Mourão se empenha para mostrar que é diferente de Bolsonaro: veja a lista de contrapontos
Reportagem de Bernardo Mello no Globo informa que, escolhido como vice na chapa de Jair Bolsonaro depois que outros nomes não emplacaram, Hamilton Mourão coleciona declarações que fazem contraponto a posições do presidente — algo raro no entorno de Bolsonaro, que costuma ter defensores fervorosos entre seus três filhos e aliados. O vice costuma negar que se porte de maneira antagônica ao chefe intencionalmente — no sábado, por exemplo, definiu sua atuação como “complementar” à de Bolsonaro. Mourão chegou a cometer um ato falho ao defender na segunda-feira sua lealdade durante viagem aos EUA, cujo roteiro foi criticado por bolsonaristas. General da reserva, o vice brasileiro buscou uma analogia militar para reafirmar seu apoio ao presidente, ex-integrante da Brigada de Paraquedistas no Exército. Ao fazer uma metáfora de sua relação com Bolsonaro, Mourão tropeçou ao usar uma expressão que indica justamente uma falha de equipamento.
De acordo com a publicação, os desencontros nas declarações de presidente e vice vêm desde a campanha, mas não deixaram de ocorrer no governo. Na última semana, Bolsonaro corrigiu Mourão publicamente sobre a articulação do governo no Congresso. O vice declarou, na quarta-feira, que o presidente poderia oferecer cargos a partidos para formar uma base aliada no Congresso. Para Mourão, era “óbvio que eles vão ter algum tipo de participação, seja em cargos nos Estados, algum ministério ou algo do gênero”, em caso de apoio a Bolsonaro. Após se reunir com lideranças partidárias, o presidente negou que tivesse oferecido cargos e cutucou Mourão.
Durante a campanha, Mourão foi desautorizado por Bolsonaro após algumas de suas entrevistas ganharem repercussão negativa. O então candidato a vice-presidente chegou a afirmar que o brasileiro havia herdado “a indolência do índio” e “a malandragem do negro”. Também fez críticas ao 13º salário e citou a possibilidade da convocação de uma Assembleia Constituinte formada por “notáveis”. À época, Bolsonaro definiu os posicionamentos do vice como “caneladas” e tentou tirá-lo dos holofotes. Na política externa, os dois divergiram sobre a relação com a China e, nas visitas aos Estados Unidos, tiveram agendas diferentes. Mourão participou da Brazil Conference, promovida pelas universidades de Harvard e do MIT, e se reuniu com pensadores associados à oposição a Bolsonaro, como Roberto Mangabeira Unger, ex-ministro de Lula e guru ideológico de Ciro Gomes, completa o Jornal O Globo.