Mortes por câncer de próstata aumentam em SC; saiba quando buscar ajuda

6 de novembro de 2023 73

Santa Catarina registrou 534 mortes por câncer de próstata em 2022, o segundo pior patamar anual na série de registros da Diretoria de Vigilância Epidemiológica catarinense (Dive-SC) sobre a doença. O cenário desperta dúvidas sobre como se prevenir e quando buscar diagnóstico, o que o Ministério da Saúde recomenda apenas aos homens com sintomas, entendimento que divide opiniões de especialistas.

O pior número na série histórica disponibilizada pela Dive-SC, com início em 1996, foi atingido em 2019, quando a enfermidade causou 542 óbitos em Santa Catarina. Nos anos seguintes, esse patamar diminuiu, até que, de 2021 ao ano passado, subiu 5%. Em 2023, já há ao menos 382 mortes no estado.

O urologista Vicente Codagnone Neto, com atuação em Santa Catarina, avalia que o aumento dos óbitos pode ser uma das heranças da pandemia, devido a pressão da Covid-19 sobre o sistema de saúde ter minimizado a atenção a outras doenças, caso do câncer de próstata.

— Com a pandemia, muitas pessoas deixaram de ir aos seus médicos e de fazer esse acompanhamento. A partir do momento em que a pessoa não faz os exames preventivos, acaba tendo um diagnóstico em uma fase mais tardia, o que aumenta o risco de morte — pondera o especialista, ao NSC Total.

 

Antes de 2019, os registros de mortes pela doença em Santa Catarina, assim como em todo o país, já mantinham tendência de alta. O Ministério da Saúde avalia que, em maior escala, isso se deve ao envelhecimento natural da população, uma vez que o risco do câncer de próstata aumenta entre homens mais velhos, e à melhor sensibilidade dos diagnósticos, que reconhecem agora casos antes ignorados.

Em 2023, a previsão da Secretaria de Estado de Saúde (SES-SC) é de haver 1,7 mil casos em Santa Catarina. O câncer de próstata é o segundo mais comum entre homens, apenas atrás do de pele.

Quando buscar diagnóstico sobre a doença

A detecção da doença tem início a partir do toque retal ou do exame de sangue do antígeno prostático específico (PSA), uma proteína que pode indicar alteração da próstata. Caso haja algum indício, são necessários novos exames, como a biópsia, em que uma amostra da próstata é retirada para análise.

A próstata é uma glândula que produz um líquido que compõe o sêmen. Ela está presente na frente do reto, abaixo da bexiga. Entre jovens, tem o tamanho de uma ameixa.

A recomendação atual do Ministério da Saúde, alinhado à Organização Mundial da Saúde (OMS), é que essa triagem seja feita, contudo, apenas entre pacientes que já tenham algum sintoma, por entender que a literatura médica indica até aqui que o rastreamento, ou seja, a tentativa de detecção entre homens assintomáticos, pode trazer mais prejuízos do que benefícios.

Um paciente assintomático pode apresentar, por exemplo, alteração no exame do PSA, mas não ter um câncer. Pode também ocorrer o contrário: o exame indicar normalidade erroneamente. O indivíduo pode acabar então sendo submetido ao que especialistas chamam de sobrediagnóstico e sobretratamento, quando são aplicados procedimentos em excesso em resposta a casos de falso positivo.

A biópsia na próstata, por exemplo, é considerada uma medida invasiva e pode causar complicações como dor, sangramento e infecções, além de ansiedade e estresse no indivíduo e na família.

Mesmo a identificação exata de um câncer de próstata exige a avaliação criteriosa sobre o tratamento, uma vez que a doença é considerada indolente, por ter crescimento lento, e não impõe necessariamente risco de vida a todo paciente. Uma intervenção cirúrgica pode causar impotência sexual e incontinência urinária, o que precisa ser compartilhado com cada paciente, também segundo o Ministério da Saúde.

“[O ministério] orienta ampla discussão sobre os possíveis riscos e benefícios para a tomada de decisão compartilhada com os homens que solicitarem exames de rastreio”, explica a pasta em nota técnica do último dia 16 sobre o temaO órgão ainda prevê os seguintes sintomas para busca de diagnóstico:

  • Dificuldade de urinar;
  • Demora em começar e terminar de urinar;
  • Sangue na urina;
  • Diminuição do jato de urina;
  • Necessidade de urinar mais vezes durante o dia ou à noite.

Há controvérsias, no entanto, sobre investigar ou não a doença ainda que sem sintomas. A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) também não recomenda o rastreio universal, mas orienta que homens com ao menos 50 anos consultem o urologista periodicamente para discutir benefícios e danos da triagem. Entre pacientes negros ou com histórico familiar da doença, ela propõe consultas desde os 45 anos.

Em posicionamentos sobre o tema nos últimos anos, a SBU reforça haver indicação pela literatura médica de que o tratamento a partir do diagnóstico precoce lida com um menor risco de morte. Além disso, a queda no rastreio pode estar associada à maior incidência de câncer de próstata metastático, quando a doença se espalha para outras partes do corpo e é mais difícil de ser controlada.

O médico especializado em uro-oncologia Vicente Codagnone Neto, membro da SBU, diz já haver ainda procedimentos menos invasivos, caso da cirurgia robótica, o que ajuda a sobrepor benefícios a riscos.

— Uma das vantagens dela é que se faz pequenas incisões para o acesso, com pinças robóticas. Nós controlamos por uma tela em que enxergamos a cavidade abdominal em três dimensões. Então, a gente consegue preservar melhor o nervo responsável pela continência, ter um intervenção mais preservadora funcionalmente, além de uma recuperação mais rápida, com menos risco de sangramento e de infecção — diz o médico, que atua na Uroclínica e no Imperial Hospital de Caridade (IHC), em Florianópolis.

É ao menos consenso entre especialistas a indicação de algumas medidas preventivas para a redução de fatores de risco para o câncer de próstata. Entre elas, estão o controle do uso de tabaco, redução do consumo do álcool, menor exposição a agentes químicos, promoção da atividade física, alimentação saudável e com baixo consumo de gordura de origem animal, combate ao sedentarismo e à obesidade.

Fonte: Paulo Batistella