiscais (Bermudas, Ilhas Britânicas do Caribe, Luxemburgo, Holanda, Cingapura e Suíça) do que em seis grandes economias (China, França, Alemanha, Índia, Itália e Japão). Isso é ridículo”. Seria necessária uma justificativa muito forte para retirar “evasão fiscal” do subtítulo do artigo dele.

 

Igualmente relevante é a questão da concorrência.

 

O termo rentismo, em português, leva a maioria a imaginar, na definição de Hoauiss, a “economia que possibilita viver sem trabalhar com o que se aufere de rendimentos”. Os rentistas seriam aqueles, empresas e pessoas, que vivem de rendas, que aplicam na dívida pública, por exemplo, e recolhem gordos juros. Também aqueles que detêm ações de empresas e recolhem dividendos livres de tributação. Mas o termo “rent” quer dizer mais que isso.

O próprio Wolf explica:

“Por que a economia não está produzindo o que prometeu? A reposta reside, em grande medida, no avanço do capitalismo rentista (rentier capitalism). Neste caso ‘rent’ significa recompensas além daquelas necessárias para induzir a oferta desejada de bens, serviços, terra e trabalho. Capitalismo rentista significa uma economia na qual o mercado e poder político permitem, a indivíduos e negócios privilegiados, extrair grande parte desse ‘rent’ de todos os outros [indivíduos e empresas].”

Um exemplo típico é a empresa monopolista que pode cobrar o que bem entender por seus produtos ou serviços. Esse tipo de empresa consegue extrair lucro acima do que seria um “lucro normal” de todo mundo. Talvez devêssemos traduzir esse “rent” como “renda extra” ou “sobrerrenda” ou “renda de monopólio”, para não confundir com a renda que usamos normalmente. Vejamos como Wolf enfatiza que além de se beneficiar dessas “rendas extras”, as grandes corporações as criam:

“Em tais casos, ‘as rendas extras’ não são meramente exploradas. Elas são criadas, através da ação de lobby por brechas fiscais injustas e distorcivas e em oposição às regulações necessárias de fusões, de práticas anticompetitivas, de má conduta financeira, do meio ambiente e do mercado de trabalho. O lobby empresarial subjuga os interesses dos cidadãos comuns. De fato, alguns estudos sugerem que os desejos das pessoas comuns influem quase nada nas decisões de políticas públicas.”

Adicionando todos os ingredientes, podemos perceber por onde passa a destruição da democracia: temos economias que, há 40 anos, desaceleram o crescimento da produtividade, elevam a desigualdade de renda e riqueza às alturas, provocam gigantescos choques financeiros, permitem que privilegiados retirem “rendas extras” e escondam seus ganhos da tributação, pagam remunerações a seus executivos-chefes 347 vezes superiores ao trabalhador comum, dificultam a entrada de novas empresas e promovem concentração de mercado.

 

“Capitalismo rentista” não parece ser a melhor definição desse estágio das economias. Talvez por isso Wolf tenha usado a expressão “rigged capitalism” em seu título original. A tradução deveria ter sido “capitalismo fraudulento”, “capitalismo trapaceiro”, “capitalismo trambiqueiro”.

De todo modo, Martin Wolf, um dos mais proeminentes arautos do conservadorismo liberal, alerta: “A forma como nossos sistemas econômicos e políticos funcionam têm que mudar, ou perecerão.”