Não é que Lula não queira deixar a prisão. O que ele não quer é voltar
2 de outubro de 2019
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Nem todo o público consegue perceber as verdadeiras intenções do ex-presidente Lula ao recusar o benefício da progressão da pena, que poderá livrá-lo das grades para cumprir prisão domiciliar, apenas com o inconveniente da tornozeleira eletrônica. E de ser forçado a trabalhar, o que, para ele, deve significar exatamente isso: trabalho forçado. Explica-se: é que embora metalúrgico de origem, Lula sabe mesmo é fazer política, o que não pode, pois está com os direitos suspensos.
Na verdade, o movimento que o ex-presidente ensaia nessa partida de xadrez que joga com o judiciário é chamado de "roque": o rei troca de lugar com a torre para permanecer no mesmo lugar e fortalecer a defesa, enquanto espera os resultados de seu ataque. Não é que ele não queira sair da prisão. É claro que quer. O que ele não quer é voltar. Sua esperança está na manutenção do status auto conferido de preso político enquanto aguarda uma possível anulação da sentença de Moro no caso do triplex.
Se bem sucedido nessa jogada, ele poderia enfrentar a próxima condenação, que já está na bica, em liberdade, sem tornozeleira (e trabalho), como réu primário e muito maior força em sua narrativa de perseguido político. Ficaria muito mais difícil fazê-lo voltar a Curitiba. O problema é que com ou sem a progressão da pena, sua vaga no sistema penal está assegurada. Apesar da maioria dos ministros do Supremo estar ávida por ver Moro pelas costas, eles não vão embarcar na tese incendiária de Marco Aurélio Mello.
A razão é simples: autopreservação. Apesar do convencimento pessoal de cada ministro de que sua função deva ser de natureza contramajoritária, como gostam os juristas, a opinião pública importa sim. E muito. É complicada a manutenção do frágil equilíbrio institucional brasileiro. E ninguém duvide de que é enorme a tentação de enviar para lá "um cabo e um soldado". A insistência com que se buscam assinaturas para a CPI do lava toga demonstra isso.
Daí que Lula pode esquecer. Melhor seria passar alguns dias em casa antes de voltar à prisão. O STF quer a cabeça de Moro, mas não será agora, que ninguém quer colocar o pescoço à disposição da guilhotina. Luiz Inácio pode esquecer. Talvez o melhor seja mesmo permanecer na cela, cujas benfeitorias já estão consolidadas. É que, se ele sai, pode ser que não volte para o mesmo lugar. E a vida no sistema penal não é assim tão boa.
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