O bandido que mudou São Paulo
O bandido da Luz Vermelha, João Acácio Pereira da Costa, está para São Paulo como Jack, o Estripador está para Londres. Os dois casos envolvem personalidades misteriosas e cruéis que mudaram os padrões de segurança em suas cidades. São Paulo nos anos 1960 era provinciana e romântica, apesar da já visível desigualdade social e do forte desenvolvimento industrial. Nesse momento histórico, as relações interpessoais se davam nas calçadas, nos portões, a vizinhança se conhecia e a garotada jogava bola até tarde na rua. Os poucos muros e portões que existiam eram baixinhos e um confortável sentimento de proteção predominava. Com o surgimento do bandido da Luz Vermelha, que invadia casas para roubar, estuprar e cometer outros atos de violência, veio o medo do crime. A paranóia com a segurança aumentou. E São Paulo nunca mais foi a mesma. “As ações de Luz Vermelha foram um divisor de águas na cidade” afirma o repórter e escritor Gonçalo Junior, que acaba de lançar o livro “Famigerado! — A História de Luz Vermelha, o bandido que aterrorizou São Paulo”, no qual conta a atuação de um dos mais notórios criminosos que já existiu no País.
Difícil de ser enquadrado no estilo da bandidagem da época, Luz Vermelha era vaidoso, vestia-se de forma a chamar atenção, sempre com cores vivas, chapéus extravagantes e lenços de caubói cobrindo o rosto. Era apaixonado pelos artistas da Jovem Guarda, especialmente por Wanderléa, a “Ternurinha”. Bissexual, gostava de usar perucas. Costumava também se passar por músico, carregando a tiracolo uma guitarra que havia roubado. Fazia o tipo sedutor, mas era capaz de espancar a coronhadas suas vítimas e destruir narizes de meninas a pancadas depois de arrastá-las pelos cabelos. João Acácio entrou para história como um criminoso esperto e cruel, que zombou das forças policiais durante anos. A trajetória começou com roubos e desmanches de carros no Rio de Janeiro. “Ia para o Rio de ônibus e voltava de carro. Chegou a roubar 50 veículos”, conta Gonçalo Junior. A polícia conseguiu desbaratar a quadrilha que ele liderava, mas sua destreza e inteligência, além da capacidade de efetuar atos imprevisíveis para se safar da cadeia, permitiam que escapasse. O dinheiro dos roubos e negócios com carros foi gasto em produtos supérfluos e em noitadas na boca do lixo.
Diversas identidades
Entre março de 1966, até a madrugada de 5 de agosto 1967, quando foi preso, Luz Vermelha passou a roubar casa e mansões em São Paulo. Chegou a praticar assaltos quatro dias por semana, sempre das 2 às 4 horas da madrugada. Foram 180 dias de roubos e estupros em que saqueou 150 casas. A polícia, confusa com a explosão da criminalidade, demorou a perceber que João Acácio se passava por quatro assaltantes diferentes: o bandido incendiário que tocava fogo nos corredores das casas para provocar pânico e acordar os moradores, o bandido mascarado que roubava joias, o bandido macaco, por usar um macaco de carro para abrir as janelas, e o apelido que o deixou famoso nacionalmente, Luz Vermelha, quando comprou uma lanterna na antiga loja de departamentos Mappin que tinha um aro avermelhado. Viu-se sua vida glamurizada no filme “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla. “Seus crimes nunca foram tratados adequadamente. Eram estupros! João contava que prendia os maridos no banheiro e fazia fuque-fuque com as mulheres”, diz Gonçalo.

Luz Vermelha vestia-se de forma a chamar atenção. Costumava se passar por músico e fazia o tipo sedutor, mas era capaz de cometer os piores atos de violência (Crédito:Nelson Almeida)