Na calamidade, dois sinais da virtude e três da canalhice do ser humano

15 de maio de 2024 37

Quando é que o Ministério Público, com todo o poder que tem para defender direitos difusos, vai começar a atuar contra os que espalham fake news?

O presidente Lula disse ontem que o povo brasileiro merece o Premio Nobel da Paz por suas demonstrações de solidariedade aos gaúchos vitimados pela calamidade climática. Merece mesmo, o Brasil inteiro está vendo. Outro prêmio poderia ser dado ao povo gaúcho por suas demonstrações de amor aos animais. Além de milhares de pessoas, as  forças do Estado e os abnegados voluntários salvaram mais de cinco mil animais, com destaque para a estrela de ontem, a égua Caramelo.

Mas, se a calamidade está permitindo que venham à luz estas  virtudes do ser humano , ela também vem  revelando o lado escuro da alma de alguns membros desta tribo. Felizmente, de uma minoria, mas nem por isso deixa de ser decepcionante e revoltante.

 Falo dos que, enquanto seus semelhantes morrem afogados, perdem tudo o que tinham na vida, estão abrigados às centenas em locais coletivos, enfrentando agora o frio, a falta de água e comida, afora a dor dos que perderam entes queridos, os degenerados dedicam-se a três maldades imperdoáveis: difundir fake news,  roubar das vítimas e dos voluntários e estuprar ou praticar assédio sexual contra mulheres em situação de extrema vulnerabilidade.

Do coração generoso dos brasileiros falam, primeiramente, as centenas de voluntários que se atiraram às águas, com seus barcos, jet skis e até mesmo colchões infláveis para salvar a vida dos semelhantes.  Outros preparam panelões de comida em cozinhas improvisadas debaixo de lonas pretas, distribuem as doações, compartilham o que têm. Do coração generoso dos brasileiros falam os R$ 78 milhões já transferidos para o pix oficial do governo do estado, sem contar as doações em dinheiro que estão sendo feitas a entidades de boa reputação envolvidas na grande ação humanitária. Na base aérea de Brasília as doações materiais (roupas, comida, remédios etc) chegam o dia todo, e o mesmo acontece, em várias cidades do país, nas agências dos Correios e em outros pontos oficiais de arrecadação. Nem vou falar dos gestos de tantas celebridades e artistas também engajados nesta amorosa oferta de ajuda aos gaúchos.

Do amor aos animais fala o resgate da égua Caramelo e as centenas de cães e gatos resgatados, para os quais também estão chegando doações de rações. A primeira dama, Janja, conseguiu a doação de uma tonelada junto a uma empresa do ramo e fez a entrega no domingo, enquanto Lula fazia aquela reunião com o arco das instituições republicanas para firmar o compromisso de apoio irrestrito ao Rio Grande. Janja voltou na quarta-feira com 25 toneladas de doações, agora para humanos. Lula disse que para amanhecer ontem, ficou pensando no cavalo que estava dormindo sobre um telhado, no que ele estaria sentindo ou pensando o animal. Janja, que continua lá, acompanhou emocionada o resgate do equino.  Falo do casal presidencial porque eles são símbolos, mas o que se fez pelos animais foi obra de muitas almas sensíveis.

Agora, espalhar mentiras com propósitos políticos numa hora destas?  É intolerável.  A filha de um blogueiro banido das redes sociais postou mentiras horrorosas sobre Felipe Neto, que doou mais de 200 purificadores de água. Estaria ganhando comissão do fabricante e coisas assim.  Inventaram que caminhões com doações foram barrados por autoridades  e não puderam chegar ao destino. Que o Exército ocultou 300 corpos de gaúchos mortos para evitar o pânico. E até a Folha de São Paulo, que é da família real da mídia,  inventou que o governo brasileiro recusou o helicóptero e as lanchas oferecidas pelo Uruguai. Estas e tantas outras mentiras têm sempre o objetivo de desacreditar, seja pessoas, como Felipe Neto, ou instituições da democracia.  

Quando é que o Ministério Público, com todo o poder que tem para defender direitos difusos, vai começar a atuar contra os que espalham fake news?

Passemos à segunda canalhice. As mulheres,  sem dúvida, são as que mais sofrem naquela calamidade.  Mulheres com filhos ou que perderam filhos. Mulheres grávidas, idosas, doentes, cadeirantes, e também mulheres jovens. Elas viram a água entrar em suas casas, subiram aos telhados com seus filhos (e pets), algumas foram içadas por helicópteros, tantas foram rebocadas por botes e barcos. E tantas morreram. E como se não bastasse tanto sofrimento, muitas estão enfrentando assédio sexual e tentativas de estupro nos alojamentos. Algumas foram estupradas e seis estupradores já foram presos.

A ministra da mulher, Cida Gonçalves, participou de uma reunião virtual com 40 pessoas, entre representantes de entidades, vítimas e testemunhas. Ouviu horrores. Ir ao banheiro de noite pode ser perigoso. Elas pedem que, quando a situação permitir, sejam criados alojamentos só para mulheres.  Um sujeito que se permite abusar de uma mulher numa situação destas deve ser escravo de seus instintos mais primitivos.

Da mesma forma, já devem ter perdido uma parte de sua humanidade os bandidos que estão se aproveitando do caos para roubar e assaltar.  Imagine-se a situação:  Dois homens na beira d’água, fingindo risco do afogamento, gritam para o barco que passa pedindo socorro. O barco é ocupado por dois  voluntários, que se aproximam e tratam de resgatá-los. Já dentro do barco as falsas vitimas sacam as armas, rendem os socorristas e os jogam na margem, partindo com o barco. 

Casas abandonadas pelos moradores, caixas eletrônicos, lojas de produtos valiosos fechadas, e até mesmo pessoas que se movimentam com o celular na mão são assaltados. A situação melhorou depois que o ministro Lewandowski mandou mais 100 homens da Força Nacional de Segurança, alguns estados também mandaram policiais e a PF enviou uma equipe do Rio.  Mas continuam havendo assaltos.

Para todos eles, a lei, a punição  e o desprezo da maioria que tem alma clara.

Fonte: TEREZA CRUVINEL
A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)

Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br