Olavo de Carvalho, Fernando Henrique Cardoso e os comunistas do Plano Real.

28 de março de 2019 154

Publicado originalmente no Jornal GGN

 

POR LUÍS NASSIF

Admito que nos anos 90 convidei Olavo de Carvalho para jantar em casa. E admite que foi uma visita muito divertida e prazeirosa. Ele havia trabalhado no Jornal da Tarde alguns anos antes de mim. Conversamos sobre o tema. E ele me surpreendeu ao admitir que era louco.

– Sou louco, sim. Mas tenho uma vantagem: percebo quando vou entrar em surto e me interno antes.

Era parte do seu humor.

Quem primeiro me alertou sobre Olavo foi minha ex-esposa. Tinha um amigo de BH que frequentara seus cursos e me encaminhou um artigo muito interessante, sobre o apego dos intelectuais pelas teorias que os consagraram. Chamava-se “Ciência e Demência”.

Mencionei o artigo em uma coluna, na Folha, e recebi um e-mail emocionado do Olavo, por ter furado o cordão de isolamento da grande imprensa. Pouco antes, ele tinha algum espaço em O Globo, mas do qual foi expelido pelas posições radicais. Depois, baixou sobre ele a cortina da invisibilidade, enquanto discípulos, valendo-se de todo o instrumento retórico que ele havia criado, galgavam posições na imprensa.

Digo isso para salientar que Olavo nunca foi um arrivista, como tantos. Era um escoteiro solitário e corajoso, plantando suas ideias em cursos e pregações. Me encantou tanto esse aspecto escoteiro dele, que aceitei seu convite para uma palestra em Curitiba, onde ele começara a plantar suas sementes.

Só ao chegar lá me dei conta do messianismo que havia se instalado entre seus adeptos. Fiz uma palestra sobre a destruição da economia brasileira pelos juros do Banco Central e voltei correndo, arrependido até a medula pela solidariedade a ele.

Mas durante o jantar aconteceu um diálogo curioso, que ajuda a explicar a piração de Paulo Guedes hoje, no Senado, chamando de esquerdistas os economistas do Real.

Olavo sustentava que FHC era um perigoso esquerdista e que o Banco Central era o último reduto de resistência. Discordei. Disse que as políticas monetária e cambial do BC estavam destruindo o setor produtivo.

No dia seguinte, em seu blog, havia um artigo dele dizendo que a arma de FHC para implantar o comunismo era o próprio Banco Central.

Terminado o jantar, fui levá-lo à pensão em que se hospedava em São Paulo, uma cabeça de porco caindo aos pedaços, desmentindo seus críticos que atribuíam suas posições a interesses financeiros.

Posteriormente se fixou nos Estados Unidos, bancado por Guilherme Afif Domingos e a Associação Comercial de São Paulo. Depois disso, passou a burilar seu discurso aos impulsos de sua assembleia de seguidores. Tornou-se um propagandista apenas. E perigoso, porque semeando a irracionalidade em um país que enlouqueceu.

O que Olavo dizia por convicção, seus seguidores, como Guedes, repetem por malandragem.